Coisas de Nada 
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palavras. palavras. palavras.

 

FACING west from California's shores, Inquiring, tireless, seeking what is yet unfound, I, a child, very old, over waves, towards the house of maternity, the land of migrations, look afar, Look off the shores of my Western sea, the circle almost circled; For starting westward from Hindustan, from the vales of Kashmere, From Asia, from the north, from the God, the sage, and the hero, From the south, from the flowery peninsulas and the spice islands, Long having wander'd since, round the earth having wander'd, Now I face home again, very pleas'd and joyous, (But where is what I started for so long ago? And why is it yet unfound?) R.W.Emerson .

 

Give all to love; Obey thy heart; Friends, kindred, days, Estate, good fame, Plans, credit, and the muse; Nothing refuse.

 

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Victor, o Blogado

Cambaio

Raquel Sarandy Telas

Julinha

Lê Alegria

Maré Zero

Estado Crítico

 

Quarta-feira, Julho 02, 2008


“Enfim, além de todas as vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos pode se tornar jovem, representar todos os papéis, ser pudica, e embelezar-se até com a própria desgraça. (...) A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a donzela verdadeira nada pode satisfazer.”
Balzac



Sexta-feira, Março 21, 2008


Supérfluo

Eu achava que
não viveria
sem poesia.

Mas quando tive
de viver,
vivi;
a poesia
não me ajudou mais
que a prosa da vida
cotidiana.

Acordar, arrumar,
planejar, somar,
subtrair, pagar,
estudar, estudar,
trabalhar
trabalhar
trabalhar.

Onde estava a poesia?
Não passava por mim
nem quando via
flores e pássaros e a Lua.

A vida pragmática
é um pouco rasa
mas sem ela,
sem ela
não se vive.

Poesia é artigo de luxo.



Sábado, Novembro 17, 2007


Faça

Vivemos reclamando do vizinho, do trânsito, da cidade, da violência, do Brasil, do mundo. Mas o que fazemos para melhorar a situação? Normalmente, quase nada. Pensando nisso, listei aqui algumas ações bem simples que podem ajudar a fazer diferença. Pode parecer que eu esteja repetindo o que todo mundo fala, mas acho que é o mínimo que posso fazer: ajudar a pôr na cabeça de quem esbarrar nesse blog que é possível, sim, melhorar o mundo com pequenas ações.

-Recicle o lixo. Se a prefeitura ainda não faz isso, ligue para a associação de catadores de papel mais próxima (em BH, Asmare -3201-0717) e diga que está interessado em fazer um convênio, depois telefone para a prefeitura da sua cidade e encha o saco deles até implantarem a coleta seletiva. Até lá, tome a iniciativa você mesmo e traga a idéia para a reunião de condomínio do seu prédio.

-Faça uma limpa no seu armário e na casa toda e se livre de tudo aquilo que não usa. Roupas, sapatos, brincos, caixas, brinquedos, livros, o vigésimo nono conjunto de tupperware, aquele refratário que você ganhou de presente há 17 anos e nunca usou. Muita gente ficaria feliz em ter cada uma dessas coisas que você nem lembra que tem.

-Não dê esmola em dinheiro: dê roupas, dê comida, converse com as pessoas.

-Jogue o óleo de cozinha no lugar certo, que não é o ralo da pia. No Rio, acesse o site http://www.disqueoleo.com.br/. Em BH (e provavelmente em outras cidades também), um dos locais que recebem óleo usado armazenado em garrafas pet é o supermercado Extra. Se o Extra mais perto de sua casa ainda não tem o coletor apropriado, ligue para o SAC da empresa: 0800-7732732.

-Feche a torneira enquanto escova os dentes e o chuveiro enquanto se ensaboa.

-Recicle pilhas e baterias de celulares, câmeras digitais, controle remoto, relógios etc. Elas contêm materiais que contaminam o solo e os lençóis freáticos. Sempre há lugares que recebem - em BH, por exemplo, o Banco Real.

-NUNCA, JAMAIS jogue lixo no chão, nem no mato. Leve um saco no carro, carregue outro para a praia. Nem chiclete deve ser jogado na rua, nem canudinho na areia. E, se vir alguém fazendo a barbaridade de jogar lixo no chão, não tenha vergonha e repreenda - sempre com educação.

-Falando em saco plástico: compre uma sacola de compras ou leve caixas de papelão na mala do carro quando for fazer supermercado. Reduza o uso de sacos plásticos ao mínimo necessário - o plástico demora de cem até 450 anos para se decompor.

-Se estiver dentro das suas possibilidades, "adote" uma criança carente de uma creche ou escola. Com R$30, 80, 100 por mês - quanto você puder e quiser - você pode ajudar uma criança a pagar material escolar, uniforme, lanche, sapato, ônibus. Se achar que não pode contribuir com nada, que seu orçamento está apertado, talvez seja hora de se organizar: às vezes a gente gasta 200 reais sem perceber, pagando estacionamento, pizza, sorvete, jantando fora, comprando coisas de que não precisamos.

-Novamente, se estiver dentro das suas possibilidades, dedique algum tempo a um trabalho voluntário. Ensinar uma língua, um esporte, visitar idosos, ler para cegos, dar aulas de reforço escolar...sempre há o que fazer. Uma forma de dar o primeiro passo para procurar quem precisa de ajuda é acessar o site http://www.voluntariado.org.br/.

-Dirija com calma. Lembre-se de que você não é a única pessoa que está com pressa de chegar a algum lugar. Se alguém fizer uma barbeiragem, segure-se e não xingue. No máximo, faça uma cara de desaprovação, seguida de um sorriso... A educação é mais importante que o seu orgulho ferido por ter sido passado para trás. E, se a barbeiragem partir de você, peça desculpas. Você vai desarmar o motorista que estava preparado para mandá-lo para aquele lugar.

-Diga as palavrinhas mágicas "por favor", "obrigado", "bom dia". Sorria para o ascensorista, para o gari, a faxineira - pessoas que trabalham para que sua vida seja mais confortável. Seja educado com todos, sem distinção de classe, cor ou seja o que for.

-JAMAIS fure fila. Não seja ridículo. Seja quem for, você não é melhor do que ninguém.

-Desista do seu baseadinho inocente. Droga não tem NADA de inocente. Agora já virou clichê dizer isso, mas a sua maconha do fim de semana ajuda, sim, a financiar o tráfico e engendrar a violência de que você tanto reclama. Você pode ser a favor ou contra a descriminalização, mas, enquanto ela não for realidade, seja responsável e deixe seu beckzinho de lado. E não venha com aquela desculpa esfarrapada de que "eu compro de um conhecido meu que planta em casa".

-Seja honesto nas mínimas coisas. Subornar o guarda de trânsito coloca você no mesmo nível do político que desvia dinheiro público. Pegar balinhas inocentes nas Lojas Americanas, comer pão-de-queijo no supermercado e sair sem pagar, comprar CDs e DVDs piratas, não devolver o troco dado em excesso, sonegar imposto, falsificar carteirinha de estudante - se você faz algo assim, não tem moral para falar do Renan Calheiros.

-Não desperdice comida. Compre o necessário, e se achar que não vai comer tudo, dê para alguém antes que vença o prazo de validade.

-Esse é o mais difícil e mais polêmico: não gaste dinheiro à toa. Vivemos numa sociedade em que se acredita que, se ganhamos dinheiro com nosso trabalho honesto, podemos gastá-lo como bem entendermos. Em parte, isso pode ser verdade - quem controla seu salário ou sua mesada é você. Mas não exagere. Mesmo que você não tenha roubado de ninguém, é um contra-senso gastar R$1.000 em uma calça jeans, R$2.000 em um vestido. Para quê comprar um carro de R$80.000, sendo que um pela metade do preço vai te levar ao mesmo lugar? Não seja escravo da moda, dos últimos lançamentos, da ditadura do status e das aparências. Construa sua personalidade em cima do que você é, e não do que você tem. Não incentive o consumo desenfreado e irresponsável. Não pode ser considerado normal gastar dois salários mínimos em um tênis em um país em que as crianças morrem de diarréia.


Nada disso é impossível de ser feito; só precisamos nos acostumar à idéia de que quem deve agir é cada um de nós e parar de confortavelmente culpar o governo, a história do Brasil, o Congresso, o Bush ou Deus...Ponha as mãos na massa.



Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Caution:

Eu costumava ser uma pessoa boa. Não que hoje eu seja péssima, mas é terrível sentir como a gente endurece mesmo. Não acreditava que isso pudesse acontecer. Achava que minha personalidade da infância e adolescência seria a minha personalidade para sempre. Sei que o íntimo, as convicções, a índole, alma ou o que quer que seja, essas coisas não mudam assim tão rapidamente. Mas são as pequenas atitudes que vão nos transformando em pessoas menos tolerantes, menos pacientes, mais críticas. Hoje eu me forço a ter um impulso que até bem pouco tempo atrás era natural: compreender alguém antes de julgar. Por que essa criatura está sendo tão grossa comigo? Por que é tão invejosa? Por que motivo será que cospe fogo e jamais dá bom dia ou boa noite? Quase nada acontece por acaso, e pouca gente é má ou estúpida de graça. Antes eu compreendia isso instintivamente; hoje, muitas vezes primeiro julgo, depois me arrependo e tento compreender, mas aí já pode ser tarde demais.

Ainda assim, eu vivo repetindo que prefiro ser considerada boboca a desconfiar de tudo e de todos. Prefiro ser passada para trás a decretar que a natureza humana é podre e que, no fundo, todo mundo é mau, muito mau. Mas o problema é que eu estou deixando de ser boboca. Estou me tornando uma criatura daquelas que analisam os outros dos pés à cabeça, que calculam o potencial de atitude em cada fio de cabelo antes de pensarem na hipótese de atribuir um pouquinho de confiança a um ser humano.

Portanto, para quem acha que ainda sou aquela Renatinha boazinha, coitadinha, tão legal, que ajuda todo mundo, que não se importa em ser a última da fila, que sorri ao levar uma patada, que dá de bom grado o último biscoito do pacote para qualquer um - mantenha distância, pois por dentro eu posso estar me mordendo de raiva e preparando uma pequena vingança inconsciente. Cuidado comigo.



Sexta-feira, Setembro 01, 2006


Da Pepa

Como ando preguiçosa e com sentimento de culpa no ápice, faço minhas as palavras da Sra. Giosa Pierrobon. Até porque não há mais o que dizer quando a Margarida do Rock já disse tudo. Em resumo: Futebol é o escambau.




Segunda-feira, Julho 03, 2006


O ópio...

Nesse blábláblá do fiasco da seleção tem muita coisa que dá raiva, e muita coisa engraçada também.

Mas, sinceramente, as melhores partes são:

1) ver na televisão aqueles coroas gordos que não sabem nem jogar bola de gude metendo o pau, inventando coisa em cima do que já tá mais que feio. Caramba, teve um do ESPN que disse que era um absurdo o Robinho abraçar o Zidane depois do jogo...fala sério, não sabe nem andar de bicicleta com rodinha...

2) ver como os brasileiros se revoltam um milhão de vezes mais com a seleção do que com o mensalão. Isso mostra que cada povo tem o Congresso (e o time) que merece.



Terça-feira, Fevereiro 21, 2006


Meu encontro com Bono Vox

Fim do ano de 2000. Eu era estagiária. Pedi (ou quase implorei) para a chefe me credenciar para a coletiva de imprensa do U2, que estava no Brasil para divulgar o álbum "All that you can't leave behind" e fazer um showcase para meia dúzia de metidos a besta convidados do Fantástico. Primeiro, fui receber a banda no aeroporto. Eles chegaram pelo outro lado, driblando imprensa e fãs. Fiz uma materinha boba com os alucinados que os esperavam vestidos de U2 da cabeça aos pés, com as meninas do fã-clube que pintaram "U2" nas unhas e se tatuaram, com o perdido que deixou o cabelo crescer, fez um penteado estilo Bono e comprou óculos coloridos iguais aos dele. Dia seguinte, fico sabendo que fui credenciada como fotógrafa, já que o mestre underground Nervoso era nosso repórter oficial de cultura.

Chegamos ao Copacabana Palace. Eu dizendo sou fã, mas não sou tiete, e pensando que tinha a obrigação moral de perguntar alguma coisa na coletiva, qualquer coisa. Mas não fazia idéia do que seria. E estava tensa, sei lá por quê.

Conseguimos sentar mais ou menos na quinta fila do auditório. Subi no palquinho onde eles sentariam e posicionei meu gravador debaixo da boca imaginária de Bono Vox. E parti com minha Mavica, na época ainda uma boa câmera digital, hoje um trambolho ridículo. Quando entrei na salinha, aquele bando de fotógrafos se amontoava em um espaço mínimo, em cima de uma espécie de palanque. Na frente, uma placa de madeira com fundo branco. Eu, grande e de salto, não podia dar um passo à frente sem que aquele enxame reclamasse: "Quem é grande fica atrás!!" Fiquei no meio, encolhidinha. Então anunciaram que eles vinham aí. Bono foi o primeiro a entrar, de preto, sempre, e fazendo um "V" com os dedos da mão direita. Dave Evans, vulgo The Edge, meio tímido, sorridente. Larry Mullen com aquele ar blasé de quem sabe que já nasceu cool. Adam Clayton, a essa altura, confesso, nem consegui perceber.

Eles começaram a fazer aquelas poses: Bono chutando o ar, agachando, The Edge cruzando os braços, Larry jogando na nossa cara o ar de sou foda. Os fotógrafos frenéticos pediam Bono, olha pra cá!, hey Bono!, please smile, The Edge! etc. E sacudiam tanto que metade das minhas fotos ficou tremida. Até que Bono Vox veio andando até nós e pegou a câmera de uma baixinha que estava na frente. Excuse me, e começou a tirar fotos do bando de patetas que estavam lá para tirar fotos dele. Devolveu a câmera à moça, que não sei se ficou feliz por ter sido a escolhida, ou p. da vida por ter perdido fotos que todos teriam.
E eles saíram. E saí eu, correndo para pegá-los a tempo no salão da coletiva. Afinal, todos aqueles fotógrafos podiam ser profissionais e coisa e tal, mas nem todos tinham conseguido duas pulseiras: uma de acesso à area de fotos, outra à da entrevista. Uhuuuuu.

Sentei ao lado do André Nervoso, logo na primeira cadeira no corredor. Contei para o meu pacientíssimo companheiro que tinha acabado de ver o U2 a três metros de distância! Uau! Alguns minutos depois, eles entraram pela lado direito do palco. Foram andando vagarosamente, os repórteres de pé, sabe-se lá se por reverência ou porque se esqueceram de sentar. Então aconteceu. O Boa Voz andou até o meio do palco, mas, em vez de subir e se sentar, virou para o "público" e veio andando. Cumprimentou o pessoal da primeira fileira, How are you doing, ou apenas sorrindo. Quando chegou à quarta fileira da direita, me veio aquele frio na barriga. Gente, ele vai apertar a minha mão! Foi um pouquinho além. Paul Hewson me olhou, dobrou um pouco os joelhos e se abaixou, como as mulheres fazem no meio da quadrilha em festa junina, ou como faziam as damas vitorianas. Um segundo depois ali estava Mr. Paul Hewson pegando na minha mão, e não a apertando como se fosse a de um homem, mas fazendo menção de beijá-la. Chegou bem perto, e, confesso, não consigo lembrar se ele realmente beijou ou se apenas encostou nela. Eu estava em transe. Ele soltou minha mão, sorriu e voltou para o palco. Sentou-se e por acaso mexeu no meu gravador, como se o ajeitasse. Eu não acreditava. E ao mesmo tempo me sentia absolutamente grotesca por ficar tão atônita ao receber um beijo na mão, ou semi-beijo, e uma leve reverência de um cara, que, no final das contas, era só um cara que teve a sorte de ser bom no que faz e ficar famoso. Um ser humano quase como outro qualquer. Quase.

Durante a entrevista, o André me fez levantar a mão para fazer uma pergunta. Eu não tinha idéia do que dizer. Que se dane o jornalismo, eu quero é ir ao show. Tudo o que eu pensava era "Mr. Hewson, would you mind singing In a little while whispering in my ears?", mas achei que não ia pegar bem. Infelizmente, ou graças a Deus, minha vez não chegou (todo mundo queria ser ouvido por Bono Vox) e eu baixei a mão de fininho, sob olhares de protesto do impassível Nervoso, que também não teve vez. Para compensar, a última pergunta foi concedida a um jornalista argentino: "Maradona ou Pelé?", indagou o cidadão. "The best is George Best", mandou o diplomático e simpático The Edge. Risos. Fim.

Quando achei que minha aventurinha havia terminado, outra pequena surpresa. No dia seguinte, tive que ficar de plantão na porta do hotel - por motivos de trabalho, óbvio... Rolava uma história de que eles gravariam um clipe no Rio. Boato confirmado: lá estava o U2, primeiro no terraço, depois na varanda do Copacabana Palace, logo ali, no primeiro andar, com câmeras e poses de videoclipe. Bono cantou um refrão de algo que não era uma música deles, a galera repetiu, enquanto a câmera filmava os fãs e também nos enquadrava, nós, os coadjuvantes jornalistas. Todo mundo crente que ia aparecer de figuração no clipe do U2. Passou um tempo, eles desceram e entraram em uma van na porta do hotel. Eu estava bem perto da janela, e, obviamente, fiquei olhando lá para dentro. Até que ele, meu amigo Paul Hewson, olhou para mim e cutucou The Edge, que sorriu. Larry estava atrás, em seu mundo particular e perfeito, e Adam, mais uma vez, passou desapercebido. Mr. Paul deu então um tchauzinho, tapou a boca com a mão e me mandou um beijo. Achei que não era comigo, olhei para o lado, mas era comigo sim, não era possível...Ri, eles riram, e a van partiu, bem devagar. Eles não olharam de novo, aí já seria demais, e tudo voltou ao normal: U2 lá no estrelato, eu aqui no anonimato. Abestalhada e anônima.

Ao contrário daquela presidente do fã-clube, a menina que tatuou U2 no braço e pintou as unhas, não consegui ir ao showcase. Não apareci no clipe de Walk on. Não fui ao catártico show de ontem, e claro que não estou no Morumbi nesse momento, escrevendo no meu laptop. Mas ainda vou a um show deles, tenho certeza.

Moral da história: Katilce uma ova, eu sou mais eu!



Segunda-feira, Dezembro 19, 2005


O Rio fica a seis horas
e BH não tem praia, eu vou à piscina do Minas, e aqui tenho conhecidos que ainda não são amigos mas ficam cada vez mais gente boa, e aqui não tenho enzima brendase, nem tatiloka, nem sunset cliffs, nem twin, nem o Dois Irmãos, mas tenho uma família dorianna e a Lagoa dos Ingleses. E se aqui não pára de chover, aqui eu vejo cinco episódios de Friends e gargalho ao lado dele, e leio, e estudo, e durmo feliz com os pés quentinhos debaixo do edredon que eu nunca usei em Laranjeiras. Não tem Matriz, nem cobal, nem BG, mas tem ele rindo quando eu faço birra na quadra de tênis, tem ele querendo que eu almoce junto em vez de fazer francês, tem sobrinhos correndo pela sala, tem azulejos amarelos na cozinha e tem uma casa com horta e histórias em cada canto. E nós acreditamos, e rezamos, e dividimos uma pizza, e planejamos, planejamos tudo; e quando chega sábado eu nem lembro da Garcia. E se lá eu tinha um empreguinho num lugar considerado bacana, aqui eu tenho o dia inteiro de tranqüilidade e o trabalho com que há exatamente um ano eu sonhava. Amigos sempre fazem falta, mas eles estão pelo mundo, e eu sei que vou com eles: Istambul, França, Orlando, Itália, Barcelona, San Diego, Chicago, Recreio dos Bandeirantes. Mas o aqui caminha sem pressa, sem sobressaltos e sem agonia - o máximo que posso pedir para 2006 é tanta paz quanto a que tenho hoje. No fundo, acho que e aqui, advérbios, dão no mesmo: quem mudou foi o substantivo, o sujeito...Não consigo entristecer ou pensar em reclamar por mais de dois segundos. E se lá eu sentava em qualquer bar com amigos e ria, e conversava sobre coisas inúteis e coisas profundas ainda mais inúteis, aqui eu conto para ele o que eu aprendo, e ele me ajuda a escolher o melhor tênis para correr, e eu peço massagem nos ombros e ele me dá o mundo.
E todos os dias eu percebo que até o que me assustava faz cada vez mais sentido.



Quarta-feira, Dezembro 14, 2005


Unbelievable

Talvez todos já soubessem, mas só agora eu descobri que o senhor George W. Bush é formado em história por Yale (eu sabia que ele tinha ido pra Yale, onde teve desempenho pífio e bebeu muuuito. Mas história???) .
Além disso, fez MBA em Harvard. E é o primeiro presidente dos EUA com MBA.
Ou seja: apesar dos pesares, ainda prefiro nosso torneiro mecânico.



Domingo, Novembro 06, 2005


Cinco conclusões sobre Elizabethtown:

- Vale a pena ver qualquer coisa do Cameron Crowe;

- Orlando Bloom precisa malhar (muito) mais e dar uma boa engordada;

- Orlando Bloom deveria ficar nos épicos (ele convence mais como Legolas, Páris, Balian e pirata do Caribe do que como uma pessoa normal)

- A Susan Sarandon é linda e foda;

- Preciso de um rádio no carro para ontem.



Terça-feira, Outubro 25, 2005


***
eu prometo que vou atualizar
eu prometo que vou atualizar
eu prometo que vou atualizar
***



Sábado, Setembro 03, 2005


Ele, sempre ele


Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.


Fernando Pessoa



Quinta-feira, Setembro 01, 2005




"As despesas com festas e cerimônias dos ricos da capital paulista são maiores do que o consumo de arroz, feijão e cereais de 12 estados do Brasil."

(Pesquisa da Fecomércio)



Terça-feira, Agosto 09, 2005


Páreo duro com Mr. Paul Rabbit

Um mês de férias na faculdade. Resolvi tirar a cabeça da miséria e adiantar uns livros da lista infinita. O quarto e último que, depois de tomar coragem, resolvi finalmente pegar, foi o "fenômeno" O Código Da Vinci. Jurei para mim mesma que ia ler sem preconceitos, ler para me divertir mesmo, como eu costumava ler Agatha Christie. Se até o Miguelito gostou, devia ser bom. Estou ligeiramente atrasada, eu sei, o troço estourou faz tempo, mas vou ter que fazer uns comentários aqui.

O cara é engenhoso, isso temos que admitir. Ele faz um mosaico que aos poucos vai se montando e (quase) fazendo sentido. Agora, dizer que é bem escrito, como ouvi por aí, é um baita exagero. Encarar Dan Brown depois de ler Cem anos de solidão é dose. A impressão que tive é que estava lendo um roteiro de cinema (californiano). Mais: que o roteiro tinha sido baseado no Google e em meia dúzia de best-sellers polêmicos anteriores. Mas o pior foi se revelando aos poucos. A "pesquisa" dele tem muita cara de google puro. Ele erra ABSURDAMENTE.

Para começar, ele resolve falar de obras de arte e da Bíblia, mas parece não saber o básico de algumas obras que cita e nem ter sequer folheado as Escrituras. Ainda por cima, comete erros históricos graves - tão graves que até eu detectei alguns em segundos. Por exemplo: ele cita algumas vezes que o Vaticano fez isso ou aquilo no século IV depois de Cristo, ou nos primeiros séculos da Igreja primitiva. Alguém avise a ele que nessa época o "Vaticano" ainda NÃO EXISTIA. Mais: não se cansa de repetir que "Eva comeu a maçã". Dan andou lendo Branca de Neve, porque o Gênese diz "fruto da árvore do conhecimento". A maçã é fruto do imaginário popular, e, portanto, se o eruditíssimo Langdon é um grande conhecedor dos textos sagrados e coisa e tal, não pode ficar falando de maçã.

Outro "detalhe", esse bem, bem feioso: Dan Brown diz que, em 325, Constantino unificou Roma sob uma única religião oficial, o Cristianismo. Aloouuuu, quem oficializou o Cristianismo como religião do Império foi Teodósio, mais de meio século depois! O que Constantino fez foi decretar a liberdade de culto, e assim diminuir as perseguições aos cristãos (e a outros). Gente, se o cara faz um livro colocando falas na boca de supostos eruditos, que explicam os maiores mistérios do mundo, mas não leu nem um livrinho de segundo grau sobre o Império Romano, dá para acreditar em alguma coisa do que ele apresenta como verdade (mesmo que seja na boca de personagens)?? Nesses momentos confesso que achei o livro meio ridículo, de tão pretensioso.

Engraçado também é um furo sobre uma peça primordial do quebra-cabeça. Fica clara a defesa da tese da adoração à deusa, ao "sagrado feminino". A "deusa" seria Maria Madalena. Ao mesmo tempo, ele diz que os evangelhos apócrifos foram proibidos porque humanizam tanto Jesus que põem em dúvida a divindade dele. Porém, Maria Madalena seria sagrada porque...concebeu uma filha de Jesus! Mas, vem cá, se Jesus não era divino, como a divindade de Madalena adviria deste fato?? É só parar para pensar: não faz sentido. Mais uma vez, o tema aqui não é religião. É lógica, um dos alicerces em que ele pretende basear o livro.

Agora, antes que vocês perguntem, vamos a uns pequenos pormenores bem simples em relação às obras de arte, que, obviamente, não fui euzinha que percebi. O quadro de Caravaggio que Jacques Saunière, o curador do Louvre mortalmente ferido, levanta da parede, pesa quase 100 Kg; o quadro A dama dos rochedos, de Da Vinci, cuja tela Sophie Neveu ameaça rasgar com o joelho, foi pintado em madeira, ou seja, não tem tela. Esses detalhes que tornam inconcebíveis as palavras de Dan Brown foram apontados pelo Mario Sergio Conti num artigo no Estadão. Simplesmente Brown resolve elucidar o que Leonardo da Vinci pensava ao pintar suas obras, mas não fez nem o dever de casa pra saber se ele pintou em tela ou madeira. Lastimável.

Existem ainda muitos, mas muitos erros e falsidades no livro. Como não sou nenhuma intelectual, algumas coisas eu só desconfiava de que deviam estar erradas, mas meu letradíssimo sogro esclareceu várias dúvidas. Escolhi algumas das inúmeras para contar aqui.

-- Ele afirma que os merovíngios foram os fundadores de Paris. Só que a cidade foi fundada por uma tribo celta de gauleses chamada, em latim, de Parisii, no século II a.C. O que os merovíngios fizeram foi escolher Paris como capital em 508 d.C. Dan Brown errou somente 800 anos, além da responsabilidade pela fundação.

-- Diz que os manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1950 e que contêm a verdadeira história do Santo Graal. Eles foram descobertos em 1947 e são documentos dos essênios, seita judaica, e não contêm nenhuma menção a Jesus ou a Maria Madalena.

-- Pior: ele afirma (inventa) que Maria Madalena foi proscrita pela Igreja, a qual proibiu que se tocasse no nome dela, e que hoje ela está presente apenas em "mensagens subliminares" em obras de arte, músicas ou obras de Walt Disney (Mickey Mouse, aliás, parece ser, ao lado de Da Vinci, o maior defensor de Maria Madalena e do "sagrado feminino", segundo Brown). Novamente, peço para alguém avisar a ele que a Igreja a celebra como santa e que Maria Madalena é uma das poucas pessoas invocadas na Ladainha de Todos os Santos. E, ainda, há passagens no Novo Testamento (será que ele se deu ao trabalho de ler algum evangelho?) em que Madalena é abertamente exaltada.

-- Outro erro grotesco: ele diz que os judeus cultuavam uma deusa no Templo de Jerusalém, a shekinah. Shekinah não é nome de deusa, mas sim a designação que os rabinos davam à presença de Deus (Iaweh) junto ao seu povo.

-- Brown afirma que os evangelhos apócrifos contariam a "verdadeira história de Jesus", testemunhando que fora casado com Maria Madalena e que havia correntes cristãs que mantinham o culto ao "sagrado feminino". Mas obviamente omite o fato de que estes mesmos apócrifos (os quais foram escritos entre os séculos II e IV - alguns por seitas gnósticas -, ao passo que os Evangelhos do Novo Testamento foram escritos de 70 a 95 d.C., poucas décadas depois da morte de Cristo) reveladores provinham de ambientes que nós classificaríamos como machistas e continham textos nada agradáveis ao "sagrado feminino" e à "deusa". Eis um trecho do apócrifo de Tomé (114):
"Simão Pedro lhes disse: 'Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida.' Jesus disse: 'Eis que vou guiá-la para torná-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois toda mulher que se fizer macho entrará no reino dos Céus." Uau, o sagrado feminino bomba nos apócrifos!

Enquanto as "verdades" de Dan Brown são envoltas numa aura de mistério, essas poucas informações que estão aqui são verificáveis. Basta quem estiver a fim pegar livros de História, a própria Bíblia, estudos especializados de história religiosa...Gente, até os apócrifos podem ser lidos! Não precisa ir até os...tchanraannn...Arquivos Secretos do Vaticano!

Enfim, se você ler o livro como uma completa ficção, pode até ser legal. Realmente diverte, prende a atenção, como um livro policial ou um filme com o Morgan Freeman. Mas se você ler acreditando no que Dan Brown põe na boca de seus pseudoespecialistas Robert Langdon e Leigh Teabing, amigão, você estará adentrando num mar de ignorância disfarçada com uma pretensiosa aura intelectualóide. Se quer ler boa ficção sobre "mistérios da Igreja", vá de O nome da Rosa. Mas, policial por policial, ainda prefiro a humildade de Miss Marple e Hercule Poirot.

P.S. - Se alguma alma curiosa se interessar, tenho uma análise com muito mais informações sobre as maluquices do Uncle Dan - inclusive a desconstrução da lenda medieval do Santo Graal, meio grande para postar aqui.

P.S.2 - "P.S." na igreja de Saint-Sulpice não significa "Priorado de Sião", mas sim Pierre e Sulpice, os patronos do templo. E o destrinchamento da sensacional história da carochinha do Priorado também está disponível para quem se interessar.
Aquele abraço.



Quinta-feira, Julho 07, 2005


Se vocês me deixarem,
paro sob a luz e
obscureço;
vou depressa abnegar o presente,
protestar contra o típico,
desprezar o útil;
vou esquecer a história
e colecionar metáforas.

Escrever no escuro,
pensar poeticamente
como pensam os analfabetos
e acham que pensam os arrogantes;
vou usar a linguagem
do tamanho da imaginação
de quem escolhe
flutuar a aprender
algo que leve a dizer:
Sou alguém.

(Se tivessem suas vidas sido boas,
vocês saberiam de cor
seus próprios poemas
e não teriam função nem sentido,
mas seriam únicos
e, talvez,
ficassem hoje
à vontade.)

Se vocês me deixarem,
prefiro não me reconhecer
nessa corja feliz;
nada, porém, me impede de escrever
com uma vara de pesca
que me faça
escolher as palavras.

Como se eu pudesse
descer ao fundo do mar
com os olhos fechados
e assim mesmo
deslizar pelos corais
e voltar à tona
com as mãos e a mente
cheias de pérolas.



Sábado, Julho 02, 2005


Às vezes a vida é tão boa que dá medo.



Quinta-feira, Junho 09, 2005


Você acaba de perder a sua última chance de me conquistar

Tudo bem que eu tenho quase 400 amigos no Orkut. E que eu realmente conheço muita gente. E que, se eu "qui$er" viajar, tenho lugar pra ficar em muitas partes do Brasil e na Califórnia, Washington, Chicago, Flórida, Tennessee, Itália, Eslovênia, Croácia, Holanda, Argentina, França, Espanha e por aí vai. E tudo bem que sempre esbarro com gente conhecida, recebo e-mails saudosos e cartões de Natal (ainda existe gente fofa que manda cartão de Natal).

Pessoas, eu tenho inclusive uma comunidade no Orkut, "Amamos a Renatinha", com fiéis 20 participantes. A descrição diz que eu sou "super querida, amável, adorável, liiinda, amiga, companheira, carinhosa, alegre, brincalhona, inteligente, esperta, mulequinha, irmã, dedicada...etc etc etc!!" Uma formosura.

Mas a verdade é que eu acho que parei por aqui. Já estou bem de amigos e nunca mais vou conhecer alguém que eu possa mesmo chamar de "amigão". Tenho a impressão de que estourei a cota. Desperdicei alguns amigos por não dar a eles a devida atenção, ganhei outros por insistência (minha ou deles) e outros ainda apareceram assim, inesperadamente, e se transformaram em seres essenciais em poucos dias ou poucas horas.

Daqui para frente, porém, nada disso vai acontecer. Não é uma profecia auto-realizável - eu não vou parar de me comunicar e de me esforçar para vencer a timidez e distribuir simpatia. Nem tenho absolutamente nada contra os mineiros e mineiras. E não venham com essa de que, porque casei, vou virar um repolho anti-social. É uma sensação, uma constatação quase sobrenatural: grandes e eternos amigos não vão mais surgir na minha vida. Simples assim.

Afinal, mesmo com 400 "friends" no Orkut, teve um domingo em que eu queria ir ao cinema e NINGUÉM podia. E olha que eu estava no Rio...Ainda no Yakult, esses dias percebi algo estranho: alguém deixou de me amar. A comunidade que se declara à minha pessoa passou de 21 para 20 integrantes da noite para o dia. E jamais saberei quem desistiu de me amar.

Então: que diferença vai fazer se minha cota de amizades fortes tiver mesmo terminado? Se minha soulmate mora na Califórnia, minhas amigonas vivem indo para França, Espanha, Esteites ou trabalham 78 horas por dia, e mesmo assim nos vemos, nos amamos (sem precisar de comunidades) nos escrevemos e temos crises de risos à toa, que diferença vai fazer se eu morar em Belo Horizonte ou em qualquer outro lugar e não fizer mais grandes amigos??

Acabou. Quem conquistou, conquistou, quem não conquistou, não conquista mais. E tá bom assim.



Terça-feira, Abril 12, 2005


Uma opinião (publicação não autorizada)

"Sobre o Papa, gostava dele sim. E sei que não não era santo. Mas também nunca achei que deveria ser. É óbvio que existe toda uma política envolvida nas questões do Vaticano, é lógico que o Papa não é apenas uma autoridade eclesiástica e é claro que a Igreja tem um certo poder e algumas vezes comete erros, sim.
Mas isso não fazia dele um ditador, ou quase um anti-Cristo, como algumas pessoas parecem fazer crer. Mas faz algum tempo que eu não me importo mais com os anti-católicos. Nós já vimos celeumas parecidas no seu blog, e é sempre a mesma coisa, as mesmas criticazinhas infantis. Repare que são sempre os mesmos temas: ah, não deixa usar camisinha. ah, é contra o aborto. ah, a Igreja é rica. ah, não deixam padre casar. ah, a Igreja isso e aquilo.

E ainda dizem que o Papa faz as pessoas menos esclarecidas não se protegerem e essas bobajadas todas. Falando sério, se essas pessoas realmente obedecessem ao que o Papa diz, casariam virgens e não cometeriam adultério. Diminuiria em uns 60% a propagação da Aids!!! Ninguém é obrigado a ser católico e mesmo nós católicos sabemos que não seguimos tudo que mandam à risca. Mas não se pode querer que a Igreja pregue coisas que vão de encontro à sua própria doutrina!!!

O problema, eu acho, é que as pessoas confundem a Igreja Católica instituição, com tudo que a envolve, com a Igreja que eu, você e milhões de católicos levam dentro de si, que é a Igreja do Deus vivo. É o que chamamos Fé. E isso é um desrespeito. Como seria um desrespeito da minha parte confundir islamismo com terrorismo, ou o judaismo com terrorismo de Estado. Aliás, isso é mais ou menos o que certas pessoas fazem quando se referem às Cruzadas. Penso que se essas pessoas vivessem no ano 2.505, atacariam os muçulmanos da época citando a Jihad de hoje em dia.

Mas essas críticas vêm de pessoas que não têm a menor idéia do que realmente é a Igreja. Hoje em dia, quando escuto alguma besteira desse tipo eu já nem me importo mais, sabe? Na boa, falar mal do Papa é in, né? Essas pessoas acham que são antenadas e rebeldes, mas não estão fazendo nada além de seguir o status quo. É como fumar maconha e se achar transgressor. Patético, eu diria. Corajoso é ser católico e careta, eheh.

Putz, escrevi pra caramba.
Beijos,
X."



Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005


Mulheres de Minas

Elas são diferentes. Seus "sssssssss" soam esnobes e ecoam em todos os lugares, bem distintos dos "xxxxxx" preguiçosos das malandrosas cariocas. A porcentagem de saltos altos e cabelos lisos de chapinha é certamente superior à do Rio, igualável apenas às tchutchucas da Barra. Diria até que essas moças são moradoras de uma grande Barra da Tijuca, menos loura e pretensiosa, mais natural e provinciana. (As morenas mineiras, aliás, são lindas. A fama do estado deve-se a elas.)

Andar de havaianas na rua, nem pensar; no shopping, muito menos. E o mais incrível: no churrasco, chinelos não entram. Na maioria das vezes, nem o pobre biquíni entra. As mineiras não perdem a pose em hipótese alguma. Churrascão de fim de semana, piscina limpinha, mansão de frente para o lago, gramado enorme, cerveja, sol, e eis o que acontece aqui nessas paragens: os homens caem na água, jogam futebol de sunga, vôlei na piscina, bebem, ficam descalços e comem horrores. Já as fêmeas, cada vez que precisam se levantar (provavelmente parar irem ao banheiro ajeitar os cabelos impecáveis) lutam - sempre com classe - para se equilibrar em seus saltos agulha. As calças e saias jeans (Vide Bula e Zoomp, provavelmente) são completadas por variações de batas (as blusas da moda também aqui), rímel nos olhos, batom, cabelos chapados, bolsa arrumada, em geral de couro, combinando com o sapato e às vezes com o cinto, e brincões escolhidos a dedo. (Só consigo pensar, com minhas havaianas e rabo de cavalo: por favorrrrrrr, quem usa CINTO em churrasco???) Enquanto os rapazes jogam pelada, elas conversam, sabe Deus sobre o quê. Comem pouco, óbvio, mas avançam discretamente o sinal na hora de atacar um docinho.

Piscina, vôlei, futebol, banho de chuva, dançar, comer carne com a mão, caipirinha, "eu nunca", batucada, pés na grama, gargalhadas escandalosas: palavras que não fazem a menor falta a esses admiráveis seres, que conseguem ficar na sombrinha a tarde inteira. Segundo meu antropólogo involuntário particular, elas não se sentem à vontade para irem à piscina e adjacências porque têm vergonha de seus corpos. Parecem magras, mas talvez não estejam acostumadas a exibirem suas celulites (elas as têm?) na praia todo sábado e domingo...Resta-me realizar averiguações futuras na piscina do Minas Tênis Clube, que, dizem, bomba no fim de semana.

Mas o mais intrigante é que elas são gente boa. Mais do que educadas, acabam sendo calorosas - não do jeito esculacho-carioca, mas à sua própria maneira. Gostam de conversar (o sotaque molengo das mais afetadas é irritante, mas o meu também deve ser para elas, então estamos quites), quase não falam palavrão e não deixam suas gírias (elas existem?) à mostra. Apesar da aparência um pouco esnobe de quem não perde a pose nem na bebedeira, elas são legais demaissssss da conta.



Segunda-feira, Janeiro 10, 2005


Felicidade
é comprar uma passagem só de ida.



Quarta-feira, Janeiro 05, 2005


"...
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos
...."
Fernando Pessoa

Feliz 2005.




Terça-feira, Novembro 30, 2004


Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa

Quando em poucos meses nada menos do que seis pessoas surgem com o mesmo tipo de problema de saúde você começa a pensar: algo está acontecendo. Ou será que sempre esteve acontecendo, e só você não enxergava?

É difícil não encarar enfermidades e mesmo a sombra da morte como algo cruel. Por mais que tenhamos fé, cada um a seu modo. Nesses momentos vejo dois padrões (óbvios) de conseqüências: a fé da pessoa vítima e de sua família aumenta vertiginosamente (ou mesmo vem à tona pela primeira vez), e surge uma atitude de reflexão, de repensar a vida, uma reavaliação de prioridades, revisão de valores ou seja lá como se chama esse sentimento de que todo mundo está fazendo tudo errado.

A doença e o vislumbre da proximidade da nossa única certeza - a morte - são tristes por essência, em qualquer idade, em qualquer pessoa. Por mais que sua avó tenha 103 anos, você vai ficar abatido quando ela se for e vai desejar que ela tivesse vivido até os 104. Ou pelo menos mais um dia.
Mas nada muda o fato de que é muito cruel ver pessoas jovens e aparentemente saudáveis virem seu mundo virar de cabeça para baixo quando se deparam com o sofrimento, a dor, o medo de que aquele pesadelo não vá embora pela manhã, porque na verdade ele não é um pesadelo e o mundo é assim mesmo: num dia está tudo bem, no outro você pode quase morrer.

Não há nada mais humano do que a dor, e não há nada mais desumano do que a dor. E nesse paradoxo a gente vive, acreditando que nada vai acontecer assim tão perto, ou fingindo que a saúde imperfeita não está lá, à espreita.

Nesse exato momento há pelo menos três meninas que eu conheço, as três lindas, as três entre 26 e 28 anos, sofrendo por motivos mais ou menos parecidos: por medo, por antecipação, por dor, ou mesmo por esperança de voltar a ter uma saúde perfeita.

Por que será que "há tempos são os jovens que adoecem"? Será que eles (nós) sempre adoeceram e eu nunca percebi, por ser então jovem demais, por estar distante demais desse tipo de problema? Tento fugir da minha fobia de perda de saúde reafirmando que raramente fico gripada, que faço exercícios, não fumo e me alimento direito: sou "saudável", apesar de alguns desmaios por causa da pressão baixa. Mas os baques nessa falsa confiança não param de acontecer, assim como os inevitáveis balanços de vida, promessas de não odiar ninguém, de aproveitar cada momento, de fazer sempre a coisa certa e, acima de tudo, de aceitar o que quer que venha a ocorrer, tendo em mente que aceitar não significa se entregar.

Esses fatos, quanto mais próximos de nós, quanto mais inesperados, mais nos levam a querer mudar alguma coisa, mas é sempre difícil perceber exatamente o que deve ser mudado. A real mudança, afinal, só costuma acontecer quando perdemos o que, no dia anterior, parecia parte inequívoca da existência - a saúde. No fim, minha conclusão é sempre a mesma: tenhamos fé, e seja o que Deus quiser.



Terça-feira, Novembro 02, 2004


Dois anos de blógui. Produção cada vez mais sazonal, hipócrita e pouco pretensiosa. Mais ou menos dentro dos objetivos.



Domingo, Outubro 31, 2004


Antes do pôr-do-sol

22h. Pus a camisola e andei um pouco pela casa, meio sem saber para onde ir. Tomei um copo de suco de abacaxi, sem perceber; penteei o cabelo, cumpri os rituais. Mas minha cabeça explodia. Eu queria escrever, escrever, conversar, ver mais uns três filmes, entender. Não que me identificasse com os personagens - nunca passei uma tarde em Paris, nunca tive um "one night stand". Não defendo o meio ambiente, não escrevi um livro, não tenho 32 anos nem um casamento infeliz. Em hipótese alguma poderia concretamente me identificar com a vida daquelas duas pessoas fictícias. Ao mesmo tempo eu me via na tela - não em uma frase ou um assunto, mas como se o fio daquela pequena história fosse também o meu. No fundo, assim como aquele quase-casal, eu percebi que jamais compreenderia coisa alguma. E isso me colocava num estado de êxtase profundo, como numa libertação, algo que gerava um alívio. A partir daquele momento eu podia fazer tudo, criar, criar, criar tudo. Mas rapidamente o momento passava e lá eu estava novamente, questionando o destino, pensando no passado e em todas as coincidências e acontecimentos improváveis que haviam me levado até ali, até aquele perfeito novo momento. E eu não sabia mais exatamente o que queria criar.
Quando dei por mim já estava especulando novamente sobre Deus, o sentido da vida, o que faço nesse planeta e outras questões nada originais ou respondíveis. Ou então constatando como o Ethan Hawke - paixão platônica desde "Viagem ao mundo dos sonhos", que ele fez com River Phoenix - envelheceu e a Julie Delpy está mais magra. No primeiro a achei feinha, o Ethan lindo, o filme "fofo", e fiquei com raiva do fim indefinido. Hoje vi em tudo uma grande viagem existencial, tive vontade de morar em Paris e xinguei a Uma Thurman. Daqui a outros nove anos terei 33 e imagino que meus julgamentos serão bem diferentes. Ou melhor, espero entrar novamente num arrebatamento insano, mas com questionamentos talvez um pouco rasos e certamente definíveis. Ou, ainda, espero ter achado o filme não mais que "bonitinho" ou "interessante". Espero, como a maioria das pessoas comuns, torcer por um final convencional, com os dois juntos. Mas hoje, enquanto tomava meu suco de abacaxi, eu pensava, imbecil e romanticamente, que aquela só seria uma história de amor se eles jamais resolvessem ficar juntos, e logo depois cunhava sem querer mais uma frase pronta estúpida: O romantismo é a melhor imbecilidade que existe. De qualquer forma, aquela história não tinha absolutamente nada a ver com a minha vida - mas mesmo assim me incomodava. Como se através dela, finalmente, e mesmo que por um instante, eu pudesse ver que todas as coisas que eu quero não têm a menor importância e que o melhor seria viver naquele tal êxtase profundo, aquele desejo de escrever, conversar, criar, entender. Por mais que isso não levasse a nada e no fim da noite eu não soubesse nem a razão da minha insônia.



Sexta-feira, Outubro 22, 2004



Imagem escolhida para testar o sistema de fotos: o lugar onde eu gostaria de estar ao estalar os dedos.



Sexta-feira, Setembro 17, 2004


Em três dias:
Meu amigo querido lançou um livro.
Minha irmã passou num concurso público.
Minha melhor amiga arrumou uma "mamata" maravilhosa e se mandou para a França.
Meu primo foi promovido a administrador de um shopping aos 25 anos.
COMO É BOM FICAR FELIZ COM A FELICIDADE DOS OUTROS.




Domingo, Setembro 12, 2004


Pior do que não ter idéias legais sobre o que escrever é olhar a folha do Word e me sentir culpada. Culpada por querer escrever gracinhas em vez de estar estudando. Ou procurando empregos maravilhosos em BH. Ou fazendo as pesquisas que me comprometi a fazer. E não estou a fim de ficar postando coisas dos outros. Por isso, acho que vou ficar ainda um tempo longe daqui.
Estúpido, mas é verdade.



Sexta-feira, Setembro 10, 2004


Explicação?

"Enquanto houver homens sensatos sobre a terra, as mulheres letradas morrerão solteiras."
Jean-Jacques Rousseau



Quarta-feira, Setembro 01, 2004


Apesar de

"Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso."

Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"



Domingo, Agosto 29, 2004


OURO!!!



Quinta-feira, Agosto 19, 2004


Não resisto a uma boa idiotice


I am Vanilla Flavoured.
I am one of the most popular flavours in the world. Subtle and smooth, I go reasonably with anyone, and rarely do anything to offend. I can be expected to be blending in in society.
What flavour are you?





Sábado, Agosto 07, 2004


Todo mundo deve fazer um plano de previdência privada

Sempre foi ali, na Cobal do Humaitá. Um ou outro reclamava, mas o Pizza Park, o Espírito do Chope e o Puebla Café acabavam batendo a concorrência. A gente sentava e, nem bem eram pedidos os mates, guaranás diet e bebidas alcoólicas fermentadas, já se começava a falar mal da vida alheia.

De vez em quando surgia um "papo sério" sobre política, jornalismo, relações internacionais, sei lá o que. Mas a conversa sempre enveredava para os pitis da chefe, a intensa vontade de trabalhar do poeta Márvio, o rebolado da copeira Fabi, o nariz da recepcionista, as camisas furadas do Marcos Tendler, a ascensorista chamada Francisvênia (fato verídico) e, é claro, a uniformidade estética do Juppa - sempre com todo o respeito.
Alguns terminavam a faculdade, outros eram recém-formados, mas todos (ou quase) estávamos empolgadíssimos com a profissão, com o futuro brilhante que nos era reservado nos mais conceituados órgãos de mídia. Afinal, andávamos lado a lado com feras dos melhores veículos, em coberturas que iam do Rock in Rio a visitas do FHC e de rebeliões em Bangu a congressos internacionais sobre "as papoulas transgênicas da Guatemala", como diria o Werneck. A Tatilica, por exemplo, teve oportunidades únicas, como as de entrevistar o presidente da Nasa e de entrar para a História ao afundar de vez a plataforma P-36 em Macaé.

E o melhor, o melhor mesmo era aquele clima de oba-oba. Éramos todos (ou quase) sérios e dedicados, mas a verdade é que o trabalho era até divertido e as pessoas, sensacionais. Acho que jamais conseguirei reunir tão biodiversificada fauna num mesmo recinto - ainda mais numa sala com paredes de vidro e um divã vermelho com vista do 23º andar para a Praia de Copacabana, escoltada por aquele cachorrinho irritante do iG e pelo Zeca, o Schnauzer da chefe que resolvia fazer cocô no meio da redação.

Até bem pouco tempo atrás, costumávamos nos lembrar de nossas peripécias e rir pacas, e só. Mas estamos cada vez mais sérios, adultos, maduros, uau. Tem gente na IBM, na Petrobrás, em assessoria de imprensa, na Folha de São Paulo, em site de luxo - tem até um executivo do ramo de vacinas e uma que lava as roupas de baixo da Xuxa. E os papos, sempre entremeados com gargalhadas, os papos é que estão cada vez mais centrados, sérios, maduros. Fundo de renda fixa, o rendimento da poupança, problemas com o carro, o novo emprego, morar sozinho, por quê pagar à vista e não usar cartão de crédito, o custo de uma festa de casamento.

Há três anos alguém gritaria "Bora pra Matriiizzzz!!!" e a maioria concordaria. Iríamos a pé até a famosa Casa, jogaríamos Atari, riríamos do sofá da Coralina, provaríamos as perucas do brechó enquanto o Tendler apalparia um manequim. A vida era trabalhar e dançar dançar dançar. Agora, à meia-noite viramos abóboras e nos mandamos para casa. Fechamos uma conta tristonha de meia dúzia de refrigerantes, uns mates e três ou quatro chopes. Cansados e risonhos, constatamos que a Cobal do Humaitá ainda presencia as conversas sobre os indefectíveis pães-de-mel da Paula Pinto e as bizarrices do Chapa Quente, mas terminamos a noite concluindo que todo mundo deve urgentemente fazer um plano de previdência privada.



Sábado, Julho 24, 2004


Cogumelos de Curitiba

Era mais um fim de tarde sem graça e sem sol naquela cidade gelada. Andrea encostou-se no parapeito da janela do meu apartamento, soltou fumaça fazendo biquinho e proferiu a bela frase: "Intimidade é fazer cocô de porta aberta".

Ela me explicava porque ser casada aos 22 anos era "trilegal". Pensamento brilhantemente concluído, tirou de uma sacola o vestido prateado que eu usaria no casamento da vitoriosa dupla do esporte. Como a exuberância de Andrea em mim ficava a desejar, o traje coube quase que perfeitamente, apesar de meus muitos centímetros a mais de altura. Nos pusemos então a fazer o trabalho na mesa de jantar, enquanto o resto do grupo conversava e comia pipoca no sofá, em frente à estante com a televisão (em uma frase cabem todos os móveis do meu hospitalar apartamento na cidade do meu então vizinho Jaime Lerner).

Eu escrevia à mão e Andrea me ajudava a buscar trechos de livros, revistas e jornais. Cumpríamos a insólita função de especular de que forma Pierre Bourdieu analisaria o Programa do Ratinho. Foi minha última e hilariante ousadia em Curititba.

A bela gaúcha, ouvi dizer, se mandou para a França com o marido. Nunca mais soube dela.

Outras figuras do primeiro ano da faculdade de jornalismo me deixaram saudades, entre elas Alexandra, Dani e Carol - de tanto andarmos juntas, ganhamos o apelido de Spice Girls. Carol, a ruivinha, já é mãe aos 23 e tem uma pequena empresa de comunicação, assessoria ou algo parecido. Alexandra, linda, loura e tímida, menina de cidade do interior, era uma boa amiga, que participou dos meus últimos dias em Curitiba, foi à minha despedida, conheceu amigos do vôlei. Não tenho idéia de por onde anda. Já a Dani...um dia tocou o telefone na minha casa aqui no Rio. Era ela. Fiquei feliz por alguns momentos, até perceber que o que ela queria era que eu arrumasse uma casa em Búzios para ela ficar de graça com o namorado. Vendo que do mato não saía cachorro, desligou sem mais delongas. Não fazia questão de marcar um reencontro. Tudo bem: sei que sou meio fanática por essa história de reencontrar pessoas que nem lembram mais que eu existo.

O assédio masculino inexistia fora do ginásio do Tarumã, mas a universidade me rendeu uma fã inesperada, que deixava bilhetes apaixonados, poesias e até uma flor no vidro do carro. A moça, que eu nunca soube quem era, só desistiu depois que uma amiga dela que ligou para a minha casa ouviu em alto e bom som que sim, eu tinha namorado e não, eu não gostava de mulheres. 

Assim como ela, praticamente todos sumiram. Bernardo, que me perseguia pela faculdade e a quem eu carinhosamente chamava de "meu ET", às vezes dá sinal de vida, assim como Carol, que eu levei ao Pão de Açúcar quando esteve no Rio, há quatro anos. Tatiane, Kamila, Fábio, Amanda, Rubens, Karina - esses nunca mais vi. Talvez, se eu tivesse e-mail na época, teria mantido contato. Talvez não.

Como me disse Andrea, a bela gaúcha, certa vez: "Rê, tu sabe que tu vai fazer amigos sempre, não importa onde tu estiver. Mudar é sempre bom, tu sabe, tu vive mudando....Só, que, quando casar, não mude de marido!" Esperta, a Andrea. Seguiria todos os seus conselhos, exceto o tal da porta aberta. 




Quinta-feira, Julho 22, 2004


O quinto império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
- Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade, Europa
- os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Fernando Pessoa

colaboração do amiguinho Edu Fradkin, o fofo global



Terça-feira, Julho 13, 2004


Mutantes

Para quem gosta e para quem não conhece, uma boa chance de saber um mais sobre os Mutantes é o site que meu talentoso amigo Léo fez.  Confira.


FUI PESCAR.



Domingo, Julho 04, 2004


Amarelo Manga

Não sei de onde ele tirou, mas me deu ainda mais saudades do meu amigo Miguelito esta, digamos, matéria dele. Um espetáculo escatológico que merece ser lido.



Estou tão baratinada que passei manteiga no computador. Quero ir à praia, ao cinema, ler e dançar. Ao mesmo tempo. E comer sushi. E procurar emprego em Belo Horizonte. Será que alguém lá precisa de uma go-go-girl tímida e católica? Ou de uma revisora de rótulo de pão-de-queijo? De repente nisso eu dou certo.


Já não sonho

Já não sonho
que posso o que sinto,
nem tento
dormir nem pensar nem sentir
sem propor à razão absurda
a vontade ou a dor difusa
de imaginar um insosso porvir.

Não me espanto
com a cor ou as asas ou o cheiro
não me ensejo com qualquer encanto
seja o novo, o antigo, o certeiro:
nem nego, nem tento, nem aceito.

Já não sonho com a morna amagura
do que preferiria ter sido
palavras que caberia ter dito
um conto infantil sem sapo, príncipe ou rei
que quisera eu ter escrito.

Jamais chegarei aos pés de meus ídolos
nem surtirei efeitos em outras almas.
Tampouco me unirei a ícones
ou navegarei por mentes ousadas e calmas.
Passiva, inspiradora, oca fonte;
se tanto, serei trauma.



Quinta-feira, Junho 24, 2004


Nirvana, Cazuza e Mamonas

Sandália de couro com meia branca, all starr marrom. Repito: all starr MARROM. Ambos com camisas brancas levemente surradas, sem o menor resquício de marca, jeans amarelados, cabelos perturbadores. Sentados na lanchonete do nono andar da Uerj. Não tenho idéia do que falam.

- Eu acho que a gente tinha que escolher uma do Cazuza. Cara, olha isso, "eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades...". Tem tudo a ver com a gente, tem tudo a ver com a história, a história se repete. "Um museu de grandes novidades". Marx podia ter dito isso.

- É o bicho. Mas acho que tinha que ser uma coisa mais rock'n'roll, uns solos de guitarra, sei lá. Nirvana, de repente.

- Porra, mas o cara se suicidou! Nada a ver, sei lá.

- E daí? O Cazuza não morreu de Aids?

Consegui me concentrar novamente e estudar. Por pouco tempo.

- O Vinícius toca muito. Ele podia vir pra nossa banda, se a gente montasse de novo.

- É mermo. O cara nem é veterano e é foda. Foda.

- A gente podia começar tocando num churrascão. A gente toca, a carne queima, a galera descontrai, bebe cerveja e ri dos nossos erros.

- Pode ser. Ia ser foda de maneiro.

(Pausa)

- Imagina se a gente lança um CD, faz sucesso e morre num acidente de avião?

- Porra, tu quer ser os Mamonas??

- Claro que não. Aí é foda, ia ter que aparecer no Gugu. Não dá.

Eu definitivamente AMO a Uerj.



Terça-feira, Junho 08, 2004


Acordei na selva

Nunca fui uma pessoa muito ligada, muito perceptiva quanto à má-fé alheia. Sempre foi meio fácil se aproximar de mim e me explorar, me desejar o mal, tentar me prejudicar. Além de eu ser meio inocente demais, isso era também fruto de uma escolha minha. Por mais estranho que pareça, eu preferia correr o risco de ser magoada e traída do que viver com o pé atrás, desconfiando de tudo e de todos.

Com o tempo a gente endurece. A ternura continua lá, meio soterrada pelas decepções, mas o coração enrijece mesmo, se a gente não prestar atenção. No caminho, vamos encontrando pessoas invejosas, que torcem para que tudo dê errado para os outros, mesmo que nada disso vá melhorar suas próprias vidas. Particularmente, eu acredito que haja mais pessoas boas em geral do que más; porém, mesmo as boas têm seus momentos cruéis, enchem a boca para dizer "bem-feito", desejam que a outra, amiga ou não, se ferre. A natureza humana tem dessas coisas, todo mundo sabe. A diferença é que alguns lutam contra esses sentimentos vis, se policiam para não falar mal dos outros, tentam enxergar qualidades nos fulanos mais babacas que existem.

Sempre tentei ser assim. Desde o não falar palavrão até o não falar mal dos outros, não julgar ninguém como burro, feio, insuportável. Mas cada vez mais eu sinto que estou enfraquecendo. Estou mais suscetível à maldade alheia, quase acredito em mau-olhado e vibrações negativas. Começo a perceber quando a moça na sala de aula me olha com uma ponta de despeito, quando o cara responde todas as perguntas para se sentir melhor do que os outros, quando a senhora esconde de quem chegou atrasado a matéria que já foi dada. Às vezes até chego a sacar, ou pensar que saco, que alguma pessoa "tem algo de estranho" quando olho nos seus olhos pela primeira vez (como tenho a pachorra de julgar alguém em nome de um "sexto sentido"?). Acho que estou perdendo de vez aquela inocência que fazia de mim uma pessoa não necessariamente boba, mas boa.

Muitos me dizem que isso é ótimo, que assim eu me protejo, afasto o lado negro da Força e sigo minha vida sem ser prejudicada pelos outros. Mas eu preferiria voltar a ser como antes e crer na bondade de todas as pessoas, acreditar que algo nelas ainda pode ser mudado, que deve haver motivos para alguém agir de modo condenável e que minha missão é entender e tentar ajudar. Só conheci quatro seres puros assim: minha avó Olympia, minha amiga Ana Paula Platz, meu pai e meu namorado - estes dois já um pouco endurecidos pela vida, por mais que concordem comigo em teoria.

Queria voltar ao ponto de partida. Eu seria passada para trás e veria pessoas triunfando às minhas custas, mas não viveria enxergando as possibilidades de perigo, de inveja e de maldade em cada novo par de olhos que encaro.



Sábado, Maio 29, 2004


O mar

Tenho um amigo que queria ser historiador ou sociólogo, mas desistiu por pensar que seria muito pobre com o salário de professor. E também porque o que desejava mesmo era escrever sobre muitos assuntos, temas que não conhecia, que talvez ninguém por perto conhecesse. Ele caçaria as informações pelo mundo, conversaria com todos os especialistas das mais remotas áreas, e assim se tornaria um pequeno entendido em grandes coisas. No fundo, não saberia muito sobre cada assunto, mas teria a toda hora uma nova paixão para pesquisar, e, a melhor parte, um motivo para escrever.
Resolveu ser jornalista.

Quando percebeu que o trabalho envolvia muito mais - e, de certa forma, muito menos - do que imaginava, ele resolveu continuar assim mesmo. Afinal, o resto da profissão não era de todo ruim. A esta altura, já sabia que seria "pobre" de qualquer forma, fosse professor ou trabalhasse na redação de uma revista, sua grande vontade. Mas tudo bem: na escola ele tinha aprendido que o bacana era fazer o que gostava, que no fundo as coisas dariam certo para os esforçados e tal. Além do mais, o jornalismo lhe parecia uma profissão interessante em termos de intervenção social. Ele realmente imaginava que poderia ajudar a mudar algo, senão o mundo, pelo menos o seu indigente município, informar sobre coisas que ninguém imaginava, "formar opiniões".

Ele era também atleta, e o sonho jornalístico por conta disso foi adiado. Sonhava ir a uma olimpíada, embora o esporte não fosse o objetivo supremo de sua vida. Dedicou-se, foi mais longe do que esperava, mas ainda assim não passou da arrebentação da praia, somente chegou a vislumbrar o alto-mar. Nadou de volta por vontade própria.

Enfim, a faculdade. Aos poucos, a vida real ia dando as caras, mas, no íntimo, ele sempre confiava no seu taco, apesar da insegurança em inúmeros momentos. Afinal, aprendera no colégio que deveríamos ser bons profissionais e boas pessoas, pois assim adviria o paraíso na Terra - não um paraíso divino, mas um feito de bens, mulher, filhos, trabalho digno, carreira, férias e décimo terceiro salário. Recusava-se a puxar o saco, bajular, pedir para entrar pela janela. "Hei de vencer por meus próprios méritos", ele pensava nessas frases prontamente heróicas e admiráveis. Viajou, jogou, investiu, desistiu, se há sorte, ele não sabe, nunca viu.
Exagerado, sempre, dramatizou a vida o mais que pôde. Fotografou partes do que presenciou, criou uma fotonovela auto-referente, colheu telefones, endereços e e-mails freneticamente, visitou locais extraordinários, meio sem querer. Em certo ponto, numa dessas bandas formidáveis, pensou que a melhor vida que poderia ter seria a de balconista da loja de suvenires do Balboa Park. Tranqüilidade, salário suficiente, local aprazível. Mais uma vez, porém, desistiu da idéia e voltou à "vida real", essa coisa que as pessoas insistiam que existia. Trabalhou, estudou, amadureceu um pouco, mas o mundo não muda, as pessoas vão e vêm e o mundo não muda, mesmo que elas pensem que sim. Olhou para trás e lembrou que, nos últimos quatro mil anos, apenas uns 300 haviam sido de paz. E, mesmo nesses 300 restantes, muitos deviam ter se trucidado por ganância, por meio de sobrevivência ou simplesmente por tédio.

Isso ele percebeu no dia em que se lembrou daquela loja de suvenires. E aí matou a charada: era inteligente, bem-apessoado, tinha boa-fé, mas faltava-lhe aquilo que transformava simples mortais em empreendedores, para o bem ou para o mal - ambição. Resolveu, então, procurar um eterno pleonasmo, um sous venir, algo que lhe lembrasse a pequena loja de suvenires, onde a candura bastava e a ambição morava do outro lado do balcão, de segunda a sexta.

Na última vez em que nos encontramos, ele parecia sereno, num nível aceitável de triste inconformismo com o mundo que não muda e feliz com a busca pela realização daquela sua descoberta. A ambição, o motor da existência, era o que lhe faltava para viver no universo em que as pessoas obtinham "sucesso". Mas aquilo não deixava de ser fruto de uma escolha própria. Finalmente compreendera qual era realmente o tal objetivo supremo de sua vida: não ter nenhum objetivo tão grandioso que chegasse a tomar conta dele mesmo. "Um homem sem ambição é um homem livre", pensou, olhando o oceano, imaginando como seria o alto-mar e dando-se por contente ao decifrar nada além de cada detalhe das ondas na arrebentação da praia.



Sábado, Maio 15, 2004


Telefone

- Quando te conheci, pensei que você fosse uma patricinha. Sabe, aquele tipo inacessível para mim. Jamais seria minha amiga, e por motivos recíprocos.

- Algumas pessoas me acham metida à primeira vista. E antigamente muitos me confundiam com patricinha. Eu era loura, meio malhada, gostava de sair...Mas era quietinha e nada paty.

- Eu sei. Depois percebi. Você deve ser o tipo ideal de alguns caras. Cara de patricinha, simpática, mas com ar levemente esnobe, cérebro de quem gosta de Humanas, carioca da Zona Sul, ex-atleta. Uau.

- Bobo.

- Eu tenho uma queda por mulheres da área de Humanas, antropólogas, historiadoras, psicanalistas, sei lá, não tem nada mais sexy do que uma mulher inteligente. Mas acho que as patricinhas têm um quê de fascinante que não sabem explorar. O XY não suporta aquelas patricinhas que não assumem que o são, aquelas que se fazem de não-patricinhas superinteligentes.

- Ele abomina aquelas patys Espaço Unibanco...

- Exatamente. Mas eu acho que elas são mais acessíveis do que as patricinhas autênticas. Sabe, você leu livros sobre impressionismo, a cultura no século XIX, Ianomâmis e grafiteiros cool de Nova Iorque - além de coisas como Fante, Bukowski e o último do Chico. E você sabe onde ficam uns sebos de livros e LPs no Centro e em Botafogo. Aí você está comendo pão de queijo no Espaço Unibanco e puxa um papo na fila para ver um filme do Rohmer. Você pode falar sobre o período greco-romano, Fellini, Kubrick, a concessão enfitêutica no período feudal, iluminismo, Warhol e Duchamp. Fica implícito que você odeia o Paulo Coelho. E ela nunca vai descobrir que você jamais leu um pensador. Se desconfiar, você diz que achou melhor não ler para não prejudicar sua terapia existencial.

- Boa.

- Mas eu sempre quis sair com uma loura de academia. Consegui outro dia, conheci pela internet. Sabe como é, ela falava tipo assim, mas eu queria saber como uma loura malhada beijava. Deu pra rolar um arremedo de fantasia.

- Haha. Você não existe...

- As pessoas é que são muito malucas. Um dia um mórmon me abordou. Ele perguntou se eu tinha religião e eu disse que era católico apostólico romano. Perguntou se eu lia a Bíblia, e eu respondi que minha mãe lia o suficiente por mim, mas que eu era praticante. Ele quis me dar uns papeizinhos e me convencer de que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias era a melhor para mim. Eu disse que até gostaria de saber mais sobre o assunto e apreciava a abordagem, mas que não poderia aceitar impressos fora da minha religião. Coisa de quem fez desenho industrial, essa minha resposta, "impressos fora da minha religião". Eu também já fiz muitas coisas estranhas.

- Imagino.

- Fui uma vez à Vila Mimosa. Quatro vezes, na verdade. Fomos lá, bebemos cerveja e olhamos as moças de fino trato. Fiquei apavorado. É uma mistura de camelô, "Cidade de Deus", menininhas do interior, feira de São Cristóvão, filmes brasileiros daqueles antigos, cheios de barangas peladas, tudo em corredores e galerias surreais. Fiquei apavorado. Tinha criaturas que eu não sabia que podiam existir. Ao mesmo tempo, uma mistura de mulheres bonitas e outras horrorosas. E todas faziam sucesso. Bem, sei lá o que é sucesso nesse caso. Uma garçonete, entre aspas, usava uma roupa, entre aspas, que só tapava a barriga. É um lugar pra você ir com os amigos, beber, rir, e, quem sabe, algo mais. O pavor passa. É bem interessante.

- Imagino.





Sábado, Maio 08, 2004


À bela moça

Esperança,
Coragem, e
Fé.



Quinta-feira, Abril 29, 2004


Agora

Estou querendo parar de defender bandeiras sem mastro, de me agarrar a nuvens, de viver metade no pretérito, metade no devir, de acreditar na solidez do que desmancha no ar. Às vezes eu acho que deveria ser uma burocrata, engenheira, mestra em ciências atuariais, fazer aquelas coisas que são assim: PÁ-PUM, e pronto. Mas eu preciso de paragens loucas, decisões etéreas, vastas dúvidas. Preciso pensar como se pudesse interpretar cada detalhe do mundo de forma original ou pelo menos distorcida. Preciso agir como o demiurgo no princípio, quando era o caos, e organizar tudo do meu jeito desorganizado, descansando ao cabo de sete dias. Porém, sou preguiçosa demais para criar um mundo direitinho, e por isso paro no meio, deixo lacunas em minhas histórias, desejos, convicções.

É por isso que, em vez de sair por aí trabalhando, ganhando dinheiro, sendo uma grande empreendedora, pioneira de alguma coisa, eu passo o tempo discutindo o sexo dos anjos. Isso é bom, mas cansa.

Desta vez estou tentando ter uma atitude pragmática, não questionar tanto meus rumos, desromancear a vida. Calcular e cumprir metas, eis o verdadeiro caminho. Estou praticamente me transformando numa multinacional.

Vou deixar de colher as sinecuras da vida lírica que gostaria de ter para angariar as benesses do imediatismo, da vida orçada e dividida em percentuais. Saio da floresta de celofane para entrar no mundo desencantado do Excel. Diminuo os livros e compro apostilas. Troco o sangue-de-boi do pé-sujo na Rua de Santanna pela água mineral no horário marcado na academia. Ignoro meus acessos de alma hipocondríaca e troco a irascibilidade criativa pelo cálculo frio. Deixo o liberalismo pela economia planificada. Em lugar da taquifagia ambiciosa, dos delírios intelectualóides, absorverei números e frases das engrenagens burocráticas.
A beleza da inconseqüência, afinal, tem prazo de validade.

Só agora percebi o quanto de tautologia havia na minha vida. Sempre que chegava perto, o que eu queria era exatamente o que mais me escapava. Esse suplício de Tântalo vai ter que acabar. Qualquer coisa que me dê lucro será devidamente desvinculada daquelas várias outras coisas que me alentam. O que mais quero, o que mais gosto, virará o prazer pelo prazer. Êxtase dionisíaco, só nas horas vagas, em aulas, leituras, poesias, estudos e elucubrações diletantes. De resto, serei autômato.



Segunda-feira, Abril 26, 2004


Inutilidade

- Pegue o livro mais próximo de você.
- Abra o livro na página 23.
- Ache a quinta frase.
- Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.

"Na tentativa de superar esse problema, maiores extensões de terra foram entregues à triticultura, reduzindo as áreas de pastagem: em razão disso, na década de 1210 o preço da ovelha era 132% e o da vaca 155% maior do que meio século antes."

* Gracinha do amigo Miguel Conde



Domingo, Abril 18, 2004


Romance sem palavras

Ontem li um livro. Pequeno, claro - 134 páginas - mas há muito eu não lia um livro em uma noite.
A inquietude não me deixa ler. Paradoxalmente, a leitura me acalma. Quando estou inquieta, preocupada, fazendo planos difusos que não terei condições de executar, a decisão de começar a ler um livro é tarefa hercúlea. Em momentos de inquietude sempre há algo mais urgente a ser feito ou pensado do que começar a ler um livro. Até a TV parece mais apropriada.
Mas, como todo recomeço é libertador: eu ontem li um livro.



Terça-feira, Abril 13, 2004


Tédio

A melhor arma contra o tédio é tomar uma atitude neurótico-frenética. Balançar os pés como se não tivesse controle sobre eles. Comer os cantos das unhas. Estalar osso por osso. Contar as pedrinhas portuguesas do chão. Assassinar formigas indefesas com o calcanhar. Ver até onde o chiclete mastigado vai sem arrebentar.

Uma época, no colégio, fiz uma oficina de origami e acreditei que ali estava uma atividade em potencial para combater este sentimento ignóbil, destruidor do bom-senso que me era peculiar. Cheguei ao nível de construir um piano de cauda (não me perguntem como) durante a aula e arrancar elogios do professor cabeludo. Mais tarde, em casa, desperdicei metade de um pacote de chamequinho tentando reproduzir a façanha. Ali terminou minha carreira na arte oriental.

Restou-me o básico no combate ao tédio: papel, caneta e um par de olhos. E assim continuei anotando qualquer coisa que me viesse à mente, qualquer pensamento estranho, rima, palavra inventada, idéia, nome, teoria. Olhando ao redor, eu analisava algum ponto, um detalhe da paisagem ou mesmo uma pessoa que me chamasse a atenção, e começava a descrever aquilo freneticamente.

É uma sensação ótima, a de não saber nada sobre a pessoa ou a situação e tentar descrevê-las como parecem ser. Eu imaginava que os livros nasciam assim: o escritor sentava à beira de um lago, observava os pássaros e o céu e aquilo o levava a viajar por lugares maravilhosos que se tornariam cenários de grandes aventuras. Achava que “A ilha do tesouro” assim havia começado. Eu via Agatha Christie aconchegada numa poltrona rosada, de frente para a janela, tomando chá enquanto via lá fora as pessoas indo e vindo, e a partir delas criava um novo caso genial para Hercule Poirot ou Miss Marple. Para mim, os melhores livros do mundo deviam ter começado em bancos de praças, filas, salas de espera, pontos de ônibus. Mais do que possuir um talento imanente, os escritores eram simples mortais entediados que tomaram gosto por observar e analisar a natureza humana.

Por isso eu passei a colocar na bolsa, sempre que lembrava, uma agenda, um caderno, um bloco ou um bando de papéis desorganizados. Peguei o hábito (mania? neurose? transtorno obsessivo-compulsivo?) de fazer anotações, a maioria sem sentido, boa parte pela metade, muitas perdidas, mas todas muito, muito divertidas. Pode ser que eu jamais escreva um livro. Mas de tédio eu não morro.


A moça

Ela varre com muito mais capricho do que eu quando escrevo. É jovem; uns 23 anos, no máximo. Desce a escada da rodoviária, degrau por degrau, puxando cada resquício de poeira com afinco indescritível. É um ritual: primeiro o pé esquerdo, depois o direito, a vassoura começando pelos cantos em direção ao meio. Quando tudo parece pronto, ela recomeça, no mesmo degrau, até atingir a perfeição. Os tênis, surrados, um dia devem ter sido brancos. As meias, azuis e desbotadas, não combinam em nada com a camisa branca de golas verde-musgo com o nome em letras garrafais: SOCICAM. Ela é terceirizada.
A canela cheia de marcas denuncia uma infância feliz, longínqua, de brincadeiras. O rosto dela é simples: as sobrancelhas jamais devem ter visto uma pinça, mas os traços finos suavizam a expressão que, no fundo, parece ser de indiferença. A moça limpa a escada como quem vê televisão ou espera na fila do banco – varrer os infinitos degraus da rodoviária parece um destino ao qual está conformada. Às vezes, ela sussurra uma música irreconhecível. Pára por alguns segundos, depois volta, exatamente no mesmo tom – provavelmente é um refrão. Seus movimentos continuam a se repetir, impecavelmente. A moça é parte da paisagem cheia de histórias dos que vão e dos que vêm diariamente, mas, às 23h50 de uma sexta-feira abafada, ela varre a escada que é só dela. E nada me faria mais feliz nesse momento do que saber se a moça tem um sonho.



Quarta-feira, Março 31, 2004


Jo, la Pendeja

Eu prometi a mim mesma que ia voltar a falar de coisas sérias. Ia criticar o Bush, citar um cara bonzão, me meter a falar sobre alguma forma de arte. Ou sobre o golpe de 64. Pensei em escrever sobre meu tio-avô, general que liderou as tropas do destacamento de Tiradentes até o Rio. Cogitei a hipótese de finalmente tocar no assunto Israel/Palestina.
Mas essas coisas sérias dão muita preguiça, e não têm me tocado tanto quanto meus próprios pequenos problemas. Acho que estou virando uma pessoa egoísta. E, pior, isto aqui está virando um diário.
Quanto menos tempo eu tenho para ler, estudar, escrever, ir à praia, malhar, jogar uma pelada, mais ranzinza eu fico. E quando eu acho que não estou produzindo, evoluindo, aprendendo, mais eu vejo o lado negro da Força. Meus amigos que me perdoem: não é TPM. Não está passando.
Mas alguns desses amigos estão me ensinando, mesmo sem querer, uma lição valiosa - não ligar tanto para as coisas. Em inglês, eu diria que eles são experts em whatever. Em bom portugês, digo que eles sabem como poucos ligar aquele botão escondido que todos devemos ter, com aquela palavra feia que começa com "F". Aos poucos, vou deixando de ser tão caxias, vou aprendendo que não posso fazer tudo com perfeição e que, no final das contas, tudo vai dar certo, mesmo que eu não tenha o mundo sob controle.
Só que ainda está difícil: perdoem meu mau-humor. Não tem nada mais chato do que conviver com alguém que vive reclamando da vida.


Mudando de assunto

Em homenagem a esse bando de malucos que ficaram discutindo sobre a Inquisição, o Papa, a Hebe e o Paulo Maluf, a melhor fórmula anti-estresse: poesia com música. (Estou ouvindo "So in love", K.D. Lang, e "Feeling the same way", Norah Jones. Escolha a sua)



Alturas de Macchu Picchu
Pablo Neruda *

Suba o nascer comigo, irmão
Dê-me a mão desde a profunda
zona de tua dor disseminada.

Não voltarás do fundo das pedras.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltará tua voz endurecida
Não voltarão teus olhos furados.

Olhe-me do fundo da terra,
lavrador, tecelão, pastor calado:
domador de lhamas tutelares:
pedreiro de andaime desafiado:

Ajudante dos pavores andinos:
Joalheiro dos dedos machucados:
Agricultor trepidando na semente:
Oleiro em teu barro derramado:

Traga o cálice desta nova vida
Vossas velhas dores enterradas
Mostra-me vosso sangue e vosso sulco
diga-me: aqui fui castigado,

porque a jóia não brilhou ou a terra
não entregou a tempo a pedra ou o grão
assinala-me a pedra em que caístes
e a madeira em que o crucificaram,

inflama-me as velhas pedras,
as velhas lâmpadas, a violenta chibata
através de séculos nas chagas
e os castiçais de brilho ensangüentado

Eu venho falar por vossa boca morta.
Através da terra junte todos
os silenciosos lábios derramados
e do fundo fale-me toda esta longa noite

como se eu estivesse com vós ancorado
conte-me tudo, pouco a pouco,
dado a dado, passo a passo.

Afie as lâminas que guardastes,
coloque-as em meu peito e em minha mão,
como um rio de raios amarelos,
como um rio de tigres enterrados,

e deixe-me chorar, horas, dias, anos,
idades alucinadas, séculos estrelares.
Dê-me o silêncio, a água, a esperança.
Dê-me a luta, os ferros, os vulcões.

Grude os corpos como ímãs.
Ajude meu corpo e a minha boca.
Fale por minhas palavras e por meu sangue.

* Colaboração de Ricardo de Moura Faria



Terça-feira, Março 23, 2004


Mel novamente

Vi "A paixão de Cristo". Sem querer analisar o filme enquanto obra cinematográfica, não gostei do exagero de cenas dramaticamente em câmera lenta. Não vá esperando uma obra-prima. É um filme para quem é religioso (cristão, de preferência) ou pelo menos tem algum conhecimento dos Evangelhos. Se não tiver, é melhor nem aparecer no cinema para não se irritar, pois não há uma história contada, uma narrativa, e alguns pontos podem parecer obscuros. Ao contrário do que meu amigo André Miranda pensa, muita gente realmente não conhece a história e acha que basta saber que Jesus foi crucificado e ressucitou no terceiro dia para poder ir ao cinema e criticar tudo.
Gostei muito mais do que esperava. Chorei um pouco mais do que esperava. E me senti pequena, mínima, ridícula, ao sair do São Luiz.
É um filme para quem, no mínimo, reza um pouquinho. E, numa boa, não tem nada de anti-semita.



Segunda-feira, Março 15, 2004


Que Mel Gibson, que nada

Quem tiver a sorte de estar em Petrolina nos dias 8, 9 e 10 de abril não pode perder a encenação de "A paixão de Cristo" que vai ter por lá. Susana Werner fará o papel de Maria Madalena e o Cigano Igor, vulgo Ricardo Macchi, será Pôncio Pilatos. Não quero nem imaginar quem fará o papel de Jesus Cristo.




Sábado, Março 13, 2004


Sábado de sol
O que se pode pensar num sábado ensolarado no Rio de Janeiro, às 7h da manhã, quando se tem que trabalhar sem receber por isso? Eu havia prometido a mim mesma que não ia mais ficar reclamando da vida. Meu Deus, 200 pessoas morrem num atentado terrorista, tantos milhões não têm o que comer, milhões de outros penam com terríveis problemas de saúde, e eu aqui, com tudo funcionando, família, emprego, saúde e doses básicas de inteligência e fé...Vou reclamar de quê? Por isso, fico tentando me convencer de que está tudo muito bom, tudo muito bem. Que qualquer vestígio de desânimo é fruto do meu recorrente excesso de umbiguismo. Que, como naquela música (meio irritante), "o melhor lugar do mundo é aqui e agora".
Às vezes é difícil. Principalmente quando insisto em usar todos os tempos verbais que aprendi no colégio. Olho para o passado e me vejo em San Diego, feliz e contente. Ou aqui no Rio mesmo, jogando vôlei, sem preocupações de dinheiro, chefe, estresse. Ou em Belo Horizonte, me apaixonando pelo homem da minha vida. Olho para o futuro e a vida me parece cintilante, cheia promessas e muito, muito tranqüila. Com a peneira do tempo, os problemas das águas passadas evaporam e os das águas por vir permanecem condensados. Então tento reacender minha porção Polyanna, que de vez em quando se resguarda. Verto os olhos para as desgraças do mundo, do país, do Rio, e concluo: sou uma privilegiada.
Mas aí basta me mandarem passar três horas sentada num casulo gelado ouvindo "Bom dia governadora" e "Encontro marcado com o Garotinho" para eu rever meus conceitos e me autodecretar a alma mais infeliz deste sábado de sol.



Sábado, Fevereiro 28, 2004


Ele se supera

Do artigo de hoje do Olavo de Carvalho: "O que se passa no Brasil é a Revolução Gramsciana, manifestação local da grande estratégia comunista mundial." Ele está melhor a cada sábado.

***

Bizarro

A Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap), de Sampa, está lançando o primeiro MBA em Gestão do Luxo do país (quiçá do mundo). Entre os docentes, a relações-públicas da Daslu, uma badalada assessora de imprensa com passagens por Cartier, Louis Vuitton, Möet & Chandon e Emporio Armani e o CEO da Montblanc no Brasil.
Detalhes: as aulas serão no Hotel Sofitel e o MBA custará a bagatela de R$ 36 mil (divididos em 20 parcelas de R$ 1,8 mil).
Ao fim do curso, imagino que o melhor será quando alguém perguntar a um formando o que faz da vida: "Sou gestora do luxo".

***

Acho essa história de metrossexual uma tremenda palhaçada.

***

A melhor informação obtida no jornal nos últimos tempos: água-viva em japonês é chuka kurage.



Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004


E=mc²

Sempre gostei das aulas de física. Apesar de não ser nenhum gênio no assunto, achava as leis de Newton o maior barato. Mesmo concordando com meu mitológico professor de matemática, Fabiano, que implicava com o de física, Haroldo (dois coroas gente boa e amigos de destilados e leveduras), dizendo que não se podia levar a sério uma disciplina que oferecia problemas como "um elefante desce a ladeira a 20 km/h. Ignore o atrito e calcule...": mesmo assim eu gostava de física. Achava o Einstein um cara fantástico, um maluco que, como a maioria dos verdadeiramente malucos, deu certo. Isso não quer dizer que eu entendesse a fundo a teoria da relatividade, claro - o que não me impedia de guardar como um troféu aquela foto clássica dele com a língua para fora.

Mas as aulas de redação, história e português/literatura eram o meu delírio. Era mais interessante arquitetar as coisas, romancear o mundo, reinventar os acontecimentos históricos e saber o que outros antes haviam interpretado ou escrito, do que entender as coisas o mais próximo possível do "como elas são". Números são mágicos - trigonometria era uma verdadeira viagem -, mas melhores ainda são as palavras. O tempo voava nas aulas de história, literatura, sociologia, geografia política. E se arrastava na química, com suas intermináveis cadeias de carbonos, benzenos e metil-propil-o-raio-que-los-partam. Essa era, para mim, a maior prova da teoria da relatividade.

Mas hoje fiquei sabendo que o tempo, esse algo infindável, quase incomensurável, pode ser quebrado em micro-unidades menores do que eu jamais conseguiria imaginar. O menor intervalo de tempo do mundo, revela-nos o Sr. Ferenc Krausz, é de 100 atossegundos, o equivalente a dez milhões de bilionésimos de segundo.

Os caras austríacos que descobriram isso usaram emissões de raios laser para observar um elétron movimentando-se dentro de um átomo, e distinguiram eventos ocorridos em intervalos de 100 atossegundos. Segundo Krausz, para entender o que essa ínfima parcela de tempo representa seria preciso esticar 100 atossegundos até que eles durassem um segundo (numa escala similar, um segundo duraria cerca de 300 milhões de anos). Um elétron (o negativo, lembra?!), segundo o estudo, leva 150 atossegundos para orbitar um próton (o positivo..) no centro de um átomo de hidrogênio. Meu Deus, dá para uma lagartixa piscar o olho nesse tempo?

Se soubesse antes que isso é quanto dura o menor instante possível, teria aproveitado cada medida de 100 atossegundos que passei nas aulas de química e física estudando história, jogando vôlei na praia, beijando na boca, aprendendo a tocar violão e, principalmente, lendo livros. Afinal, é mais fácil e divertido levar a sério as epopéias de Danton, Tiradentes, Ulisses e Mr. Frodo do que a de um elefante que desce a ladeira sem causar atrito.



Terça-feira, Fevereiro 10, 2004


Não tem preço

Ontem, minha primeira noite de pseudoférias na facul, fui tomar aquela dose sazonal de glicose audiovisual. Falem mal à vontade, mas ver filminhos como o açucarado "O Sorriso de Mona Lisa" é uma DELÍCIA. Fofocar, rir das situações bizarras da vida, comer confeti, gargalhar à toa, suspirar com a absolutamente magnânima Julia Roberts e deixar escorrer aquela lágrima de aspartame ao lado de sua grande amiga: não tem preço. E o melhor é que ela nunca agüenta comer as batatas fritas até o fim.



Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004


Auri sacra fames

- São dez anos para eu poder dar entrada num apartamento, e mais dez para pagar as prestações. São 20 anos com a preocupação de dar tanto por mês para a Caixa Econômica.

- Vinte anos passa rápido!

- Passa nada, é uma vida...

- Um ano é uma vida, e às vezes 100 anos são uma vida...Você vai ver que cada mísero centavo trabalhado, suado, vale a pena.

- Quer saber? Meu sonho é arrumar um emprego em que eu ganhe um pouquinho melhor para eu poder comprar um carro legal. Estou cansado de tanto ônibus na vida. Queria ganhar um pouquinho mais.

- Meu sonho é arrumar um emprego em que eu trabalhe um pouquinho menos...


*******
Após mais esse papo bizarro pescado sem-querer-querendo na maior sauna pública do Rio de Janeiro, o elevador da Uerj, eu fiquei aqui pensando com os meus botões.

Suponhamos que eu ganhe $ X por mês, para fazer quatro trabalhos durante 8 horas por dia. Se recebesse duas opções: 1) trabalhar 10 horas, fazendo cinco trabalhos, e aumentar meu salário em 25% ou 2) trabalhar 6 horas, fazendo três trabalhos, e diminuir meu salário em 25%. Suponhamos que X menos 25% sejam suficientes para eu viver. O que eu faria? O que a maioria das pessoas escolheria???

A resposta é a seguinte: o capitalismo é a força mais significativa de nossa vida moderna. A aquisição é encarada como finalidade, e a necessidade é um conceito flutuante, que se desmancha no ar. O trabalho, cada vez mais executado como um fim em si mesmo, como uma "vocação", confunde-se com o dinheiro. Há pessoas que acreditam seriamente que sua vocação é ganhar dinheiro, "fazer" dinheiro.

A história econômica pode ser pensada a partir de dois pilares: a satisfação de necessidades e a aquisição. O problema é que a aquisição deve ser constante, e as necessidades, etéreas, liquefazem-se e renascem sob novas formas a cada momento. O conceito de necessidade, hoje, confunde-se com moda, materialismo vazio, bem-estar frívolo, status.

(Não entro aqui na discussão "socialismo ou barbárie". Tô fora dessa. Sem papo de superestrutura. Mas noto que, à medida que amadurecemos, as coisas passam a simplesmente ser o que são, porque assim sempre foram. Por isso gosto de questionar, mesmo sabendo que meus questionamentos não irão mudar o mundo - talvez não mudem nem a mim mesma, uma fraca marionete. Pode ser que amanhã eu considere natural um impulso consumista. Isso não me transformará numa hipócrita. E, no dia seguinte, voltarei a questionar essa razão instrumental que me rege, essa metafísica vulgar, frugal, eudemonista, que controla nossas vidas.)

Voltando da pequena digressão: o que quero dizer é que quem não adaptar sua vida às condições de sucesso capitalista será facilmente sobrepujado. A não-adaptação não é uma escolha aceitável, pois corresponde, em última instância, ao esquecimento do dever. O dever provém não de um mero bom senso, mas de um ethos particular, que, em nossa visão arrogante e metonímica, nos parece ser um ethos universal. O capital, tomado como um fim em si mesmo, encobre um ethos tão arraigado que chega a ser quase transcendental, superior à própria idéia de "felicidade".

As virtudes, hoje, são utilitárias. Virtudes nobilíssimas são a eficiência, a produtividade. Honestidade ainda é uma virtude porque assegura o bom funcionamento, o crédito, a credibilidade. Mas até a honestidade caminha rumo ao limbo das virtudes relativizáveis.

Um dos problemas decorrentes de todo esse processo é a idéia do dever profissional, tão peculiar à "ética social" da cultura capitalista, como disse Weber. Essa idéia leva as pessoas a sentirem uma obrigação quase irracional quanto ao conteúdo de sua atividade profissional, independentemente do que ela comporta. Por isso vêem-se tantos imbecis se vangloriando do "dever cumprido" ou proferindo frases prontas e estúpidas como "estou fazendo apenas o meu trabalho".

Creio que nem sempre foi assim. Um dia, a oportunidade de trabalhar mais e ganhar além do necessário foi menos atrativa do que a de trabalhar menos e ganhar o suficiente. Não pode ser verdade que esta compulsão pelo excesso e pela criação de novas necessidades seja imanente ao ser humano. A ditadura da produtividade deixa as pessoas infelizes, mas penteadas e cheirosas, social e plasticamente aceitáveis. As pessoas, mais que as coisas, são úteis. Sei lá; muitos que eu conheço, quanto mais trabalham, mais tempo lhes sobra para que trabalhem ainda mais. Os que não trabalham mais ficam enrolando, fingindo que estão atarefados. Acabar o trabalho cedo é feio, vergonhoso. Não ter ambição é humilhante, quase anti-ético.

O ser humano existe em razão de seu negócio, ao invés de se dar o contrário. Isso foi dito por Weber há exatos 100 anos, em 1904. Ainda assim, eu acredito que esse instinto perverso, essa auri sacra fames, não seja natural - muito menos irreversível.


O Seio do Século
Impossível não comentar: o que foi aquele peito da Janet Jackson para fora, enfeitadinho por uma estratégica estrela de prata??? Pior que isso, só a comoção e indignação nacionais com o grande acontecimento, que ofuscou até as primárias democratas para decidir quem vai disputar o posto de Dono do Mundo com o pateta-mor. Não, pior ainda: o seio do século fez história ao bater o recorde e se tornar a imagem mais procurada na internet até hoje. A cena, que agora já se sabe, foi muito bem ensaiada, levou os internautas a fazerem mais buscas num período de 24 horas do que as imagens do 11 de setembro. Não sei o que foi mais engraçado, se a coluna do Xexéo sobre o assunto ou o título da notinha do Globo, "Seio bate recorde".



Quinta-feira, Janeiro 29, 2004


Não consigo mais ser engraçadinha. Não escrevo minhas besteiras no blog. Não leio nada que não seja história/jornal. Sou praticamente uma sedentária. Beijo na boca quinzenalmente. Não sento mais em bares com amigos. Não tenho sido uma pessoa divertida. Sou uma péssima companhia.

"I can physically feel it all inside - I feel bitter - you know, angry and sarcastic, and skeptical, and unhappy."

Mas a verdade é que está tudo bem. Eu reclamo só para não perder o costume.



Quarta-feira, Janeiro 21, 2004


Sabe o que é ruim? Passar o dia em frente ao computador e ao lado do telefone, se estressar com quem não merece o seu estresse, fazer uma prova com a cabeça latejante e sem ter certeza do que está escrevendo e ainda ter que ouvir que lato-sensu e stricto-sensu foram dois imperadores romanos.



Sexta-feira, Janeiro 16, 2004


Sabe o que é bom? Fazer uma boa prova e voltar para casa, na chuva, ouvindo e cantando Coldplay, Cássia Eller e Chico Buarque.



Sexta-feira, Janeiro 09, 2004


Momento Nerd

"Se Martin Luther King ressucitasse e desse de cara com a Sra. Condoleezza Rice, pediria para ser assassinado novamente."

"É inerente ao capitalismo não conceber nem aceitar nenhuma espécie de projeto fraternal endógeno."



Quinta-feira, Janeiro 08, 2004


O primeiro dia da primeira semana do possível resto da minha vida

É sempre assim: eu não sei onde colocar as mãos, me sinto uns dois metros e meio mais alta, todas as minhas mais recônditas incompetências afloram e me torno uma atolada em potencial. O mundo inteiro me olha nos olhos e percebe que estou tre-men-do por dentro.
Podem me dizer que está tudo tranqüilo, todo mundo é gente fina, com o tempo a gente se adapta etc e tal. Eu sei disso tudo, mas ainda assim o primeiro dia de qualquer coisa é teeeeeeennnso. Logo eu, que alardeio pelos quatro cantos que adoro mudanças e novidades, que todo mundo deve mudar de estado e país pelo menos uma vez na vida, nessas horas eu me descubro uma borrona caxias, com medo de fazer perguntas imbecis e todos descobrirem que eu não nasci para fazer aquilo que escolhi fazer. Logo eu, a destemida, sou a mais tensa dos quatro neófitos no primeiro dia.

Como já me conheço há 25 anos, nessas situações eu costumo planejar tudo, tudinho mesmo, para não correr riscos. (Chegar atrasada, por exemplo, nem pensar. Às vezes o universo conspira contra o meu despertador, é verdade - o que não aconteceu desta vez, pelo menos.) Então de manhã eu ponho o CD bombação, um roquenrou para me animar e melhorar a cara de tonta que fico quando estou perdida. Na volta para casa, um CD relax, para acalmar os nervos.
Mas o problema é o durante. Porque eu detesto não ter o controle da situação. Detesto não saber como as coisas funcionam, quem sabe o quê, quem decide, que horas isso, quem resolve, que horas aquilo, quem responde. Sabe aquelas coisas de primeiro dia no primeiro emprego, quando você não sabe nem como atender o telefone da empresa? Pois todo emprego para mim é o primeiro. Os anos passam, eu fico velha, mas a tensão do primeiro dia permanece.

O pior de tudo é quando não te dão NADA para fazer. Você acorda cedo, se arruma, se perfuma, come mamão com aveia, lê o jornal, e na hora H neguinho deixa bem claro que não tinha a menor idéia de que você começaria a trabalhar naquele dia. E, óbvio, neguinho esqueceu seu nome.

Humilhação nº 1: "Oi Fernanda", e você responde "É Renata..."
Humilhação nº 2: "É....Hummm...Volte daqui a meia hora que o rapaz do treinamento deve estar chegando."
Humilhação nº 3: (uma hora depois) "Porque vocês não vão almoçar e depois a gente conversa? Estou muito ocupada agora..."
Humilhação nº 4: "É....Hummm...Ainda não sabemos onde vocês vão ficar....Tenho uma reunião e depois a gente conversa, tá?"

E, nesse ritmo, eu e meu parceiro (ele, no entanto, bem menos desconfortável que eu na posição de palhaço) passeamos pelo local das 9h até as 16h, quando, de súbito, tudo estava resolvido, e missões trabalhosas nos foram finalmente designadas.

No final do primeiro dia, eu sempre me pergunto se é isso mesmo o que vou fazer para o resto da vida. Foi mais ou menos assim no primeiro treino com ícones do vôlei, no primeiro treino numa seleção, no primeiro emprego na Unibanco Seguros, no primeiro dia de iG, nos primeiros estágios naquela TV cachorra e no jornal, e foi assim hoje.
A resposta é sempre a mesma: não sei. Não tenho a menor idéia se daqui a um tempo serei uma dona de casa feliz com meus cinco pimpolhos, se serei uma jornalista e aprendiz de escritora, se venderei roupas numa loja de shopping ou se darei aulas de História para crianças pobres na rede municipal. Porque tudo o que quero é uma rotina tranqüila, mas quando a consigo, tudo o que quero é um primeiro dia em algo diferente.
05/01



Domingo, Janeiro 04, 2004


"Sometimes stupid people have better lives. I wish I was stupid."
Kathleen Pedro (minha eterna roommate, twin, wife e amiga, que faz hoje 23 anos e é uma das pessoas mais lindas e inteligentes que conheço).


Feliz 2004 etc etc.


Quero voltar para Búzios!
Quero voltar para Búzios!
Quero voltar para Búzios!



Quarta-feira, Dezembro 24, 2003


Zoroastro, a manjedoura e a rabanada

O mazdeísmo foi uma crença religiosa que surgiu muito antes do cristianismo, talvez cerca de nove mil anos atrás. O profeta Zaratrusta (Zoroastro para os gregos) teve uma cosmovisão de um deus único, um deus de amor, sabedoria e luz. Passou a pregar a existência do Ahura Mazda, o demiurgo, criador e ordenador do universo, que se dividiu entre Ormuz e Arimã (ou Ahriman).

Ormuz escolheu o caminho da luz, do Bem, enquanto Arimã optou pelas trevas, pelo mal - exatamente porque o Mal, ao dimensionar o Bem, proporciona prazer (a única forma de se ter prazer é entender a interrupção deste...). Aí, note-se, já estava representado o livre-arbítrio - para os seguidores de Zaratrusta, o ser humano era julgado de acordo com a natureza de suas palavras, seus pensamentos e atos; a recompensa para os bons era o paraíso, a "melhor existência", e para os maus, o inferno, uma "existência infernal". A morte seria uma construção da condição humana, fruto da escolha pelo Mal. O Mal é o império de Arimã sobre a consciência das pessoas, e seria preciso renunciar a ele e seguir o caminho de Ormuz, da plenitude (representada pelo fogo) para alcançar a vida eterna. A "morte", então, é a fragmentação necessária para a verdadeira vida.

Este mundo terminará um dia: o Ahura Mazda deveria enviar um "messias", o Saoshyant, uma espécie de anjo que nasceria de uma virgem e seria anunciado por uma estrela. Este enviado guiaria os homens no caminho de Ormuz até o fim, a ressurreição dos mortos (e o fim de Arimã). O Saoshyant seria animado pelo Spenta Manyu, algo semelhante ao Espírito Santo cristão.

O mazdeísmo (também chamado de zoroastrismo) era a religião dos persas, e quando Ciro invadiu o império babilônico (539 a.C.), os judeus o tomaram por libertador: o deus dos persas "correspondia" ao deus dos judeus (livro do profeta Isaías). Ciro reconstruiu o Templo de Jerusalém, que havia sido destruído pelos babilônios em 586 a.C. e formou-se uma espécie de aliança entre persas e judeus, originando as seitas judaicas da região do Mar Morto, donde infere-se que, em certo momento, muito antes dos Judeus por Jesus reverenciados por meu amigo Miguelito, existiram judeus que acreditaram na vinda do messias, mas conforme a visão mazdeísta de que este seria um anjo. Por isso os chamados "manuscritos do Mar Morto" são considerados por alguns pesquisadores como o "elo perdido" entre o judaísmo e o cristianismo.

Bem, apesar desta historinha, apesar de a religião cristã congregar aspectos do mazdeísmo, do judaísmo e até de seitas pagãs e gnósticas - apesar da escolha da data de 25 de dezembro para o nascimento do messias e do pinheiro como a árvore-símbolo provavelmente serem provenientes da crença dos Mistérios de Mitra, difundida durante o Império Romano; apesar de muitos compararem a assunção de Nossa Senhora ao mito de Diana de Éfeso e associarem Cosme e Damião a Castor e Pólux - apesar de tudo isso e mais um pouco, eu tenho fé. E Natal, para mim, muito mais do que peru e rabanada, presentes, tradição, família, antecedentes históricos, evangelhos apócrifos e tal, é isso: .


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Confirmando a sandice: essa história toda me veio à cabeça quando, em um momento automático de leitura do jornal (boa desculpa), li meu horóscopo deste mágico dia 24 de dezembro: "O Sol está entrando em sua 8ª casa, que simboliza a morte e também a eternidade, os mistérios, o fim para um novo começo, o sexo e as forças vitais que habitam o interior da matéria, pois é na matéria que estão ocultos todos os mistérios". Se você for geminiano, junte-se a mim e cantemos aos sátiros e brindemos às entidades da Floresta da Tijuca.



Quarta-feira, Dezembro 17, 2003


Mais do mesmo

Ela virou odontopediatra e resolveu estudar cinema. Não quer ter filhos, mas um dia, quem sabe, vai casar. Continua porra-louca, graças a Deus. Ele é cineasta, vive duro, já fez uns vinte curtas, viajou para a Europa e espera ganhar algum prêmio bacana. Ela é socióloga, está terminando o mestrado em antropologia, casou há três anos; o outro também é quase mestre em veterinária; aquela é administradora, trabalha numa grande empresa, namora firme. O baixinho enfezado, agora publicitário, está mais fortinho e gente boa do que nunca. Já o cabeludo heavy metal mostra hoje um estilo playboyzinho, óculos escuros na cabeça, tênis cool de professor de lambaeróbica, body combat e afins. A musa continua deslumbrante, cor de Camila Pitanga, charmosa, inteligente e muito, muito simpática. Modelo e jornalista, mora no México e namora um fotógrafo argentino. Coisa de filme. O mascote virou um homão, barba mal-feita, enorme e trabalhador, mas com um quê de moleque naquele boné para trás. O CDF continua sério e educado, um amor de pessoa, advogado numa firma de consultoria, namorando certinho. Futuro presidente.

E todos nos perguntamos o que ainda seremos. Estamos começando, mas às vezes parecemos velhos. Cansados, ranzinzas, calados, repletos de objetivos, exalamos aquele odor ocre da ambição desvairada. Temos pressa de viver logo, conseguir o Emprego Perfeito, casar com a Alma Gêmea, combater o Bom Combate. Havemos de ser felizes, irrepreensivelmente felizes.

Enquanto nossas vidas escorrem pelo canto da boca, pelos vãos entre os dedos, que guardam apenas o que nos parece grande e importante demais, deixamos de nos reunir para celebrar e relembrar, conversar sobre o nada, o clima, o futuro, os anjos. Nossas infâncias servem para nostalgias vazias, jamais para lições. Guardamos o sabor do pirocóptero, da bala soft, do novo LP da Legião. Mas, ao contrário de anos atrás, quando um simples big bol continha o gosto da felicidade no clímax do chiclete escondido numa bolota de açúcar e anilina, quando um insalubre saquinho de plástico trazia o sabor supremo e pastoso do doce de leite chupa-chups, hoje depositamos a alegria em fichas erradas, esperamos muito e acreditamos pouco, queremos uma vida mais doce que as moedinhas e cigarros de chocolate. E por isso mesmo estamos sempre fantasiando que antes era melhor, hoje em dia as coisas estão difíceis, mas o futuro, esse eterno aliado, nos aguarda com um pote de ouro no fim do arco-íris.

Sentada ali, na boa e velha Cobal do Humaitá, eu me sentia uma relíquia aos 25. E imaginava onde estaríamos daqui a cinco anos, todos nós, da odontopediatra-cineasta ao advogado precocemente calvo, da antropóloga à modelo mais inteligente que conheço. Estaremos ali, na mesma Cobal, rindo do passado, "quando a vida era fácil"; estaremos felizes conosco, com nossas vidas como são, com nossas linhas de expressão, dificuldades, taletos enjeitados e coleções de pequenas amarguras.
Ou estaremos, ainda, buscando a felicidade no velho gosto dos guarda-chuvas de chocolate, jogando Atari na Casa da Matriz, especulando o porquê do Kri ter se transformado em Crunch, pensando que o Renato Russo é insubstituível e torcendo para que, daqui a cinco anos, tenhamos realizado todos os nossos objetivos, mas que tragamos guardados na manga fragmentos de ambições suficientes para nos arrastarmos por mais algumas décadas de nostalgia regada a coca-cola.



Quinta-feira, Dezembro 11, 2003


Quando eu morrer

Quando eu morrer quero que minhas gavetas estejam cheias de poemas. Quero que alguém publique meus textos guardados, porque tudo que é póstumo parece melhor. Meus escritos podem não ter qualidade, mas são meus, e quando eu morrer quero que isso baste.

Quando eu morrer quero que minha consciência esteja leve. Não quero estar com raiva de ninguém nem ter mágoas armazenadas. Quero voar daqui bem rápido, em paz, sem nenhuma culpa ancorando meus pés. Quero ser lembrada como a menina que dançou balé, jogou vôlei, adorava escrever, gostava de história, tinha bons amigos e tentava ser correta e pacífica. Às vezes acabava fazendo tudo errado, mas era apenas uma eterna menina, sempre aquela menina que queria dar certo no dia seguinte.

Quero um enterro simples. Quando eu morrer eu quero que chova, mas que girassóis sejam jogados no meu túmulo. Ou então que minhas cinzas sejam espalhadas pelo Arpoador, para que assistam o sol se pôr no Dois Irmãos enquanto conversam com as cinzas do Tom Jobim. Quero que meus amigos chorem, mas só um pouco, e que peguem minhas fotos e abram largos sorrisos ao lembrarem da grande boba que fui.
Quero que eles pensem numa música para mim, mas que não cheguem a conclusão alguma, já que eu mesma, a indecisa homenageada, jamais conseguiria escolher uma só.

Quando eu morrer, espero que tenha tido tempo suficiente para encher as minhas gavetas de poemas.

Não quero ter nenhuma roupa cara no armário e nem muito dinheiro na carteira. Quero que Deus me leve sem aviso prévio, assim de sopetão. Do jeito que for eu vou aceitar, não me resta opção...Mas, quando eu morrer, quero que meu caderno azul esteja repleto de tristezas e as memórias de meus amigos, de gargalhadas. Quando eu morrer não quero explicação de nada.



Quinta-feira, Dezembro 04, 2003


Papo na Uerj

- Será que ele vem hoje?
- Sei lá. Esse cara viaja, né? Começa falando de Maquiavel e daqui a pouco tá reclamando da reitoria e da falta de verbas do governo. Maluco.
- É.
...

- Ai, esse Free é horrível. Você tem cigarro?
- Não, não fumo.
- Ah. Você faz a aula do Manoel?
- Não, meu horário é louco, faço aulas do 2º ao 6º período. Você tá em qual?
- Era pra estar no quinto, mas tô repetindo o quarto. Passei um tempo no hospital, tentei recuperar na volta, mas desisti da burocracia e fui reprovada por falta. Meu CR foi de 9,3 pra 5.
- Caramba...Mas tá tudo bem, você se recuperou...
- É, foi uma história meio bizarra. Terminei um namoro de cinco anos...
- Puxa...
- Comecei com 14 e fiquei com ele até os 19. Estávamos noivos e ele terminou comigo dia 31 de dezembro.
- Sério?
- Minha melhor amiga, aquela que dormia na minha casa, fazia dever da escola, adorava minha mãe, sabe? Pois é, ela engravidou. Aí eu a consolava, ela ficou até feliz depois, comprei papel de parede de presente, escolhi o berço com ela, decorei o quarto, dei sapatinhos, brinquedos. Estava preparada para ser a madrinha.
- Quem era o pai...?
- Ela dizia que era um cara com quem ela saiu uma vez só. Então veio o reveillon e meu noivo terminou comigo, disse que não tinha volta e tal. Ele era um pé rapado, eu até ajudava às vezes, aí ele conseguiu um emprego legal e já estava construindo a casa que a gente ia morar...E de repente não queria mais nada comigo, depois de cinco anos. Meu primeiro namorado. Eu tinha certeza que ia casar com ele.
- Então ele...
- Ahã. Engravidou minha melhor amiga. Mas eu ainda não sabia. Eu ligava pra ela direto pra contar que ele tinha acabado comigo, precisava da minha melhor amiga, né? Mas o celular dava desligado e ela nunca tava em casa. Uns dois meses depois do ano novo minha prima me ligou e disse que eles estavam de mãos dadas no shopping. Não acreditei. Peguei um ônibus e fui lá encontrar com a minha prima.
- Meu Deus...
- Eles estavam comendo uma pizza família, nunca vou esquecer o tamanho daquela pizza, ela com mó barrigão, ele com uma sacola cheia de coisinhas de bebê.
- O que você fez????
- Fui ao banheiro do shopping e chorei por duas horas sem parar. Eles nem me viram. Depois minha prima me levou pra casa. Nunca mais encontrei os dois, mas me falaram que eles casaram e se mudaram para a casa que ele estava construindo para nós. O filho era dele mesmo. Acho que é um menino.
- E depois, o que você fez?
- Nada. Quer dizer, tentei me matar umas duas vezes, tomei veneno, essas coisas. Aí fui parar no hospital. Por isso estou ainda no quarto período.
- Meu Deus...
- É. E ainda gastei mó grana com aquele papel de parede.





Terça-feira, Dezembro 02, 2003


Minha vida anda tão pragmática que quando chega o fim do dia
eu preciso de uns 4 Kg de poesia.



Sexta-feira, Novembro 28, 2003


O vexame da censura nos EUA

A Universidade Estadual de Sonoma, na Califórnia, divulgou seu ranking anual dos 25 temas mais censurados no último ano pela grande imprensa norte-americana. Intitulado Projeto Censura 2004, o estudo de 400 páginas inclui análises acadêmicas sobre o comportamento dos meios de comunicações nos EUA e denuncia um "apagão informativo", principalmente em assuntos governamentais.

Segundo os pesquisadores, a censura imposta pelo governo Bush a partir dos atentados de 11 de setembro em Nova York e da invasão ao Iraque dominam o cenário atual. Os grupos eventualmente dispostos a furar o bloqueio têm receio de fazê-lo, pois temem prejudicar seu acesso às fontes do Pentágono e da Casa Branca, onde possuem escritórios próprios e instalações para transmitir imagens de TV. Além disso, as grandes corporações que estão envolvidas na indústria da guerra e do petróleo têm seus negócios ramificados também no setor da mídia.

O Projeto Censura é completamente ignorado pela grande mídia. Em seus 27 anos de existência jamais mereceu sequer uma linha no NY Times.

Os 25 temas mais censurados:

As análises e investigações sobre a nova ideologia conservadora de dominação global que impera hoje na Casa Branca foram o tema mais censurado no período estudado, segundo os pesquisadores. Os outros temas destacados pelo projeto foram os seguintes:

Segurança nacional versus direitos humanos e civis nos EUA;
EUA suprimem ilegalmente páginas de informe sobre o Iraque;
Os planos de Rumsfeld para provocar os terroristas;
Esforços para fazer os sindicatos desaparecerem;
Acesso cada vez mais restrito à tecnologia de informação;
EUA violam numerosos tratados internacionais;
Bush utilizou armas de destruição em massa contra seu próprio povo;
No Afeganistão, EUA priorizam financiamento de grupos paramilitares à "fundação da democracia";
O novo colonialismo na África;
EUA implicados no massacre de talibãs;
Governo Bush esteve por trás do fracassado golpe militar na Venezuela;
Desafios da personalidade oculta das corporações;
Os refugiados indesejados: um problema global;
O Exército dos EUA está em guerra contra o planeta;
O Plano Puebla-Panamá e a ALCA;
O monopólio de emissoras de rádio do Clear Channel atrai críticas;
A reforma florestal ameaça o acesso aos bosques públicos;
Dólar versus Euro, outra razão para a invasão do Iraque;
Pentágono incrementa contratos militares com empresas privadas;
Políticas de austeridade para o Terceiro Mundo: logo chegam a uma cidade perto de você; A reforma da assistência social não preservou rede de seguridade social;
A crise da Argentina alimenta o crescimento do cooperativismo;
Ajuda dos EUA a Israel alimenta ocupação repressiva na Palestina;
Corporações condenadas recebem favores ao invés de castigos.



Segunda-feira, Novembro 24, 2003


Celebridade na noith da Nuth

Então o Domenico de Masi, aquele sociólogo italiano que ficou rico com a teoria do “ócio criativo”, lança hoje a versão brasileira da sua revista, “Next”, na night barratijucana da Nuth.
Isso é meio esquisito mesmo ou eu é que sou muito ortodoxa?
Sei não, mas, para mim, o Domenico está para a sociologia assim como o Paulo Coelho para a literatura ou o Francis Fukuyama para a história.



Quarta-feira, Novembro 19, 2003


Patético

Não gosto de transcrever notícias aqui, mas essa merece. Para que você saiba que tipo de projetos propõem alguns deputados pagos com o seu, o meu, o nosso dinheiro.


Um projeto bom para cachorro

O mundo pode cair que não se falará em outro assunto hoje na Assembléia Legislativa. Será um dia de cão. Literalmente. Entre uma e outra discussão nebulosa sobre o orçamento, os deputados vão parar tudo e votar o projeto mais comentado dos últimos dias: a criação do "Dia do cachorro - o melhor amigo do homem", a ser comemorado no dia 4 de outubro.

Pai (ou seria melhor criador?) do projeto, o deputado Antônio Pedregal (PSC) garante que ele é da maior importância. Diz que os animais são muito maltratados e que precisam de um dia só para eles. Pedregal fica com os olhos marejados ao contar que dois de seus cachorros morreram por falta de atenção sua. Muito justo, então. Como diria o ex-ministro do Trabalho, Rogério Magri, o cachorro é um ser humano como outro qualquer.

- Não tenho dúvida de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Quando estava doente, meu cachorro dormia todo dia ao meu lado - conta, orgulhoso, o deputado "bom pra cachorro", pai de um casal de Yorkshires (Tito e Tita) e um de Rotwaillers (Ursos e Sarah).

E que ninguém duvide do amor de Pedregal aos cachorros. Na justificativa do projeto, ele se declara, valendo-se do um discurso de um senador americano. "O cão permanece com seu dono na prosperidade e na pobreza, na saúde e na doença. Ele dominará o chão frio, onde os ventos invernais sopram e a neve se lança impiedosamente", diz um trecho. O texto o deixa comovido:

- É a coisa mais linda!

Aos colegas mais críticos, o deputado tranqüiliza: o Dia do Cachorro não será um feriado, apenas uma homenagem aos animais.

Alan Gripp, O Globo - 19.11.03



Segunda-feira, Novembro 17, 2003


R.S.D.

Ainda acredito nos sonhos impossíveis e torço para que eles dêem certo. Torço não: eu tenho a certeza absoluta de que eles vão acontecer. Tenho espasmos cerebrais diários, e em cada um deles me convenço de que isso aqui que estou vivendo é uma coisa boba, legal mas inconsistente, e que na sublimidade é que reside a minha vida. Vivo mais de olhos fechados. O que não me impede de aproveitar cada minuto de visão consciente e pragmática.

Tenho essa mania estranha de buscar a totalidade. Eu já desconfiava disso, mas um dia, num desses testes psicológicos a que os técnicos insistem em submeter seus sãos atletas, a senhora ruiva de óculos imponentes e voz macia me disse isso: você busca a totalidade em tudo, por isso vive insatisfeita, esperando algo mais, esperando que a roda se feche. Isso só porque no borrão roxo cheio de detalhes eu enxergava uma enorme borboleta. Mas eu acreditei nela. Meu tempo não é linear. Como o dos gregos, meu tempo é cíclico.

Então cada vez que eu viajo na minha gigantesca empada viscosa eu vislumbro uma vida toda diferente, e acredito que vou vivê-la com a mesma intensidade dos meus pensamentos. Acredito piamente que meus sonhos antigos não-realizados vão se tornar realidade, mesmo os que não fazem mais sentido. Meus caprichos que não deram certo, esses eu mando para o arquivo sete gavetas abaixo do cerebelo. De repente, um dia, se me encontrar na ausência total de sonhos (seria a morte?), posso desenterrar um deles e ver o muso da terceira série apaixonado por mim, posso trocar a medalha de prata pela de ouro no campeonato de queimado, posso ser convidada para aquela festinha da outra turma ou ter coragem para abandonar a vassoura pelo menino bonitinho que me olha.

Meu cérebro é infinitamente repleto de algum tipo de ácido que me traz ao que deve ser a verdade. Essa Renata in the Sky with Diamonds, incorrigível eterômana, de quando em quando entra num videoclipe tosco, que às vezes tem características jocosas como uma musiquinha tola do Matchbox Twenty ao fundo, bem melosa, câmera lenta, choro na chuva, casal vestido pulando ondas na praia, menina pensativa agarrada a bichos de pelúcia, uma carta antiga, cachorrinho de olhar macambúzio, um campo verde com sol baixo, flashbacks de sorrisos de pessoas amadas que partiram e uns cortes repentinos com aquelas flores bregas de videokê. Esses incontáveis clipes ficam armazenados numa warehouse com fuleiras estantes de ferro exibindo desorganizadas fitas prontas para o uso. E cada vez que eu aperto o play e aumento o volume é uma nova avant-première a que só eu, a prestidigitadora-mor, assisto.

Não adianta me dizerem que não vai acontecer, que eu sou louca e tal. Porque eu tenho certeza de que a sensação de vencer aquele campeonato especial, aquele momento ouvindo "Samurai" num elevador na França, o abraço apertado da tia querida, aquela viagem maravilhosa, aquelas palavrinhas mágicas "eu te amo" ouvidas pela primeira vez, as palmas do meu pai na arquibancada, aquela praia na Sicília, aquele pôr-do-sol em Sunset Cliffs, aquela tarde lendo Tintim no ar-condicionado com minha avó, aquela noite em claro conversando em Long Beach, as cachoeiras de Mauá, aquele elogio na aula de balé, a crise de riso sem motivo algum, a nota boa na prova mais difícil, aquele telefonema de convocação, aquele desfile em Mar del Plata: todos esses instantes ainda existem, à parte e dentro de mim, esperando para serem revividos. E a maior alegria é sentir que, quem sabe até os 34, 75 ou 103 anos, outras centenas de momentos como esses serão guardados nesse cofre enigmático que eu, só eu, tenho a chave.



Sábado, Novembro 15, 2003


Perdoem a ignorância

Hoje tem aquela festa Selectah na Cinelândia. Parece que é algo tipo um trio elétrico cool, pr'aquele povinho cult-ploc-pluft que acha que drum’n’bass já é coisa do passado. E daí? Poizé, nunca ouvi falar nesse troço, mas acabo de ler que, entre outras coisas, os DJs vão tocar breakbeat, dub, ragga e jungle, e quem sabe um electroclash no final. Pelamordedeus, alguém me diz que está tudo bem se eu continuar ouvindo meu roquenrouzinho com MPB e uns clássicos de vez em quando.



Quinta-feira, Novembro 13, 2003


Asa-delta

No dia 28 de dezembro de 2000 eu voei de asa-delta em São Conrado. Foram apenas dez minutos no ar, mas foi maravilhoso, inesquecível. Com o instrutor Paulão, fiz um vôo duplo que foi filmado e fotografado para a página-mico que eu fazia num site. Logo depois de mim voou a Sassá, minha amiga e fiel escudeira que fazia o papel de fotógrafa. Um outro instrutor amigo do Paulão estava lá, e eu já havia acertado tudo com ele por telefone. Era o Valtinho, com quem tiramos fotos, sentamos num quiosque e conversamos sobre asa-delta, a Associação de Vôo Livre, os cuidados para evitar acidentes, o Pepê, a extraordinária sensação de voar. Cerca de um mês depois fiz umas materinhas sobre parapente e conversei um pouco com ele novamente.
Pois hoje, lendo o jornal, vi que um dos dois mortos durante um acidente de asa-delta foi ele, que voava com uma turista de Manaus. A asa partiu, eles bateram numa rocha embaixo da Pedra da Gávea e caíram no mar. Fiquei pensando naquele meu vôo e em quanto eu vinha repetindo que gostaria de voar de novo. Revi o vídeo da minha pequena aventura, na internet, umas três vezes. Acho que jamais terei coragem de sentir novamente aquela sensação maravilhosa.
Que Deus o tenha lá, bem alto, vislumbrando a Praia de São Conrado.


Tá tarde e dormir não adianta
E esse vento na minha cabeça que não pára de pensar em tudo o que tenho que fazer nas próximas três semanas e nos próximos trinta anos e essa tela branca na minha frente que insiste em permanecer assim branca e sem sal e sem sentido e essa mente que não quer produzir nada de útil e todos esses textos de pedaços de livros que nunca lerei por inteiro e que ficam na minha cama e me azucrinam e pulam das pastas transparentes e todos os CDs e livros que pedem para ser organizados mas não sei como nem que horas e essas roupas que pretendem vestir quem as queira usar e as três caixas de e-mail pedindo atenção e poucos amigos gritando por umas palavras via web e o bêbado jogando pedrinhas na minha janela e os gatos brigando na pracinha e o futebol de amanhã me atormentando e eu aqui querendo apertar no fast forward to a couple of months later quando tudo estará em seus devidos lugares ou então as dúvidas antigas serão piadas substituídas por novas dúvidas mais contundentes mas enquanto isso não acontece eu fico aqui com minha motivação em conta-gotas virando pastiche de mim mesma esse ser anódino mulher-flamboyant numa mixórdia de vida sem relíquias e pensamentos gaguejantes obrigando a si mesma a formular objetivos compatíveis com uma vidinha qualquer de uma pessoa comum nem moderninha nem nada além de alguém que joga sinuca com bolas brancas e evoca escritores como xamãs e delimita fronteiras de diálogo segundo a moral e os bons costumes de uma mocinha chata e boazinha perversa e discreta gracinha e ácida que vive numa modorrenta prisão feliz e não se sobressalta nem com suas indiferenças cruéis e estúpidas palavras sobre palavras que começam num sem-noção de dar dó e sem pretensão de obra-prima porque nada procede mas assim no caos é que sei quem sou. E o pior é que a vida anda boa e sem graça.



Segunda-feira, Novembro 10, 2003


Gerúndio

Ouvindo: Constant craving, K.D. Lang e Como nossos pais, Elis Regina.
Dormindo: menos que o suficiente.
Digerindo: balas diet. Refrigerantes diet. Saladas. Sopas. Além de arroz, feijão, macarrão, batata e tudo o que engorda.
Usando: Paloma Picasso ou Vanilla Lace da Victoria's Secret (metiiiida...)
Comprando: absolutamente nada.
Procurando: dinheiro.
Lendo: 572 textos de história, dos merovíngios aos jacobinos, dos iluministas aos palestinos.
Pedindo: o milagre da multiplicação das vagas de trainee.
Visitando: blogs blogs blogs. E fotologs.
Revisitando: minha agenda de 1994 (sensacional) e fotos de San Diego (sempre...)
Embromando: último mês da facul de jornalismo.
Amando: meu mineiro.
Fingindo: ser saudável.
Rindo: da e com a Brenda, a Tatilica, a Sassá e as Nove Sagazes Criaturas do Bunker.
Vestindo: qualquer coisa confortável.
Sentindo: saudades antecipadas. Cansaço. Saudades atuais.
Desejando: andar de bicicleta na orla. Caminhar no mato. Mergulhar numa cachoeira.
Torcendo: pelas duas seleções de vôlei. Pelo Flu (vôlei), nesse fim de semana.
Ignorando: futebol, com todas as minhas forças.
Enterrando: pequenas mágoas insignificantes, antes que virem úlceras antropofágicas.
Precisando: hummm...precisar, precisar, não estou precisando de nada...
Querendo: basicamente? Casar e ter um emprego decente. E mais um milhão de coisas.
Chorando: só em filmes.
Estudando: História. No máximo.
Paparicando: a Tiffany, minha cachorrinha highlander.
Devaneando: sempre, sempre e sempre, sobre qualquer coisa.
Planejando: viver sem planejar.



Sexta-feira, Novembro 07, 2003


Eureka!

Como é bom ser reducionista: descobri a causa dos conflitos entre árabes e judeus (ou, se preferirem, palestinos e israelenses)...
A culpa é da Inglaterra!!!
Qualquer dia eu falo sobre isso.



Segunda-feira, Novembro 03, 2003


Biologia e História e vice-versa
Enquanto meu primo advogado-biólogo coleta água de bromélias na restinga da Marambaia e planeja seu trabalho sobre alimentos do futuro tais como os hidropônicos e os biodinâmicos (imagino-me aos 50 saindo para tomar um ovomaltine biodinâmico mal-batido no Bob's da fétida e aterrada Lagoa Rodrigo de Freitas), aqui em minha mitocôndria azulamarela eu passo o tempo estudando desesperadamente a história do liberalismo e as diferenças da Revolução Industrial na França e na Inglaterra.

Meu pobre primo tem aulas com uma professora doidona que recomendou um livro sobre "os embaixadores da luz" (aquelas pessoas que param de comer e se alimentam de luz). Antes de ler tal obra, ele diz que a primeira coisa que vem à cabeça é que, se houvesse realmente essa parada de se alimentar de luz, as criancinhas não estariam morrendo de inanição na Somália, debaixo de tanto sol....Faz sentido. E eu penso que, se o capitalismo, e com ele a incrível tecnologia, fosse tão imprescindível e maravilhoso assim, essas mesmas criancinhas também não estariam morrendo de inanição. Seríamos nós "capitalistas", então, menos loucos que os tais embaixadores da luz??

Enquanto isso, em vez de estudar sobre os Discípulos da Luz, meu primão preferia ter passado o dia na maratona de 10 horas dos Simpsons, vendo os 20 melhores capítulos seguidos do episódio 300. E eu preferia que meu cérebro tivesse poder osmótico para deitar a cabeça sobre os textos e entender as engrenagens do liberalismo e do mundo contemporâneo enquanto eu assistiria, inerte, a três episódios seguidos de Felicity. Com meu milkshake biodinâmico ao lado.



Domingo, Novembro 02, 2003


Passa rápido...
Rapáiz, hoje já faz um ano daquela tarde nublada, dia de Finados, em que eu, desempregada e doente, resolvi fazer um blog, assim do nada. Tentei registrar uns nomes que tinham coisas como Perséfone e Bacchia no meio, mas acabei ficando com esse Coisas de Nada. Não pretendia que fosse um diário e muito menos algo "sério" (existe algum blog sério???)... Aliás, não sei muito bem o que pretendia com isso...Era uma maneira de me ocupar, ter um ânimo para escrever minhas irrelevantes besteiras. Hoje, ocupadíssima, continuo com muita vontade de escrever aqui - e de vez em quando consigo, hehe. Esse troço é uma terapia. É meio idiota, talvez inútil, mas quer saber? É legal. Eu gosto e pretendo continuar. Quando estiver muito chato, muito ruim ou muito louco, é só clicar em algum link lá de baixo, à esquerda. Tem blogs muito bacanas por ali.



Sábado, Novembro 01, 2003


Dear diary,

Hoje, depois de um período de bonança, bateu uma dorzinha verdadeira de imaginar que as coisas vão mudar, e talvez muito, daqui a uns meros 60 dias. Minha vida é feita de fases - em grande medida involuntárias - de convivência com grupos de pessoas efêmeros. (Talvez a vida de muita gente seja assim, mas esse é um traço permanente na minha.)

Às vezes a separação é traumática, como não poderiam deixar de ser a minha volta ao Brasil depois de um ano incrível em San Diego ou a volta ao Rio após anos viajando e morando em BH e Curitiba. Nos dois casos, a mudança de lugar e de pessoas significou uma mudança total de caminho, de objetivos, uma transformação quase conceitual do que a vida deveria se tornar. Recomeçar e mudar de profissão é tão difícil quanto mudar de país. Quando você acha que entrou nos eixos, percebe que a cabeça de todos ao seu redor está de cabeça pra baixo, até que, ooops, era a sua perspectiva que andava meio estranha...

Agora talvez seja diferente. (Tá bom, sempre é diferente, não se entra no mesmo rio duas vezes blábláblá...) Se até agora o que mais me inquietava era não saber o futuro, não poder adivinhar uma decisão que não depende de mim, além de uma provável mudança de emprego, estado ou até profissão, o que hoje me incomodou foi, mais uma vez, o afastamento forçado e simultaneamente natural que, de tempos em tempos, tenho que fazer das pessoas.

Porque eu me apego muito e me desapego pouco. Para alguns pode ser difícil esse afastamento nos primeiros dias, mas para mim é difícil ad eternum. Por mais que não nos falemos, não esqueço da amiga do colégio, do primeiro time de vôlei, da amiga de Londrina, da que mudou pra Sampa, da que casou e se afastou, da que aparentemente se esqueceu de mim, da que ficou em Curitiba, nos Estados Unidos, do que mora na Eslovênia ou da que vive em Chicago, e de tantos outros...Todos são importantes. O passado, para mim, não passa. Ele fica guardado num universo paralelo aqui dentro, com um carinho muito grande por pessoas que, às vezes sem saber, transformaram minha vida nas pequenas coisas e me construíram como sou (seja isso bom ou ruim...) É piegas, mas é verdade. A amizade, como qualquer forma de amor, é piegas.

Então mais uma vez eu corro o risco de me separar de pessoas formidáveis que cruzaram meu caminho e nele permaneceram por algum tempo. Mais uma vez, eu vou tentar manter contato, pegar telefone, e-mail, endereço, dizer para essas pessoas o quanto elas são legais, agradáveis, engraçadas, únicas em seus defeitos e qualidades, e o quanto o conjunto da obra delas me conquistou sem que elas se esforçassem especificamente para isso.

Mais uma vez, vou ficar triste - talvez também deixe alguém triste por alguns momentos - e vou me afastar de pessoas especiais que provavelmente nunca entenderão o quanto são especiais para mim. Com o tempo, as coisas vão tomar uma distância que as distorcerá, e nós perderemos a dimensão da importância de amizades ou simples convivências que tivemos...Vai tudo ficando longínquo...Vão sumindo algumas afinidades, desvanecendo-se as gargalhadas, desbotando-se sorrisos, e acabam sobrando uma foto no álbum antigo da gaveta e um momento qualquer na memória, um episódio aparentemente insignificante que lembramos sem sabermos bem por quê...

Não me parece justo, mas sei que é assim.
São amigos, colegas e conhecidos; eles se vão e a lembrança fica...Cogumelos, diria o Pequeno Príncipe!


Não fui ao Tim Festival, e nem sei bem o porquê. Tô sem grana, é verdade, mas a gente sempre dá um jeitinho nessas horas...Sei lá, não entrei no clima. Estou ficando velha, só pode ser. Tô curtindo uma noite de sexta pra ficar em casa sozinha, sabendo que o Rio de Janeiro lá de fora se diverte com White Stripes, Super Furry Animals, pagodes, bailes funk, forrós, cines-buracos (para um lugar chamado cine-buraco eu me dou o direito de inventar o plural), luaus, pubs, mini-raves, cobais e pés-sujos das esquinas. Cada um com seu cada um, deixa o meu comigo.



Segunda-feira, Outubro 27, 2003


Uninvited

Eu venho guardando minhas autocaricaturas aqui dentro. Eu venho sufocando meus macaquinhos no sótão, emudecendo meus bichos, espancando minhas espúrias verdades como uma carrasca ímpia. Porque eu posso parecer sã, mas não sou não.

Venho escravizando minhas opiniões para me tornar um incrível autômato. Venho solapando meu id e prometendo que, in diem, ele vai se soltar das correntes. O superego é meu deus, um deusinho cínico e cheio de pudores. Um deus sem graça, pífio.

Vou deixando que a amargura tome conta de mim, enquanto permito que minha vida seja regida pelos valores dos outros, os outros que me dizem como sou e como deveria ser. Mas só percebo isso à noite, quando me viro do avesso. Na manhã seguinte o encanto se quebra e retorno à estaca zero, escondo o ogro debaixo do tapete e volto a me sentir como se eu, a dona da festa, tivesse esquecido de me convidar.

Eu venho tendo vontade de dizer umas verdades, de não pedir desculpas quando acredito que estou certa, de não tentar ajudar quem não faz por onde merecer minha ajuda. Às vezes eu quero ser canalha.

Venho querendo, há tempos, estourar uma garrafa de champanhe e torcer para que a rolha deixe um olho roxo naquela criatura que tem cara de quem precisa de um olho roxo. Venho querendo explicar que tudo isso aqui é pura paz armada, a Pax Renatiana que é apenas um artificial momento entre duas guerras, entre várias guerras. Tenho tido vontade de anunciar que quem não está comigo, está contra mim, porque Renata, a Maniqueísta, é uma superpotência. Às vezes eu quero ser arrogante.

Há tempos eu planejo me perder, tomar um ônibus e sair por aí, conhecendo o Rio de Janeiro e seus riquíssimos exemplares humanos. Mas sempre me encontro quando estou quase me perdendo, sempre dou de cara com alguém tão sensato quanto irritante.

Venho tentando deixar de lutar contra a mediocridade, assumir minha frivolidade até que alguém me conte que, sim, eu vou morrer. Assim como vocês, cujos olhos me dizem quem sou e o quanto estou errada em ser quem sou. Sou um autóctone, e vocês, os colonizadores.

Ando escondendo minha aspiração de reduzir ao absurdo qualquer premissa que vá contra o que quer que eu esteja venerando no momento. Insisto em falar por metáforas, quando no meu pensamento, sadio até a raiz, nenhuma analogia é admissível. Minha verdadeira náusea é a certeza de que a existência, essa palavra que devia vir entre aspas, não é gratuita. Os limites da minha linguagem e visão são os limites do meu mundo. Um mundo pobre, mas feliz em seu próprio engodo. E, por isso, mesmo que vocês não tenham entendido nada, eu não vou explicar de novo e vou continuar a sufocar, um a um, os macaquinhos no meu sótão.



Quinta-feira, Outubro 16, 2003


A Invasão

Elas estão por toda parte. Na amiga de escola que reencontro, linda como sempre, numa sexta à noite. Na outra amiga de anos 80 que revejo andando em Santa Teresa. Na minha genitora, na minha cunhada, na Brenda-mãe e na Brenda-filha, na Xuxa, na Sasha e na Sassá. As rugas estão invadindo o planeta.

Ou então eu só comecei a percebê-las agora, aos 25 anos, quatro meses e 15 dias.
Uma moça muito bonita, musa do vôlei, me disse certa vez que os 25 são um marco: a partir daí é preciso se cuidar em dobro, pois tudo cairá em progressão geométrica e na metade do tempo. Ela tinha então 25 e eu, 18. Magrinha e de sorriso metálico, eu perguntara para quê serviam todos aqueles cremes que ela tinha na cabeceira, banheiro e bolsa, todos Clarins, Lancôme e afins, quando eu mal passava um mero Vasenol nas pernas. Achava tudo aquilo um exagero, frescura de musa.

Dia desses a reencontrei. Aos 32, está mais linda do que nunca, com a pele morena, mas lisinha, e corpaço de jogadora de vôlei de praia. E eu, aos 25, percebendo as minhas incipientes, mas já existentes linhas de expressão, querendo emagrecer (sempre), catando buracos na agenda para malhar mais, correr etc, tomando sopinha à noite e comprando Nescau Light, olha que coisa ridícula.

No dia seguinte ao reencontro eu escovava os dentes em frente ao espelho quando percebi outro intruso. Sim, ele estava lá, apareceu de repente. Então eu, no ano do jubileu, fui presenteada com meu primeiro fio de cabelo branco! Primeiro achei o máximo. Que maturidade, Uau. Depois lembrei que meu pai já era grisalho aos 28, e a descoberta ficou incômoda. Mas aí cheguei mais perto do espelho e percebi que o patinho feio parecia mais amarelo do que branco. Será que, anos (uma década??!) depois de ter deixado de ser loura, o processo se revertia? Até agora não concluí se o tal fio é branco ou louro. Enquanto eu me decido, o tempo não pára e as rugas se delineiam a cada gargalhada.

É, você percebe que está ficando velha (ou está neurótica demais com isso) quando vai ver "Aos treze" e o que mais a impressiona são os pés-de-galinha da Holly Hunter; quando tudo o que vê na Malu Mader e na Cláudia Abreu fica ao redor dos olhos, pensa que a Demi Moore devia injetar botox perto da boca e inclui a Vera Fischer na mesma categoria do Tarcísio Meira, a dos Maracujás de Gaveta.
Mas tudo bem: até eu envelhecer de verdade já vão ter inventado um photoshop de bolso, um ácido retinóico instantâneo ou um clone do Pitanguy.



Terça-feira, Outubro 14, 2003


Tá foda. No momento de paz e tranqüilidade que tenho para sentar em frente ao Horácio e tentar jogar umas abobrinhas na tela não vem nenhuma observação interessante sobre essa vida esdrúxula e esse mundinho ignóbil em que vivemos. Não paro de reclamar que preciso de uns dois clones, que não tenho tempo e blábláblá. Mas a semana mal começou e já consegui fazer coisas dignas de Pessoas Inúteis: malhei duas vezes, fui ao salão enfeitar minhas belas mãos e horrorosos pés, li todos os textos da faculdade, comecei a ler um livro, chequei blogs, arrumei uma parte do armário. Até correr eu corri (!). Mas tô sem saco de escrever, tanto aqui quanto no trabalho (sic).
Deve ser fase. Mulher não tem fase pra tudo? Não tem dia de birra, mau-humor, dia de vontade de comer chocolate, fase de crise amorosa (quase uma constante em todas as mulheres que eu conheço), fase de comer alface e malhar desesperadamente, fase de ir pra night, fase de querer ser mãe, fase de não precisar de homens para ser feliz....Então: eu tô numa fase supertranqüila, feliz, balanceada como minha alimentação (errr..), achando que no fim dá tudo certo. Mas com avassaladora preguiça e desânimo para fazer uma das coisas que mais gosto: escrever minhas besteiras. O mundo anda sem graça ou eu é que perdi o bonde? Tá foda.



Quarta-feira, Outubro 08, 2003


Mais uma

Saindo da Uerj, ainda acompanhada por minha trupe fashion - sandália branca em dia de dilúvio, bolsa rosa de plástico e guarda-chuva roxo - vejo uma aglomeração em frente à entrada do prédio. Alguns malucos com cadeiras de praia, um tocando violão, outros com cobertor e lanchinho. Encontro dois conhecidos que me explicam: é a fila para as inscrições dos cursos de línguas, que abrem amanhã de manhã.
Aí caio na asneira de mencionar que gostaria de aprender francês.

- Ah, eu fiz um ano aqui, é muito bom. Agora estou fazendo alemão.
- Pôxa, eu queria fazer alemão, mas agora não dá porque estou terminando grego.
- Legal, eu só sei o alfabeto. Mas faz o alemão depois, você vai gostar.
- Depois eu vou fazer japonês.
- Bacana.

Ainda morro disso.


Acordo cedo. Chove. Saio do carro e piso numa poça. Quando tiro o pé da lama, passa um carro e me dá aquele banho de água suja. Sigo estarrecida para a Uerj, de sandálias brancas (antes molhar os pés do que estragar o tênis novo), bolsa rosa de plástico e guarda-chuva roxo. Um atentado ambulante ao pudor estético.
Aula de História Contemporânea dada por D. Maria, a Louca. Manda-nos ler 10 textos pra a próxima aula (daqui a dois dias). Boa professora, mas na época da Inquisição estaria literalmente frita.
Saindo da aula, pesco a seguinte frase de um típico barbudo da Uerj, violão a tiracolo, conversando com outro cabeludo num banquinho do corredor do andar de História, Filosofia e Ciências Sociais:
- Você não pode tocar de forma positivista, sacou?
O dia promete.



Terça-feira, Outubro 07, 2003


Annalena

Como alguém pode puxar um gatilho e matar outra pessoa? Eu não entendo. E entendo menos ainda quando a vítima é uma pessoa maravilhosa como Annalena Tonelli, uma mulher de quem quase ninguém ouviu falar.
A italiana de 60 anos era um desses seres humanos privilegiados pela coragem de abrir mão da própria vida para fazer com que outras vidas valham a pena. Ela tinha o tipo de coragem que eu mais admiro e que, na pior faceta da minha covardia, não tenho.
Annalena passou a vida ajudando soropositivos, tuberculosos e mulheres vítimas da mutilação genital, até ser assassinada, anteontem, no Hospital Geral de Borama, que dirigia. (O hospital fica no enclave da Somalilândia, cuja independência da Somália em 1991 não é reconhecida internacionalmente.) Dois seres irracionais e sem alma se aproximaram e um deles disparou dois tiros em sua cabeça.
Ela trabalhava com somalianos havia 33 anos, e era conhecida como “Madre Teresa da Somália”. Fundou uma escola para surdos em Borama e tinha planos de fundar uma para cegos. Já havia sido seqüestrada uma vez e sofrera várias ameaças de morte, mas nada disso a impedia de continuar seus trabalhos de ajuda humanitária. Uma pessoa assim não pode ser esquecida. Quantas Annalenas existem por aqui, no Brasil mesmo, no Rio, no bairro, na rua? Pouquíssimas. Essas, sim, são as pessoas que considero privilegiadas, as que "invejo", no bom sentido, porque são tudo o que eu poderia ser se tivesse coragem. Que Deus a tenha.



Quinta-feira, Outubro 02, 2003


oops daisy....



Quarta-feira, Outubro 01, 2003


Eu acho a Adriana Calcanhotto uma chata. Sempre lembro daquela música em que ela choramingava que ia quebrar as xícaras e invadir a alma do cara pra ver se ele voltava. Um porre. Mas, como até os chatos - que em geral são bem-intencionados - têm seu valor, descobri uma musiquinha dela que merece a honra de ser postada nesse blog.
Uma graça.

"Depois de ter você / Pra que querer saber / Que horas são?
Se é noite ou faz calor / Se estamos no verão / Se o sol virá ou não /
Ou pra que é que serve uma canção / Como essa?
Depois de ter você / Poetas para que? / Os deuses, as dúvidas?
Para quê amendoeiras pelas ruas?
Para que servem as ruas / Depois de ter você?"

("Cantada")



Sexta-feira, Setembro 26, 2003


Uma dundee na festxeenha do Festival do Rio

Tava meio chuviscando, os repórteres, câmeras e holofotes a postos, e eu ali em pé, totalmente sem graça, fingindo que falava ao celular. Mas o casal que supostamente me encontraria não chegava e o telefone na caixa postal caçoava de mim. Aí apareceu o repórter. Passou reto. Num impulso, segui seu rastro, falei com a mocinha da porta: "Estou com ele", e fui em frente. Saia preta hippie-chic, blusa de rendinha e chinelinho preto, olhar blasè-tímido e lá fui eu, flutuando com cuidado no tapete vermelho que parecia não ter fim. Pela primeira vez na noite, uns poucos me fitaram por segundos, tentando descobrir se aquela solitária na abertura do Festival do Rio era "alguém".

Entrei acompanhada pelo repórter. Como num blind date cinematográfico, eu estava envergonhada e ele, misterioso. Os céus enviaram outro estagiário e sua namorada, ambos de jeans, seres da minha espécie que me acolheram naquele local para Very Important People. Entre minhas preocupações estava fugir do campo de visão de um certo cronista que escreve sobre estagiárias e as barras azuis de suas calcinhas. Fiquei de costas, como se ele realmente se importasse com a minha presença - ou com a minha calcinha.

No burburinho, Guilherme Karam grita "Abre a portaaaaaaaa!", mas só consegue uns risinhos. Depois puxa um "olê olê olê olá/ abreá portá!" que parece surtir mais efeito: mais alguns minutos de empurra-empurra digno de Fla x Flu nos bons tempos de maracanã e entramos na concorridíssima sessão do Odeon para "Encontros e desencontros", da Sofia Coppola.

Bom filme.
A Maria Fernanda Cândido é maravilhosa.

E aí é hora de ir à festa. Penetra de luxo, adentrei o Palácio da Cidade, todo iluminado, com Very Importants saindo pelo ladrão. O casal sensacional que me acompanhava estava candidamente solícito, ótimos baby-sitters. Para onde eu olhava havia sempre uns 75 famosos gargalhando, falando alto, cochichando, bebericando. Certa hora vi-me entre o Tom Hanks da novela, que dizia alguma coisa sobre sua paz de espírito para duas repórteres interessadíssimas no assunto, e uma rodinha eclética com alguns atores de Amarelo Manga. Deborah Colker comentou o filme afirmando que era sutil ou algo que o valha, ao que o elenco de Amarelo Manga reagiu. Não, sutil era o filme da Sofia Coppola, não o pernambucano que mostra um boi sendo morto e um gato lambendo vômito. Ah, bom. Risos sonoros.

Um cidadão diz que Dira Paes é chocolate com manga. Risos novamente, dessa vez mais estrondosos. Ser feliz é chique, é cool, é in.

E eu precisava de mais um Chandonzinho. Saí em busca de um copo limpo qualquer, até ser acudida pela pessoa mais bacana da festa, um garçom que, abrindo espaço no meio do elenco da novela das oito, trouxe-me uma taça de champanhe e um sorriso - o mesmo que mais tarde daria ao reservar três pratos de arroz marrom para meu casal sensacional e eu.

Mais à frente, uma loura de uns três metros de altura se destacava no meio de uma rodinha. Perguntei a minha amiga: Who the hell? Sei lá, ela respondeu. Nunca vi, não deve ser ninguém. Como assim uma loura alta não é ninguém? Espírito da noite: se você não aparece na TV, nem que seja num comercial das Facas Guinso, não é comentado nem na Contigo e não assina nada no jornal, você não é ninguém. Você não interessa. Eu, por exemplo, estagiária e penetra da pior estirpe (do tipo que gruda na mesa de fondue e persegue os garçons dos melhores canapés), não era ninguém. Aos poucos que era apresentada, recebia o aposto devido: Renata, a Estagiária.

Mas acho que enganei alguns direitinho. O Antônio Pitanga, por exemplo. Olhei para ele enquanto passava, ele fez aquele ar de quem pergunta "Quem é essa aí?", e me cumprimentou. Talvez por simpatia; mais provavelmente para não correr o risco de cometer uma gafe ao não cumprimentar alguma nova celebridade - ele, que provavelmente não assiste Malhação, não poderia ter certeza de quem é ou não celebridade. Se você está ali, arrumadinha e de gloss cintilando, há grandes chances de que seja famosa.

De vez em quando eu esbarrava com mortais: um do colégio, uns três da faculdade, dois ex-colegas de trabalho, uma ex-chefe. Mas logo em seguida dava de cara com um indivíduo portando uma bolsa de plástico brilhante, uma cidadã fantasiada de pin-up ou um gatão de blusa rosa e saia, e os personagens me traziam de volta ao mundo do red carpet, flashes pipocantes e uísque caro.

Euzinha, destituída de qualquer vestígio de glamour, eu que nunca tinha pisado num tapete vermelho e sempre passei longe da fila até do feijão, eu estava ali, na fila do champanhe, comendo risoto de funghi secchi com aquele bando de bacanas que se acham bacanas, e devem ser mesmo. Era tudo muito engraçado.

Jovem e velha guardas misturavam-se pelos cantos, como Marcus Faustini e Sérgio Britto numa divertida prosa no sofá, casais se formavam, e Renata, a Estagiária, esbaldava-se na pista dançando "Besta é tu besta é tu, besta é tu besta é tu". Acenderam as luzes e, antes que começasse a tocar Andança, tratei de voltar para casa. Com a certeza de que uma das melhores coisas da vida é o anonimato - principalmente quando vem acompanhado de uma boa boca-livre.



Segunda-feira, Setembro 22, 2003


Há de haver algum lugar/ Um confuso casarão/ Onde os sonhos serão reais/ E a vida não...

Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar/
Entre escadas que fogem dos pés/ E relógios que rodam pra trás...


Edu Lobo & Chico Buarque, em "A moça do sonho", maravilhosamente cantada por Maria Bethânia.



Sexta-feira, Setembro 19, 2003


No instrutivo templo da beleza nas Laranjeiras

É impressionante como eles conseguem acertar: uma revista de salão (essa categoria reúne várias modalidades de publicações periódicas, como Beleza, Fofoca, Sexo, Novela e Variedades - que, por sua vez, engloba todas as anteriores) pode ser lida (sic) no tempo exato em que se realiza depilação da perna inteira, pé & mão ou um tratamento (corte/ tintura/escova/hidratação) nos cabelos. Esse povo das Revistas de Salão deve ter feito pesquisas minuciosas sobre o assunto.

Hoje eu li (sic) a "Nova" de setembro, inteira, durante o tempo de depilação completa das pernas - e olha que depilar quase 2,20 de pernas não é tão rapidinho assim. Em seguida, durante a feitura das unhas de pés & mãos, degluti duas "Caras".

Instruí-me sobre atualidades (gente, a Carolina Dieckmann acabou mesmo com o Marcos Frota, tadinho, e anda sentando no colinho do Dado Dolabella, que por sua vez terminou messsmo com a Deborah Secco, mas eles são ainda suuuperamigos). Descobri que, segundo os astros, Mercúrio está do meu lado e este mês é perfeito para relaxar e cuidar de mim. Aprendi a Dieta do Índice Glicêmico, que vai me deixar ma-ra-vi-lho-sa em três semanas, sem sacrifícios, e a Ginástica dos Oito Minutos, que vai "modelar e tonificar" o meu corpitcho mais do que qualquer outro exercício (!!).

Mas o mais bacana foi me inteirar das novidades na seção mais cultuada (na verdade, a seção única) da "Nova": sexo. Há dicas primorosas para você realizar as fantasias de seu amado, de prostituta tailandesa a noviça carmelita; ensinam, ainda, sob o título Eu durmo com o seu namorado, como fugir de uma mulher como X., 25 anos, devoradora compulsiva de homens alheios (!); há depoimentos emocionantes como o de Y., ex-evangélica que vivia no conforto do lar, trocou tudo por uma paixão louca, juntou-se a um stripper e hoje dança em bares de swing; além de um magnífico roteiro com toques tipo "transforme sua escova de dentes elétrica em um vibrador de alta potência".

Depois de tão edificante leitura, terminada calculadamente no momento em que as unhas ficaram prontas, pus-me a folhear uma segunda "Caras" enquanto esperava o esmalte secar. E então tive a sorte de passar os olhos no que considerei a Frase do Ano, proferida pela poderosérrima Dani, a Cicarelli: "Uma linda jóia é capaz de transformar uma mulher". Uau.

Um par de horas, trinta e três reais e muitas novas teorias femininas depois de ter entrado no salão, levantei-me, esmalte seco, dedos ridiculamente esticados para não borrar (toda mulher entende o que quero dizer), e dei aquela olhadinha no espelho, que sem dúvida estava mais cooperativo do que à minha chegada. Depois de ver 177 fotos de Gisele Bündchen, 58 de Maria Fernanda Cândido, 39 de desconhecidas satisfeitas com suas vidas e 24 de ex-gordinhas felizes e vencedoras, até que me regozijei em minha depilada e rutilante silhueta de simples mortal que dá pro gasto.

Viva as Revistas de Salão. O ritual pagão favorito das fêmeas não seria tão aprazível sem elas.



Sábado, Setembro 13, 2003


Revelações

Todo mundo tem um passado negro. Todo mundo tem pontos obscuros em seu presente. Todo mundo pagará muito mico no futuro. Por isso, por não querer que ninguém se surpreenda com meus vários podres, libero aqui algumas constrangedoras informações sobre a minha pessoa que você, provavelmente, não sabe, e nem faz questão de saber. Se mesmo assim resolver ler, por favor, não se assuste.

Eu já liguei para o Bozo.
Meu sonho era ver o caminhão do Faustão chegando à porta da minha casa.
Eu tenho dois CDs da Mariah Carey.
Eu sei cantar várias músicas da Mariah Carey.
Eu nunca li Dostoievski.
E parei no meio de O Guarani, ao perceber que José de Alencar, apesar de ter inegável valor, é um saco.
Eu nunca quis ser paquita, mas sempre amei a Xuxa.
Eu ainda adoro a Xuxa.
Não há santo que consiga me fazer assoviar. De forma alguma. É meu maior trauma de infância.
Eu tenho três CD’s do Bon Jovi.
Eu sei cantar várias músicas do Bon Jovi.
Eu fui ao shows do Menudo, A-ha e Rod Stewart. E iria de novo.
A porta do meu quarto era Menudo de cima a baixo e eu era apaixonada pelo Charlie.
Depois me apaixonei pelo Axl Rose.
Eu ainda durmo agarrada a um ursinho marrom com laço vermelho e focinho descosturado (mas nada é pior do que o Juca xexelento da Brenda).
Eu adoro a Alanis Morissette.
Eu não sei quem é Tom Waits.
O meu dedo do pé ao lado do dedão é muito feio.
Apesar das brincadeiras pacíficas com minhas 11 Barbies e meus 9 Kens e Bobs, eu tive meu momento mórbido ao fazer de homem-bomba um inocente playmobil.
Eu chorei em Procurando Nemo (quem viu o filme sabe o quanto isso é grave).
Eu converso com a Tiffany, minha cadelinha.
Eu tenho certeza de que ela me entende.
Eu cato granulados do brigadeiro e seco o frango e a pizza com guardanapo.
Eu nego, mas sou supersticiosa.
Tentando lutar contra isso, uma bela manhã passei debaixo de uma escada. Fui demitida à tarde.
Apesar de não acreditar e meter o pau, eu dou aquelas olhadinhas no horóscopo. “É engraçado” é a desculpa.
Eu sou hipócrita.
Eu queria ser a Penélope Charmosa.
Depois, eu queria ser a Larque da Turma da Pesada.
Mais tarde, eu queria ser a Felicity.
Eu adoro o Cozumel de segunda-feira.
Eu me amo, mas tenho meus complexos.
Se pudesse, mudaria uns 80% do meu corpo.
Eu não sei o que eu quero ser quando crescer.
Eu não quero crescer.
Estou adorando ouvir Robbie Williams.
Eu tenho medo de fantasma.
Eu detestei Amarelo Manga. Cult uma ova, aquilo é ruim mesmo.
Eu nunca fui a bonitinha da turma no colégio.
Nem da faculdade.
Eu tenho dois CD’s da Celine Dion.
Eu sei cantar pelo menos umas cinco músicas da Celine Dion.
Sempre que vou tomar banho acho que o gás vai explodir. É uma das minhas neuroses controladas.
Eu tenho total pavor de baratas. É uma das minhas neuroses não-controladas.
Eu vi Titanic duas vezes. Chorei muito nas duas.
Eu tenho o CD de Titanic.
Depois dessa, chega. Mais que isso é muita autoflagelação.


A crônica de um amor partido

*Marcos Loveme Tendler

Deve ser realmente uma coisa completamente inacessível esse tal de amor. Pelo menos o que eu acredito que seja isso. É claro que eu entendo que, quando se gosta de alguém, naturalmente se quer esse amor só pra si. Mas e daí? O que o meu amor tem com esse sentimento de posse? Por que não usar a força do amor pra nos transformar em vez de, por amor, querer mudar quem se ama?!

O mais poderoso dos sentimentos - ou será dos sentidos? -, essa energia incontrolável que nos leva a cometer loucuras, às vezes over, às vezes nem tão loucas assim, é realmente a cola que nos faz andar juntos. Não necessariamente pra frente, mas juntos.

Será que é tão difícil de entender? Ou sou eu que ainda não aprendi a amar? Eis a questão. E o que os meus desejos têm com o meu amor?! É tão estranho assim, amar e não desejar da mesma forma, ou é a fôrma do meu amor que está fora de forma? Afinal que porra de fôrma é essa, que quem se ama tanto deseja, enquanto o amante não sabe a receita? Pelo visto esse bolo tá mais solado que tijolo velho, ou então eu ando amando errado.

Não adianta achar que o meu amor é capaz de mudar alguém que não seja eu. Ainda que eu não saiba esperar dessa forma. Quem ler isso aqui vai me achar o mais loveless... que pena. Não sabe o valor de passar por tudo isso e ainda querer voltar pro bis! Até que a caixa acabe e tudo não passe de um monte de papeizinhos azuis amassados & enrolados em celofane rumo ao lixo.

Até que eu dê um sentido a essa crônica nada vai ter mudado; não há sentido em continuar tentando errado, achar alguém pra ficar do meu lado. Melhor é escrever, salvar e deixar isso tudo ocupando espaço na memória do que achar que naquele 286 guardado no fundo da garagem vai rodar o Windows XP.



*elucubrado por meu amigo Tendler, rapaz carente em busca de aventuras sórdidas mais acessíveis do que esse tal de amor



Quinta-feira, Setembro 11, 2003


O bloco da eu sozinha

Às vezes eu me basto.
Amo gente e acho que as pessoas são a matéria prima da vida. São o que vale nessa existência, além da lua, do pôr-do-sol e outras coisas bregas e indispensáveis. Mas às vezes não preciso delas. Às vezes um papel e uma caneta, um livro, um computador ou um saco de pipoca no cinema são suficientes para a minha felicidade.
Adoro ver um filme sozinha. Adoro sentar e escrever barbaridades sem que ninguém por perto note minha presença. É bom saber que a minha companhia é sempre bem-vinda. Afinal, eu sou uma moça bacana e, tirando alguns momentos de extrema auto-imolação, em geral eu mando bem comigo.
Ir à praia sozinha, num lugar tranqüilo: isso é o paraíso. Ninguém reparando em você e na sua indumentária, ninguém contando suas celulites e dobras na barriga, ninguém na frente do seu sol. É só você, Deus, a areia, o mar. Isso para mim é meditar. Não que eu saiba realmente meditar: eu paro, respiro e dou uma viajada. Fácil. É só não ter nenhum ser humano carente de atenção nas redondezas. Porque senão meus planos vão por água abaixo: tenho esse vício de dar atenção às pessoas.
Hoje a minha solidão está muito bem acompanhada por um cara charmosão que até hoje se lamenta de não ter me conhecido. Vinícius morreu quando eu tinha dois anos de idade. Ele sabia o que era ser romântico. Duvido que alguém escreva as palavras coração, mulher, flor e lua tantas vezes quanto ele sem cair na pieguice. Um homem que, às vésperas de uma guerra mundial, escreve o Soneto da Fidelidade para sua amada é um homem que merece fazer parte de meu momento eremita e ser minha única ligação com o mundo dos terráqueos, esses seres estranhos.
É por isso que, num instante como esse, de vacuidade e sono, muito sono de alma cansada por não ter certeza de quase nada, ele me acompanha, me convencendo de que é melhor ser alegre que ser triste, me embalando na valsa para o ausente, insistindo que a mulher amada determina os meridianos e me pedindo que seja sua namorada.
E assim, sozinha, mas com Deus e ouvindo Vinícius: eu me basto.


total despair.



Quarta-feira, Setembro 10, 2003


, em vez de ver o jogo do Brasil, estou fazendo um trabalho há TRÊS HORAS, sentada na frente do computador, comendo TREMOÇOS com MINEIRINHO DIET.
Eu PRECISO me formar. E rápido.
NINGUÉM pode ser tão esquisito assim.



Sexta-feira, Setembro 05, 2003


maketradefair.com

God give me style and give me grace
God put a smile upon my face


Cara. CATARSE. Absurdo.
Estou com medo de dizer que foi o melhor, então: um dos melhores shows da minha vida.
E eu não tenho palavras. E sobrevivi. Nem cortei os pulsos, sorri abundantemente, dancei comigo e com o Chris Martin, flutuei em luzes verdes. Os olhos só encheram em "In my place", sei lá por quê.
Mas tenho CERTEZA de que ele leu meu blog. O cara fez exatamente isso:

"Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:

So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost "

Como eu pedi ontem.

Só sei que são quase duas e eu vou me ferrar. Tenho que terminar um trabalho agora e acordar às 10 pras 7h. E eu não tenho palavras. Mas o show foi IMPONDERÁVEL. CATÁRTICO. APOCALÍPTICO. Tava tão bom que DOEU quando acabou. Acabou? Tô ouvindo até agora, soundtrack do trabalho de Arquivística: Running in circles/Coming up tails/Heads on a silence apart/Nobody said it was easy......
Só faltou meu boy para dividir o momento.



Quinta-feira, Setembro 04, 2003


Música Para Cortar os Pulsos

É hoje. Tem que ser muito louco para pagar R$ 60 pra ouvir trilha sonora de suicídio. Mas eu sou. Vou ver sparks everywhere e cantar

I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around
We never change, do we?


Afastem os objetos cortantes.

I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I wait for you


Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.


E amanhã o dia vai nascer melancolicamente yellow e com maquiagem borrada.

***

Mas agora cante comigo, aos prantos:

Everything's not lost

When I counted up my demons
Saw there was one for every day
With the good ones on my shoulders
I drove the other ones away

So if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost

When you thought that it was over
You could feel it all around
And everybody's out to get you
Don't you let it drag you down

'Cos if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost (2x)

Singing out
Oh, oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Everything's not lost

Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:

So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost

Depois, coma uma barra inteira de chocolate ou devore um pote de morangos com leite condensado e vá dormir.



Quarta-feira, Setembro 03, 2003


Saravá, weblogs

Não sei o que acontece. Chego, sento e fico olhando a melissinha azul jogada ao lado da cama. Aí engulo um pão com queijo cottage, tomo um leite e só quero dormir. Resisto e malho como quem come um doce mesmo sem ter paladar, mas mato uns exercícios de braço (pensar que ganho músculos nos braços com facilidade é um ótimo álibi). Então sento ao computador, abro o Word e ao mesmo tempo a internet.
1, 2, 3 e já!, quem abrir primeiro ganha. O Word sempre vence, mas eu acabo roubando para a internet. E entro no messenger. E leio os blogs, que só fazem aumentar no meu “favoritos”. E checo minhas quatro contas de e-mail. E leio o No Mínimo, dou uma navegadinha cá e acolá, entro no NY Times crente que sou foda. E leio o poema del dia em español, crente que sou mais foda ainda e que meu incipiente espanhol vai evoluir alguma coisa. Mas o que leva mais tempo, principalmente depois que instalei o velox e não tenho que controlar a conta de telefone, são os benditos blogs.

É quase uma neurose obsessivo-compulsiva: assim como seco o peito de frango com um guardanapo para tirar o óleo e cato granulados do brigadeiro (alguém me dá licença de não gostar de granulado?), eu entro na rede e TENHO que ler blogs. E não são só esses aí que compartilho com meus oito leitores (estou evoluindo) nos links lá de baixo não. Dá para contar um aumento de 8% ao mês no número de sites que TENHO que acessar, nem que seja só para dar uma olhada no título do post que não lerei até o fim ou, claro, para deixar um comentário imbecil.

É que ultimamente meus critérios têm ficado muito latos. Não me importo tanto assim em escrever um palavrão ou outro (ontem eu mandei um “isso me deixa puta da vida”, algo impensável quando comecei essa terapia ocupacional do egocêntrico século XXI). Já começo frases com pronomes oblíquos (pecado dos mais sujos, que a Renata de outrora classificaria como digno de sete dias de jejum para penitência). Aos poucos, abandono o “para” e adoto o feioso “pra” - descolado, mas feioso. Não me inibo em escrever posts sem sentido algum, sem um mínimo mote, um gancho qualquer. Sento e escrevo qualquer coisa. Não é assim que são os blogs?

Blogueiros, vocês estão me levando para o mau caminho. Além de procrastinar, eu, após ler tanta coisa bacana (as duas últimas palavras são sintomas de quem acompanha as atrocidades do blog Inventando Dogmas) escrita assim, sem compromisso, começo a achar que eu nem preciso ficar tão preocupada em reler o que escrevi. Ah, quem manda e-mail no estilo bicho-preguiça “vc tb ta a fim?” ou faz :-) para dizer que está feliz não pode ficar grilado se encontrar um errinho ou outro neste blog inútil e despretensioso.

Mas, assim como ler tantos blogs joga meu próprio numa lassidão constante, esse torpor blóguico que me ataca e transforma meus textos em garranchos ineptos adianta alguma coisa, sim. Esse torpor mostra a mim, menina dantes morigerada, de cérebro nodoso e conspícuo orgulho, capaz de obter orgasmos mentais após verborréia desvairada como essa frase, que a lubricidade da vida está em vivê-la, e não em escrevê-la. Me avisa que minha obstinada pudicícia literária não serve pra bulhufas, até porque não tenho cacife suficiente para melindres puristas. Não passo de um engodo que cumpre uma rotina profilática de normalidade e tentativa de inserção num mundo ao qual não pertenço – o dos que escrevem porque essa é sua vida e é assim que se sustentam. Sou parte de uma turba de caprichosos que estão à margem porque não têm oportunidade, são azarados, não se movem ou simplesmente são ruins mesmo. E cada dia eu me encaixo numa das hipóteses.



Terça-feira, Setembro 02, 2003


Alcoviteirice

É muito bom terminar o dia com uma palavra nova na cartola. A de hoje é lenocínio. O cara falou, me senti meio ignorante por não saber do que se tratava, mas felizmente percebi os olhares de dúvida entre meus iguais. Ninguém tinha idéia do que aquela expressão bonita, explorar lenocínio, significava. Até que uma alma rechonchuda e sem-vergonha resolveu perguntar - não sem antes deixar claro que todos estavam nas trevas, não só ela. Para os ignorantes como eu: lenicínio pode ser proxenitismo. Ou ainda rufianismo.
Boa noite.


A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, que no final das contas o mundo é justo, o que importa é ser gente boa e quem é legal sempre ganha no final. A gente acredita que, por mais que pise na bola, o mocinho da história, que nem é perfeito, mas pelo menos é simpático e carismático, vai ficar com a mocinha e fugir para um lugar distante dos problemas. Por isso a gente fica meio abalado quando algo que, se não era previsível, era no mínimo possível, acontece. E, mesmo quando esse algo não vem bater na gente, nos abala porque nos identificamos com o alvo do destino ou de seus próprios desatinos, que provavelmente não acreditava que aquilo iria acontecer de verdade. Afinal, apesar de tudo, ele era bom e legal.
Só que o mundo não funciona assim. Não adianta ser legal. Eu me considero uma pessoa bacana e já tomei minhas porradas, inesperadas ou não. Fui cortada da minha primeira seleção brasileira, me machuquei em horas que não podia, tive uma melhor amiga traíra, fui demitida sem explicações após uma seleção de quatro meses e por aí vai. Mas, por mais que tentasse sempre me preparar pra qualquer situação, o pior é sempre inesperado porque no fundo não acreditamos nele. Nessas horas a esperança é um algoz, funciona ao contrário: temos esperança de que, no fim, dá certo.
Mas não dá. E isso me deixa puta da vida.



Segunda-feira, Setembro 01, 2003


"A Argentina é a caricatura do neoliberalismo."
Pierre Salama, economista

E o Brasil é o quê???


I wish I could go hitchhiking from here to the moon...



Sexta-feira, Agosto 29, 2003


Eu amo o Rio, chova ou faça sol

Arpoador....Morro Dois Irmãos..."Maneiro"...Leme... Cascata no Meridien..Paço Imperial..."Fala sério"...Mengão....Lapa...Urca..."Cara!"... Praia na Garcia...Pedra da Gávea...biscoito Globo com mate Leão...Matriz..."Falou"...mil cinemas... rock, samba, choro, bossa, funk, forró...Parque Lage...ATL Hall..."Bora?!??".... Baixo Gávea....Corcovado...Cobal....Árvore na Lagoa..."Night"... Apoteose.... água de coco... Prainha... quiosques...Mercadinho São José..."Caraca!"...teatro... rodízio japa, pizza, boteco, churrasco...Canecão...Sindicato....Feira de São Cristóvão...Dias Ferreira...Bob's...Feira Hippie...Cervantes..."Colé?!"...museus...Baía de Guanabara....Jobi..."Beleza!"...CCBB...calçadão...Confeitaria Colombo..."sinistro"...Largo do Boticário....
Mas o melhor de tudo é ter certeza de que o "etc" tende ao infinito nessa cidade inesgotável...Reclamem do tráfego e do tráfico, do lixo, da favela, do barulho, da zona, da polícia, do ladrão, chovam cães, gatos e ornitorrincos: eu amo o Rio.



Quarta-feira, Agosto 27, 2003


Uma das melhores frases dos últimos tempos, proferida por meu amigo Nando Engolervilha Miller:
"O Bush TEM que morrer sofrendo de hemorróidas".



Sexta-feira, Agosto 22, 2003


When half-gods go...

Eu sei, eu sei: uma das grandes tentações que compõem a arte de se ter um blog é a de postar poesias ou textos de outrem assim, sem mais nem menos. Apesar de eu não ter tido tempo esta semana para escrever nada aqui - volta às aulas, compra de material escolar na Casa Mattos, sabe como é -, de qualquer jeito essa poesia eu já queria ter colocado há muito tempo. É uma das minhas favoritas...A primeira estrofe, inclusive, mora no lado esquerdo deste blog e cumpre a difícil missão de substituir Fernando Pessoa. Tenha paciência e leia até o final, please.


Give All to Love

GIVE all to love;
Obey thy heart;
Friends, kindred, days,
Estate, good fame,
Plans, credit, and the Muse-
Nothing refuse.

'Tis a brave master;
Let it have scope:
Follow it utterly,
Hope beyond hope:
High and more high
It dives into noon,
With wing unspent,
Untold intent;
But it is a god,
Knows its own path,
And the outlets of the sky.

It was never for the mean;
It requireth courage stout,
Souls above doubt,
Valour unbending:
Such 'twill reward;-
They shall return
More than they were,
And ever ascending.

Leave all for love;
Yet, hear me, yet,
One word more thy heart behoved,
One pulse more of firm endeavour-
Keep thee to-day,
To-morrow, for ever,
Free as an Arab
Of thy beloved.

Cling with life to the maid;
But when the surprise,
First vague shadow of surmise,
Flits across her bosom young,
Of a joy apart from thee,
Free be she, fancy-free;
Nor thou detain her vesture's hem,
Nor the palest rose she flung
From her summer diadem.

Though thou loved her as thyself,
As a self of purer clay;
Though her parting dims the day,
Stealing grace from all alive;
Heartily know,
When half-gods go
The gods arrive.

(Ralph Waldo Emerson)



Quinta-feira, Agosto 21, 2003


Asterix e Obelix

Me explica uma coisa: por que as pessoas que escolhem profissões não muito convencionais têm nomes também não muito convencionais? Hoje, para minha glória, finalmente arrumei uma função maneira: fazer uma matéria sobre Marte. Conversei com um astrônomo e um astrofísico - ambos gente boníssima - que atendiam pelas graças de Marcomede e Órmis. Será que as genitoras deles deram um pulo em Plutão antes do parto??


Herói da resistência

Hoje o Bom dia Brasil deu a seguinte notícia:

"Em represália ao último atentado, Israel matou um líder do Hamas conhecido como 'O Homem-Bomba'. Trata-se de um terrorista suicida que já praticou mais de 20 atentados".

Simplesmente sen-sa-cio-nal.

*Contribuição do amiGo Alexandre Werneck



Segunda-feira, Agosto 18, 2003


O Pan, por quem estava lá

Eu ia escrever algo sobre o Pan de Santo Domingo. Já tinha mais ou menos umas idéias do que estava com vontade de dizer. Ia lembrar do Pan de Mar del Plata, de que tive a oportunidade de participar. Foi incrível. Qualquer dia eu conto. Ia falar do time (de vôlei, claro) da República Dominicana, da gordinha Jackson, agora heroína de seu país, e da alegria de ver um time simples e ruinzinho batendo as cubanas cheias de si. Ia falar do Júnior, meu amigo prata no remo, que deu show e só não foi ouro por 37 centésimos - uma remada. E da Juliana Veloso, Rogério Romero, do Bernardinho dando seus pulinhos de raiva com olhos arregalados na semifinal do vôlei masculino. Dos comentaristas bons e perdidos, simpáticos e sabichões. Da falta de papel higiênico na vila olímpica. E de outros detalhes do pouco que vi nesse Pan maluco.

Mas aí eu li o jornal. E vi a matéria do Danone, enviado especial. Não é porque é meu amigo não, mas tá muuuuito boa. Eu acho que, para fazer textos como esse, tem que ter muito bom senso. E saber escrever bem, sem ser piegas. Assim, eu, que vivo achando defeito nos textos do Prosa & Verso, por exemplo, adorei essa matéria sobre a emoção, escrita por um cara que teve o privilégio de ver, na hora, ao vivo, sentimentos estampados no rosto dos atletas, que, vitoriosos ou não, são os únicos que sabem o quanto ralaram para estar lá, os únicos que entendem o verdadeiro sentido das palavras glória, recompensa e decepção no esporte. Vale a pena ler.



Sexta-feira, Agosto 15, 2003


Eu, mulherzinha, e minha glicose audiovisual

Tá, eu admito: adoro filmes bobocas. A-DO-RO. Eu me delicio com aquelas películas edulcoradas e metidas a comédia que são dignas de, no máximo, uma Sessão da Tarde. Vi bombas como A onda dos sonhos, Como perder um homem em 10 dias, The wedding planner e Tudo para ficar com ele (esses dois últimos são péssimos). Amei Enquanto você dormia e Íntimo e pessoal - desse sei até uns diálogos, assim como de Uma linda mulher. E paremos por aqui porque a lista é extensa.

Adoro filmes-cabeça e afins, mas de tempos em tempos (o intervalo entre os "tempos" é bem curto, pra ser sincera) preciso de um chocolate audiovisual para aumentar a glicose do meu cérebro. Nada como ver um filmeco desses para relaxar: você não pensa, só sente e ri. Mas hoje eu tinha um álibi. Para fugir do dilúvio, parei no Botafogo Escada Shopping e tentei pegar um cineminha - sozinha. Só dava tempo de encarar a beócia da Gwyneth Paltrow (uma mulher que larga o Brad Pitt deve ser no mínimo uma beócia, ainda mais com esse nome inescrupuloso) ganhando milhões de dólares para brincar de aeromoça sob a batuta do Bruno Barreto. Decolei feliz.

E quando eu decolo num filme é pra valer. Viajo mesmo, choro (chorei até em Procurando Nemo e Tarzan), rio, fico com aquele sorriso congelado de palerma e suspiro como uma adolescente.
Hoje, nesse Voando alto (View from the top), suspirei muito. Eu tenho uma facilidade incrível de me identificar com o que não tem nada a ver comigo. Relaciono as situações mais absurdas com as que vivo, vivi ou acho que vou viver. Eu chego a me sentir como a lourinha-do-interior-que-vira-uma-aeromoça-CDF-e-supera-os-obstáculos-e-encontra-o-amor-da-sua-vida-e-tem-que-escolher-entre-o-amor-e-a-carreira-e-é-claro-que-termina-feliz.

Bem, entre um suspiro aqui e um sorriso babaca acolá, cheguei à conclusão de que minha Cleveland talvez seja Belo Horizonte. E que também quero muito ir a Paris, mas a minha vida sem ele é uma sala de espera. Quando os olhos estão prestes a transbordar, surge o imbecilóide do Mike Myers e me acorda com suas caretas estúpidas e sem a menor graça. (Esse Austin Powers, sem dúvida, é o que há de pior no filme, mas não chega a azedá-lo por completo).

O único perigo de tanta água-com-aspartame é que depois eu às vezes me sinto hollywoodiana demais - assim como muitos homens saem de Coração valente ou Gladiador com vontade de dar porrada, eu saio dessas comedinhas edulcoradas com vontade de ficar loura de novo, perder uns quilinhos e tascar um sutiã turbinado. Sim, porque aquele que a Gwwyxnewtsff usa no filme eu conheço: é o segredo de muitas americanas que se acham na obrigação de ter peitão só porque são americanas (elas usam enchimento até no biquíni, para quem não sabe).
Anyways, meu bobômetro subiu tanto que até mesmo ouvir alguém xingando Shoot! desencadeou uma reação emocional - gosh, era assim que eu xingava quando errava uma bola nos esteites...E ainda saí do cinema com aquele andar de passarela, quase vendo meus olhos azuis no espelho e com os joelhos inconscientemente para dentro que nem os da Sopa de Consoantes.

Mas essas abstrações são seriamente perigosas. Foi depois de ver Quem vai ficar com Mary? que eu tomei coragem de tosar a cabeleira igual à da Cameron de então. E não me arrependi.
O que indica que há boas possibilidades de segunda-feira eu aparecer loura, com aplique, ombreiras dentro do sutiã e micro-saia.



Quinta-feira, Agosto 14, 2003


Aproveitei que o Horácio explodiu e fiz uma triagem na quizumba de disquetes que adornavam a cama de meu querido computer. Achei fotos hilárias e este textículo aqui...Não lembro com certeza, mas acho que fui eu que o despejei, há uns três anos...O local descrito, pelo menos, é familiar. E dá saudade, apesar de tudo.

Redação

Cheiro de café, cigarro e chiclete. O frio do ar condicionado já conseguiu ressecar os cabelos de todas as mulheres, em sua maioria curtos – talvez pelo ar, talvez pela aparência na frente de possíveis câmeras.
Logo à entrada, já uma televisão barulhenta, ligada 24 horas na GloboNews. À esquerda estão os computadores, enfileirados como vítimas no corredor da morte: já sem vida antes de perdê-la (jornalistas juram que suas máquinas vivem, estão de mau-humor, são temperamentais e até sofrem de TPM), todos na mesma cor, mudos, esgotados.
Algumas pessoas berram enquanto outras teclam desesperadamente, acreditando que do produto final dependem seus empregos e, por conseguinte, suas vidas. A bacana da ponta deve ser chefe: a cada hora chama um coitado para prestar satisfações. Às vezes, uma gargalhada descontrai o ambiente, alguém faz uma brincadeira, mas é sabido que por dentro os estômagos não se riem. Talvez aqueles que têm certeza da boa matéria que têm em mãos, da boa pauta que lhes coube para o dia seguinte ou do novo emprego que lhes espera sorriam com certa sinceridade, bem provável que por alívio. Parece haver dois telefones para cada pessoa, e todos tocam ou são usados simultaneamente – raramente com discrição e tom de voz moderado.
É impossível não decorar a vinheta da rádio CBN, os nomes dos repórteres e locutores. No canto direito da grande sala, ao lado de uma poltrona vermelha, outra televisão varia entre Globo, RedeTV!, SBT, Record e até CNN. Ninguém nunca deve ter se apercebido daquela solitária caixa de imagens coloridas, a figura mais inerte da sala onde até o chão parece mover-se. Por cima das mesas, papéis sem rumo, agendas – quase periodicamente alguém urra “Cadê minha ageeenda?” – jornais e revistas de todos os tipos, formatos e origens. O local mais democrático é a superfície da grande mesa de cor crua que divide a redação, tendo do lado direito contato direto com redatores e dois editores, e do esquerdo interagindo – objetos de jornalistas são um prato cheio para as prosopopéias – com repórteres e estagiários subaproveitados e superexplorados. Em cima dela, Caras se misturam a Bundas, Caros Amigos a Chiques e Famosos e Folha de São Paulo a O Povo. As pessoas não falam umas com as outras do que não seja trabalho, problemas, reclamações. Cenário dantesco, surreal, uma verdadeira Guernica. Mas ninguém sai porque, do lado de fora, a fila para entrar, se existisse, seria capaz de dobrar a esquina.



Terça-feira, Agosto 12, 2003


O cocô das antropólogas

Estava prestes a começar uma aula de duas horas e 40 de duração. Por motivos óbvios, resolvi antes enfrentar o Terrível Toalete da Uerj. Como de praxe, havia papel em todos os lugares, menos nos rolos. As tampas quebradas e imundas condiziam com as paredes rabiscadas.

Desci para tentar o do 8º andar - quem sabe as economistas não são mais limpinhas do que as historiadoras e filósofas? Por sorte, dei de cara com a moça que havia acabado de limpar o banheiro. Ela me encarou, eu sorri e ela desviou o olhar para o nada. Entrei. Um papel colado à parede com um pedaço de durex trazia o recado em pilot roxo fresquinho:

"MENINAS,
Por favor, colaborem comigo na limpeza do banheiro. Por favor, não joguem papel no chão.
Muito obrigada!
Que Deus as abençôe
!"

O banheiro estava habitável e o papel higiênico nos devidos lugares, mas eu e a autora do bilhete tínhamos a certeza de que, em algumas horas, tudo voltaria ao que era antes: o caos da imundície resultante de pura falta de educação.

Reparar nessas coisas é mais um traço de chatice da minha personalidade. Quando era pequena, eu tinha vontade de conversar com aquelas senhoras do banheiro do Rio Sul, mas na maioria das vezes não o fazia por pura vergonha. Timidez também, mas uma certa vergonha de estar lá, empetecada com a mamãe, carregando uma sacolinha de presente, enquanto aquela senhora gorducha enfrentava o tédio com o esfregão.

Mais tarde, passei a reparar nas moças dos banheiros das boates. Algumas dormiam sentadas, enquanto adolescentes mimadas vomitavam, fumavam e passavam batom, sempre falando de homens ou fofocando. Sentia-me mal nesses banheiros, mas não sabia bem por quê. Achava aquilo tudo um contra-senso.

Vez por outra conversava com elas. Uma, em Curitiba, me contou que ganhava um salário mínimo e meio e tinha outro emprego à tarde. Ficou perceptivelmente feliz em conversar com alguém e disse que, no início, ajudava as meninas que passavam mal. Depois, de tanto limpar vômitos dourados, desistiu. Assumiu seu papel de invisível, sentadinha na cadeira vermelha ouvindo gargalhadas e descargas, catando papéis e pontas de cigarro no chão, enxugando a pia.

Estou cansada de ver pessoas que não prestam atenção nessas coisas. Estou cansada de ver Audis, Vectras, Fuscas e Fiats 147 deixando papéis e restos de comida voarem pela janela. Custa não jogar o embrulho da bala no chão? Custa catar os pacotes de biscoito Globo e copos de mate - e canudos, que mesmo os educadinhos deixam para trás - na praia? Custa, pelamordedeus, puxar a descarga e jogar o papel no lixo em qualquer banheiro como se fosse o de casa??

Acontece que muita gente não se toca ou não liga para o fato de que sempre existe um pobre corno para limpar a porcalhada alheia. É como a madame que, sabendo que amanhã tem faxina, não se interessa em jogar o papelzinho no lixo ou catar as unhas e cutículas que caíram no chão. É trabalho da empregada, claro.

Então, sempre que vejo um banheiro público, imagino que algum ser humano ganha um salário miserável para mantê-lo freqüentável para que os vândalos voltem a emporcalhá-lo. Cuido como se fosse o da minha casa. Limpar banheiros é algo que nós, burguesinhos metidos a besta, não valorizamos como um trabalho digno. Talvez por isso mesmo tenhamos em nosso inconsciente um mecanismo de desprezo pelos mais singelos atos de um cidadão educado, como jogar papel no lixo, catar os guardanapos que caíram no chão, mirar com capricho no vaso sanitário e puxar a bendita descarga. As meninas sociólogas e antropólogas da Uerj, por exemplo, que defecam sabedoria e jogam o papel imundo de suas letradas fezes no chão, deveriam ter umas aulinhas com a dona que lhes deixou o educado bilhete na parede.


A coceira acabou no dia seguinte. O cara é muito gente boa. Desvendei algumas das imagens oníricas - que na verdade são étnicas - e já aprendi a usar o teclado. Descobri que os olhos são azuis e têm muitas histórias para contar.



Quarta-feira, Agosto 06, 2003


T.M.
Desespero. Aquela sensação de coceira que não pode ser coçada.
Tenho ao meu lado um ser que cuspiu um seco "Olá", assim, sem ponto de exclamação. Está tão próximo que sinto sua respiração. Suas imagens oníricas quase roçam no meu braço e encostam em minha aura cor-de-rosa. Sua impecável careca reluz e ofusca meus pensamentos mais recônditos. A cada "uhuumm" ou "aham" ou ainda "ha" que ele balbucia, eu me encolho mais na cadeira. Tenho certeza de que sua visão periférica é privilegiada e ele lê cada vírgula do meu outlook. Eu brigo com o teclado desconjuntado, onde apertar ç gera um desdenhoso ~. Tirando o tratado psicodélico no braço direito e os olhos que quase não existem, ele parece são demais. Saudade das pessoas insanas e tagarelas do último mês. Esse novo círculo é burocrático e repleto de planícies calvas. Volto, feliz, ao bunker 221.



Terça-feira, Agosto 05, 2003


30%

Não consigo: sempre acabo fazendo esses testes imbecis. Confesso que já fiz muitos testes da Capricho na adolescência, apesar de empinar o nariz, dizer que odiava a revista e me orgulhar por nunca ter gasto nenhum cruzeiro nisso. Bem, hoje fiz o tal gayometer.
Resultado:
Perla is 30% gay! You are a straight-laced girlie girl with just a hint of your butch side sometimes popping out!
Em suma, sou uma mulherzinha muito macho quando necessário.



Sexta-feira, Agosto 01, 2003


Quando eu escrevo...

Queria muito estar em Parati esse fim de semana. Ou pelo menos em casa, vendo a abertura do Pan e relembrando a "minha época" com as fotos de Mar Del Plata. Em vez disso, estarei em Uberlândia City, voleibolando com minhas amigas urubus. Mas faz parte: tudo vale a pena e minha alma tem um metro e oitenta - sem contar o salto alto.
A festa em Parati deve estar uma graça, e hoje tem Eric Hobsbawn, além de outros, como os três jovens mosqueteiros autores de "Parati para mim" (aliás, se já não tivesse um coração tomado, escolheria me apaixonar pelo JP Cuenca). Estão lá esses autores todos que o Arnaldo Bloch abordou com a proposta de escrever "sobre o rito sagrado de sentar-se diante do papel ou monitor e encher o vazio com arte e relevância". O resultado, publicado na primeira página do Segundo Caderno de hoje, é bem interessante. E me levou a fantasiar, no Maravilhoso Mundo Auto-referente de Renata, como seria se a mim fosse feito tal convite.

Já começaria discordando. Sentar diante do papel ou monitor não é, para mim, nenhum "rito sagrado". Faço isso falando ao telefone, com as pernas esticadas na cama, toda torta, comendo pão com queijo cottage, devorando uma torre de cream-crackers ou o que tiver em casa. Algumas vezes escrevo ininterruptamente; outras, vou parando no meio e tomando atitudes inúteis nas horas mais formidáveis do texto: checo blogs, leio The Onion, escrevo e-mails que jamais envio, leio o poema español del día, pesquiso sobre o cara que deu nome a uma rua por que passei ontem, baixo músicas no Kazaa. Aí volto depois, ou amanhã, e paro de novo para tomar banho, fazer carinho na minha cã, arrumar a gaveta de meias. Jamais sacralizei o ato de escrever.

Pelo contrário: é algo tão bom que tende a ser natural, parte do dia-a-dia, como limpar o armário ou organizar a caixinha do Chaplin onde guardo meus brincos. Tão importante quanto qualquer ato rotineiro, só que mais gostoso. E gratificante, extenuante, ou mesmo frustrante.
Neste ponto concordo com o que escreveu o Zuenir Ventura, o coroa mais fofo por todos os séculos dos séculos: adoro ter escrito. Só que ele diz não gostar de escrever - duvido -, e eu amo. Sobre qualquer coisa. Minhas toscas poesias, desabafos estilo "meu querido diário", trabalhos para a faculdade, e-mails, textos pretensiosos ou relaxados, comentários, teorias sem nexo...ou, como define com perfeição a Bruna Paixão, pequenas observações sobre coisas sem importância.

Só sei que comigo funciona assim: bate um furor inexplicável, uma vontade louca de sentar e escrever sobre alguma coisa. Organizo as idéias na cabeça - muito melhor do que organizo meu quartinho azulamarelo, que de tempos em tempos transforma-se numa perfumada mitocôndria-pocilga -, depois praticamente enumero os pontos principais para não esquecer. Imagino que amanhã lembrarei que pensei sete coisas e conseguirei escrever as sete da forma que me pareceu genial na noite anterior. É claro que isso raramente acontece. Por isso é tão imprescindível um caderninho - azul ou não - para esses momentos de brainstorm involuntário.

Nessas horas, às vezes tenho a certeza de que preciso escrever uma poesia ou algo parecido. Adorei o que disse ao Bloch o Ferreira Gullar: “escrever poesia é fracassar gloriosamente”. Exato. É uma sensação de triunfo com melancolia, junto à certeza de que, aos outros, o que escrevi lhes parecerá uma droga. Mas isso não importa: dei à luz o que se fez em mim, feio ou bonito aos olhos da estética. Eu me diverti ou libertei, mesmo que a tradução disso em palavras tenha sido besta.

E há também a dimensão fantástica em que entro quando sossego em minha mitocôndria e resolvo dar início ao ritual pagão. "Quando eu escrevo...acesso a vida real. Sim, porque você não vai querer me convencer que essa pilha de contas, esse engarrafamento e a reunião do condomínio sejam a vida real, vai??" Essa é do Eduardo Bueno, escritor e historiador. Eu prefiro acreditar que essa dimensão fantástica é que é a vida real, a que vale no final das contas: posso ser tudo quando escrevo, posso inventar o que quiser, posso pesquisar e procurar entender um assunto que não domino, posso reinventar o que já sei. E posso, depois de ter escrito, mudar completamente de idéia. Se a gente não pode mudar a vida, pode reescrevê-la - a nossa e a dos outros - quantas vezes quiser, até que o resultado final nos agrade.
Já disse aqui neste blog que "viver é bem melhor que escrever", e mantenho a opinião. Mas, no meu caso, viver escrevendo está dentro do que imagino como a melhor vida possível. Quando escrevo posso hipnotizar a mim mesma, me enlevar com o medíocre, ser o que nunca fui e ter a certeza de que estou exatamente onde deveria estar: brincando de ser um deus irresponsável ao criar o mundo que me dá na telha.

Quando eu escrevo travo uma guerra solitária, mas plena e excitante, que pode me levar às lágrimas, à saudade, à melancolia, mas também à esperança, a um universo novo qualquer, a um lugar que eu gostaria que existisse. Ou pelo menos ao dicionário, onde aprenderei mais um ou dois instrumentos para me expressar. Seja qual for o resultado: um texto elogiado, publicado, alentador, ou uma porcaria que vá impiedosamente morrer no lixo - escrever é sangüíneo, profilático. Escrever é a única guerra que vale a pena.


Alguém viu a entrevista do Edney Silvestre com o palhaço Carequinha no RJTV? Esplêndida. Confesso que quase chorei. O Carequinha, que faz hoje 83 anos, foi um dos meus 'ídolos', ao lado do Bozo, do Gato Félix e do Pica-pau. Chamem-me de piegas, mas ele contou coisas como seu primeiro encontro com a mulher, sua participação na fundação da TV Tupi, o que faz um palhaço rir e como quer morrer no picadeiro...
Chorar com o RJTV é muito sério? Tem algo errado comigo?



Quinta-feira, Julho 31, 2003


Hoje, mais do que nunca, agride-me a certeza desalentadora de que a "verdade" é um sofisma.



Terça-feira, Julho 29, 2003


2h34. Não, já 2h35. Tudo o que queria agora: uma garrafa de Valpolicella tinto. Praia com lua. Pessoas engraçadas e profundérrimas. Gargalhadas. Uma revistinha do Zé Carioca com quadrinhos sobre o Vila Xurupita Futebol Clube. Ler na Internet que inventaram um auto-lipoaspirador acima de qualquer suspeita. Um bilhete premiado pra eu jogar no mar, bêbada de felicidade. Um incenso de mel. Encontrar na areia o Heart of the Ocean do 'Titanic'. Ficar horas olhando o balé de uma maria-farinha em Ipanema. Acordar com cabelão. Descobrir que minha bunda jamais cairá. Deglutir um dicionário. Cantar Fascinação como a Elis. Cavalgar no corcel negro do Leme ao Pontal, e me deparar com o Tim Maia afagando a Lassie. Nadar em meio a golfinhos numa piscina de ovomaltine mal-batido. Lembrar que acabei de escrever meu terceiro livro ontem. E que amanhã é feriado. Ganhar calcinha e sutiã novos, de renda. Viver de renda. Ir mergulhar e dar de cara com a Madre Teresa de Calcutá caminhando sobre as águas.
2h49. Acaba o transe. Vou rezar um Pai Nosso e dormir agarrada ao Brad.


Sobre o significado ôntico de uma pérola do vernáculo

Desculpem os maus modos: f***-se. Ahhhlívio.
Até 127 dias atrás - antes de encontrar no cosmos certas criaturas que usam a palavra f***-se como filosofia de vida - esse vocábulo cheio de sentimento e plenitude não fazia parte de minha vida fônica. Ainda não o verbalizo, menina educada que sou, mas não me furto a exclamar "dane-se", "exploda-se", o colonizado "wathever" e afins, sempre tendo em mente este termo algorítmico que é capaz de encerrar o admirável mundo e suas mazelas, o egoísmo humano e as sinecuras da vida, a caspa e o shampoo, a Xuxa e a Mara Maravilha.

Tal expressão é um sedativo quase poético. A taxa de juros vai cair 2%? O Rio vai sediar as Olimpíadas de 2012? A Volks vai remanejar quatro mil funcionários? A reforma da Previdência será quase inócua? A Tributária está virando pastelão? O Manoel Carlos vai matar a Fernanda? O Lula não usa casaca? Pagodeiros e roqueiros se trucidam no aeroporto? A todos o meu grande F***-SE. Em letras CAPITAIS.

F***-se é termo tão dinâmico que vira adjetivo. "Dias f***-se" são aqueles em que a gente tem certeza de que nada que faz, fez ou fará vai mudar coisa alguma. São dias unilaterais em que conspurcamos o desimportante do mundo - que, normalmente, coincide com o mundo todo. Nesses dias dou uma zapeada, paro no William Bonner e tudo o que ele diz não tem relevância alguma. Aí eu desligo com prazer, aquele fade lento que começa no chumaço de cabelos brancos dele, deforma-o por centésimos de segundo e puf!, lá se vai o súbito culpado pela TPM do universo.

Em dias assim eu quero comer algo doce, mas nem chocolate suíço me apetece. Descubro que é fome de salgado, mas qualquer prato me enjoa. Passo o dia com vontade de ler aquele livro, mas, quando chega a hora livre, desisto após meia página. Então fica a sensação de gula velha e ressequida, de fome de estômago e espírito. O jornal é estúpido, o trabalho inócuo, os amigos longínquos ou automatizados.

Mas nada disso me deprime: pelo contrário, a sensação de desprendimento que momentos de puro e legítimo f***-se nos permitem é reconfortante. F***-se é, no fundo, uma palavra doce, apesar de imperativa, egoísta, reflexiva no alheio. Ao contrário de f**a, vocábulo amargo, desesperançoso, que eu, moça de primorosa educação e delicadeza, costumo substituir por "fogo". Incrível a diferença que um pronome oblíquo faz nessa vida.

F***-se, eu diria, desafia o Português. Diz mais do que alguém pode pretender ao pronunciá-la, é quase um pleonasmo, é a experiência enclítica última - e ainda carrega a suntuosidade de uma proparoxítona. Toda essa reflexão levou-me a buscar na filosofia uma definição digna para tal mistério morfossintático e semântico: assim como a útil expressão "pra cara**o" tende ao infinito - como alguém já disse -, descobri que f***-se é um termo ôntico. A saber: designa "uma atitude tal em relação ao ente que o deixe ser em si mesmo, no que é como é." Esse Heidegger devia encher a boca ao mandar seu ôntico f***-se.
Mas, muito além de qualquer análise gramatical ou filosófica, a maior virtude do termo em questão é possibilitar-nos uma aferição quase pueril: a felicidade não é plenitude, mas vácuo.
E, se não for, F***-SE. Em letras garrafais com neon piscante.



Quinta-feira, Julho 24, 2003


FRASES

"São Paulo é a mocréia-mor do Brasil"
- Arnaldo Jabor

"Nos anos 80 eu só levava choques. Não tinha o hábito de ser tocado. A relação física com as pessoas era extremamente difícil para mim: um abraço, um beijo. Mas agora ninguém me dá"
- Fernando Henrique Dengoso, ex-presidente que não pega nem a Dona Ruth

"Você destruiu a vida do meu pai!"
- Jovem anônimo que esfregou um prato de macarrão na cara de Fernando Collor em um hotel chique em Araxá, MG

"Linchamento, tiro na cara. Foi uma violência de rico contra pobre. Se eu tivesse uma arma dava um tiro na cara do sujeito"
- Gerald Thomas, diretor de teatro e discípulo de Ghandi, sobre como proceder com os rapazes que faziam um pega que acabou na morte de um inocente, em Ipanema



Terça-feira, Julho 22, 2003


WWWHOOOOOOHHHUUUAAAAAAA!!!
Horácio voltou! Em configurações estranhas, com programas esquisitos, sem messenger e sem NENHUM arquivo meu. Fotos, textos meus e de outrem, trabalhos de faculdade, matérias do Último Segundo, da Veredas, curiosidades, currículo, endereços: tudinho pro espaço matrixiano reservado aos humanos estúpidos que não fazem backup. Perdi inclusive alguns apócrifos, aqueles impublicáveis no blógui e que eu só liberaria pra matérias da Superinteressante do tipo "Virgem Maria usava biquíni". Mas tá tranqüilo, o que importa é que o Horácio explodiu, viu a luz branca no fim do túnel e voltou para contar a história. Apenas R$ 316 depois.



Quinta-feira, Julho 17, 2003


E o Horácio explode novamente. Desta vez é para valer.
Peço a todos que não me enviem e-mails durante uma semana. Se a mensagem for muuuuuito importante, usem o renataferrer@ig.com.br.
Para os 3 ou 8 amigos leitores deste blógui, se não tiverem absolutamente nada para fazer, que tal ler os posts jurássicos no arquivo? Ou que tal me doar R$ 310,00 para um novo HD???



Quarta-feira, Julho 16, 2003


E agora, Nostradamus?

Vivemos um momento estupidamente niilista. Até bem pouco atrás, o planeta estava apreensivo com o novo século, o novo milênio, o fim do mundo. O clima era de estudos apocalípticos, de fin de siècle e espera pela hecatombe iminente.
Passou.
Por o que esperamos agora? O que inventaremos de mais arrebatador que o apocalipse? Vivemos num angustiante Tempo Comum onde a própria vida é uma escatologia - nos dois sentidos da palavra. O tempo e a história consomem-se com princípio e fim, mas sem meio que tenha propósito. É o fudevu da ausência do caos.
Na virada para o milênio passado – que, assim como agora, contou-se um ano antes -, dizia-se que o mundo acabaria tragicamente no ano I do milênio II. Não acabou. Então algum gênio calculou que algo tão ruim quanto o fim do mundo não aconteceria no aniversário de mil anos do nascimento de Jesus Cristo. Deus não era tão macabro assim. O mundo - deduziu o gênio - acabaria no aniversário de morte do messias, claro. E por mais 33 anos o Homo Sapiens esperou a hecatombe. Chegou 1.033, foi-se 1.033, e o sol continuou se pondo.
Resta-nos esperar até 2.033.



Terça-feira, Julho 15, 2003


Profecia

“Videogames não influenciam crianças. Quer dizer, se o Pac-man tivesse influenciando a nossa geração, estaríamos todos correndo em salas escuras, mastigando pílulas mágicas e escutando músicas eletrônicas repetitivas."
Kristian Wilson, Nintendo Inc, 1989.

Poucos anos depois surgiriam a festa rave, a música techno e o ecstasy...



* colaboração de Pedro Daudt



Segunda-feira, Julho 14, 2003


Quanto mais a gente tenta facilitar a vida, mais a complica. Eu reclamava tanto do iG que resolvi colocar Velox. Agora não tenho nem um nem outro. Nada funciona. Enquanto isso, encho meu caderno azul (na verdade são dois), com a ajuda de uma simples caneta. E o blog cumpre recesso.
***
Aliás, existe uma conspiração dos Cadernos Azuis? Todas as pessoas que gostam de escrever e fazem anotações têm sempre um caderno dessa cor??? O rapaz citado no último post (o Joaquim do borogodó, ou vice-versa) escreveu hoje uma crônica partindo de seu caderno azul. E não é o primeiro que eu conheço...Sei lá, acho que vou passar a usar mais o meu das superpoderosas ou então vou comprar um daqueles com personalidades na capa. Quem sabe um com a Wanessa Camargo não me trará mais inspiração, enquanto não resolvo os meus problemas técnicos?



Terça-feira, Julho 08, 2003


O borogodó do Joaquim

Confesso que não sentirei falta da coluna diária da Hildegard no Globo. Sempre ignorei os escritos daquela senhora, e acho que o mesmo não acontecerá com o novo colunista, Joaquim Ferreira dos Santos. Ele é - como lembrou um amiguinho do Clube do Mickey da Rua Irineu Marinho - ligeiramente metido a malandro carioca, mas tem tiradas ótimas. Suas frases, que vão do genial ao boçal, sempre me fazem abrir um sorriso.

Depois de saber do farewell da Sra. Angel, li a coluna semanal do Sr. dos Santos. E, durante o solilóquio sobre a localização do borogodó das mulheres do século XXI, aprendi que o mundo começa no umbigo da Gisele Bündchen, o "ó do borogodó redivivo, a vingança cheinha".

Em meio a incansáveis elogios à imperatriz da nova história do formato feminino, Joaquim disse ter escrito certa vez que "a estagiária de jornalismo com seu umbigo de fora era a versão 2000 da estagiária de calcanhar sujo de que falava Nelson Rodrigues". Olhei para meu calcanhar: limpo. Ufa. Olhei para meu umbigo: coberto. Quer dizer, mais ou menos. Era só me espreguiçar e....Mas peraí, Joaquim: meu pobre umbigo não é como o da Gisele, redemoinho guardião da modernidade sensual. Nem é sublinhado por um "piercing fofo", como você chamou aqueles das duas últimas gerações Brunet. Não deve estar no meu umbigo o tal borogodó de que tanto fala.

Percebi, então, que o nobre Joaquim havia-me lançado a seguinte questão: onde está o meu borogodó?
Passei alguns minutos com dedicação exclusiva e exaustiva a uma sincera egotrip. Talvez um dia eu entre num consultório e diga: "Injete-me silicone até me confundirem com a Dolly Parton". Mas acho pouco provável. Vou me virando assim mesmo, com meu cleavage ergonomicamente correto. Sei também que não sou o sonho de consumo de nenhum podófilo: calço 39/40 - não necessariamente nessa ordem. E, tenho certeza, nenhum louco me pagaria R$ 90 mil para desfilar com o biquíni da sua grife. Passo essa para a Gisele. Apesar dos pesares e dos constantes surtos de auto-comiseração, no geral estou feliz com minha plástica e não faço idéia de qual seria meu trunfo - ou meu borogodó, como preferir o nosso colunista.

Mas quando você pergunta, Joaquim, se ainda nascem mulheres de "coxas roliças e ancas fartas", parece que não anda pelas ruas e não nota a alma encantadora e expansiva das mulheres comuns, de pouco potencial de vídeo e passarela. Eu, por exemplo, estagiária de calcanhares limpos e umbigo recatado, nunca experimentei uma calça dessas de cintura baixa da Cavalera de que você fala. Acho que nem me caberiam.

Porém, como o senhor mesmo lembrou, o borogodó de uma não precisa estar exatamente no mesmo lugar do da outra. O umbiguinho da Gisele é modelo único, você diz. Concordo: chega a ser uma vergonha lingüística igualá-lo a todos os outros descendentes do latim umbilicu. É um furinho no ventre só pra caras assim do calibre do João Paulo Diniz, do Santoro ou daquele sabugo mofado do Leonardo DiCarpio. É modelo único como uma Ferrari feita sob medida ou um vestido da Daslu. Desenhado por algum deus bêbado de néctar e ambrosia, enquanto o deus das mulheres comuns devia estar a pão e água.

Só que você fala tanto do borogodó da Gisele, da Luana, da Cicarelli e da Cynthia, mas chega no final e manda que nós, mortais, não entremos nessa "tortura invejosa de academias de ginástica e dietas para ter o mesmo modismo que vai na barriga das outras". Você nos manda inventar, hoje, o nosso próprio borogodó, e apostar nele todas as nossas fichas.
Observando seu simpático 3X4, me pergunto: qual seria o seu borogodó?

Sei não, mas amanhã às nove estou na tortura. E esperarei ansiosamente pelas filosóficas questões que me proporá sua próxima coluna.



Segunda-feira, Julho 07, 2003


O joelho incha. As mãos não funcionam tão bem. O bloqueio é simples adereço. O saque é de graça. O ataque, tosco. As pernas dóem, tudo cansa, o toque nem sempre encaixa, o jogo é lento. O shortinho é ridículo e sou chamada de "tia". Mas jogar vôlei ainda é uma dimensão à parte...E vencer é sempre uma delícia.
Obrigada, Brê, por me colocar nessa roubada!



Segunda-feira, Junho 30, 2003


O que me assusta

Vivo aqui na minha mitocôndria azul e amarela, com meus poucos ribossomos e nenhuma idéia de como tornará à terra meu DNA. Mas isso pouco me importa: assim como todos, vivo como se fosse imortal. Alguém ainda se agonia mais com a morte do que com a vida? O que, enfim, te assusta?

Afora os medinhos de mulherzinha, me assustam perder a saúde e não encontrar emprego. Sofrer um acidente, perder uma perna, ficar cega, ter o rosto queimado, essas tragédias de que não estamos livres. Me assusta ficar tetraplégica. Me assusta preferir morrer a virar um vegetal pensante. Me assusta, também, que algo assim suceda a qualquer pessoa que eu amo.

A fila de candidatos a reserva de gari me assusta horrores. Tenho medo de me formar, preencher “jornalista” em formulários, mas não conseguir um emprego legal. Me assusta querer ter filhos, mas não tê-los por medo de não poder sustentá-los.
Tudo isso me assusta mais do que a violência no Rio de Janeiro.

Não tenho medo de ficar velha, nem de definhar sozinha ou de não ter amigos. Por incrível que pareça, não tenho mais aquele medo irracional de perder as pessoas que amo. Já sofri perdas, já chorei – e ainda choro - de aperto, de saudade, de inconformismo. Mas isso tudo é previsível e não depende de nós. Já a busca terrível e constante por algo que te ocupe pelo menos oito horas diárias, que não te deixe miserável e dê para sustentar uma casinha – isso sim me assusta. Menos do que a perda de saúde, mas, ainda assim, me assombra.

Mas tudo o que me assusta só o faz porque sou egocêntrica e vivo na ilusão da razão. Adoro viver e tenho medo da dor, mas não da morte, que pode até ser reconfortante – não a morte em si, mas o pensar nela. A morte é o único acontecimento de que não podemos fugir, a única certeza na vida. Porque, no final das contas, não há nada de novo debaixo do sol: é tudo vaidade e vento que passa.



Sábado, Junho 28, 2003


Não dá para minha mãe não ir à roça. (teste de acentos)



Sábado, Junho 21, 2003


Matrix Recarregada

E então eu resolvi assistir Matrix Reloaded. Sozinha. Esperava uma bomba atômica, mas até que me surpreendi.

Não sou do tipo que gosta da sensação de segurar um joystick enquanto vê um filme, e não agüentava mais o Keanu Reeves dando porrada num bando de clones. Mas pelo menos essas cenas cumpriram um propósito admirável: manter o rapaz de boca fechada. Ele é excelente fazendo tipo caladão-estiloso. E quase sempre péssimo quando obrigado a abrir demais a boca. Quem viu filmes como Doce Novembro há de concordar.

Neo é um misto de Super-homem fashion com Bruce Lee e Jaspion fantasiado de messias. Ainda bem que existem Laurence Fishburne e a Mulher-gato versão atitude Carrie-Anne Moss (até o nome dela é cool). Além de, é claro, outras ajudinhas como aqueles gêmeos whitedreadevil e a maravilhosa Persephone (Monica Belluci). Ela inveja a Trinity e todas as mulheres do mundo a invejam. Se eu fosse poderosa como ela nunca iria atrás daquele cara-de-placebo do Neo/Keanu.

No início ainda duvidei se meus R$ 6 e a criança chutando a minha cadeira valeriam a pena, mas ainda bem que o filme melhora gradativamente, e lá pro final quase dá para esquecer aquele baile funk meio Indiana Jones cheio de sósias do Carlinhos Brown se sacudindo e gatas molhadas neopaleolíticas balançando os peitos. O horror, o horror.

O segundo Matrix, bem menos magnífico que o primeiro, possibilita algumas analogias sobre controle e escolhas – um prato cheio para aprazíveis reflexões e delírios. A metáfora do homem controlado pela máquina e “vivendo” pela programação digital não se esgota aí – é possível para traçar outras relações. Por exemplo: somos controlados por nossos desejos conduzidos pela publicidade. Guiados por um controle difuso, mas existente, compramos as coisas pelo significado que atribuímos a elas, e não pelas coisas-em-si. Não sabemos de onde vem o valor, nem o que é, nem ao certo para que serve, senão para dar sentido à ordem compulsiva de comprar, produzir para comprar, viver para comprar o que nos dê sensações específicas. Compramos percepções, e não produtos.

Já que estava viajando mais ou menos nessa linha, dei uma de nerd e fiquei até o fim dos créditos só para ver o trailer de Matrix Revolutions, que, nem todos sabem, passa uns 10, 15 minutos depois que o filme acaba. Liberei tanto minha porção nerd que saí do cinema querendo dirigir como a Carrie-Anne e me sentindo feliz com meus cabelos de Trinity do Paraguai.



Terça-feira, Junho 17, 2003


A Míriam Leitão é um dos meus oráculos. Acredito em quase tudo o que essa mulher diz.



Segunda-feira, Junho 16, 2003


Sinto-me culpada por não ganhar dinheiro.
(Como diz meu primo: dinheiro? o que é isso? é de comer????)
Mas, se ganhasse muito, também me sentiria culpada.
Então eu queria ganhar só um pouquinho.
Que pagasse minhas contas d'eu comigo, academia, curso de espanhol, cineminha e uns livros. Queria um emprego (leia-se "emprego", não "estágio") legal, que não me enchesse muito o saco e tivesse pessoas senão interessantes, ao menos imperceptíveis.
Mas que eu chegasse em casa, desse um beijo em meu marido, a Tiffany pulasse no meu colo, e eu recostasse tranqüila na cama, depois do banho, para ler um bom livro.
E que, depois do espanhol, eu pudesse estudar francês.
E que no fim de semana desse para ir à praia ou visitar algum amigo em outra cidade, ou dar um pulo em Mauá, Lumiar, Teresópolis, Búzios.
Uma vez por ano, Fernando de Noronha.
Ou Amazônia. Pantanal. Lençóis Maranhenses. Fortaleza. Floripa. San Diego. Barcelona. Dublin. Escócia. Marrocos. Grécia. Egito. Tailândia.
Eu sempre começo querendo pouco, mas vou à falência antes do fim do sonho.



Quinta-feira, Junho 12, 2003


Mea culpa in diem

Eu poderia ter um mínimo de decência para salvar uma vida ou escrever um romance.
Dar alguma relevância à existência em vez de ficar me lamentando por minha personalidade e meus problemas. Podia ter um pouco de coragem para preencher lacunas externas. Equilíbrio demais é perigoso. Remoer a própria vida mata. Sem glória.

Eu deveria infringir alguma lei inútil, mudar um ponto de vista, influir na consciência coletiva. Reinventar arquétipos, refundar a contracultura, rebater resquícios positivistas. Eu deveria confluir mundos, e não contribuir para as segregações; explicar o que entendo, e não complicar o pouco que sei.

Poderia distribuir conhecimento em pílulas, dar as mãos a todos os garçons e protestar contra a calabresa, tomar um chope com os flanelinhas e exigir a abolição das notas de um real, pregar com os jovens malabaristas cartazes nos sinais contra o preço das bolinhas de tênis. Eu deveria ter menos prazer em escrever e mais em fazer aquilo em que acredito. Não gastaria meu tempo rabiscando num caderno azul ou digitando bobagens num site egocêntrico, e sim teria o mínimo de compostura para abstrair desejos auto-afirmativos e canalizar minha já escassa energia para qualquer evento que me excluísse. Deveria ser diferente não porque a diferença é um trunfo na sociedade de corpos pasteurizados, mas porque o agir de forma atípica e anônima me levaria a fazer qualquer coisa de interessante por princípio, e não pelo efeito de satisfação e reconhecimento pessoal.
Não deveria deixar minha alma liquefazer-se tão rapidamente.

Eu deveria fazer com que as pessoas entendessem que esquimós passam urina nos cabelos e comem carnes putrefatas, homens russos cumprimentam-se com beijos na boca, o hambúrguer é tão inocente quanto o Islã e não há vergonha alguma em morar na Pavuna. Eu deveria ser a primeira a levar farofa para a praia e espalhá-la de um helicóptero em cima do Posto 9. Eu deveria saber discursar a favor do metrô em Ipanema e dos pagodeiros de Copacabana. Eu deveria defender o funk.

Eu deveria querer desconstruir o mundo e remontá-lo como numa brincadeira de Lego, encaixotar as peças quebradas e enviá-las para uma recauchutagem em Urano. Eu devia saber explicar convincentemente porque não faz sentido comprar um carro de 400 mil reais, uma jóia de 10 mil, nem tampouco uma coleira de 250 para o cachorrinho.

O que fiz hoje? Mais do mesmo: lancei discursos bestas contra os ricos financiadores do tráfico e distribuí pães-de-mel a crianças no trânsito.

Mas eu poderia sentar debaixo de uma figueira e arregimentar um séquito de voluntários em busca da iluminação total.
Eu deveria compor um rock inesquecível.
Eu deveria, pelo menos, salvar uma vida, antes que a minha própria se esvaia. Mas acho que não chegarei nem a escrever um romance.


O HORÁCIO EXPLODIU.
Sinto-me órfã sem meu computador. É impressionante como dependemos de máquinas babacas.


teste.



Quarta-feira, Junho 11, 2003


Juro que tenho vários textos arquitetados na cabeça. Várias idéias perdidas ou encontradas, e nunca escritas. Mas, às 23h, só quero deitar e dormir. Não é crise de inspiração. É um misto de falta de tempo com preguiça, porque tenho essa mania de querer fazer direito. Não gosto de sentar e escrever qualquer coisa. Acho que vou fazer um post-diário, ou colocar uma piada, ou aquele texto-mala "Ser ou não ser de ninguém" que circula na rede. Não posso postar fotos, meus colaboradores (?) não ajudam, então vai ficar combinado assim: quando der, eu escrevo. Tenho certeza de que vocês, três pessoas que me visitam de vez em quando, não vão se importar. Têm mais o que fazer.



Sábado, Junho 07, 2003


Breve reflexão sobre o amor

O amor é mais uma doação e ato de humildade e desprendimento do que desejo desenfreado e posse. Mas não é isso o que esperam da gente, não é assim que aprendemos.
Queremos o ser amado para nós, mas - dizem - amar é deixar livre o objeto de seu amor. "O amor romântico só é um estado aflitivo porque o alicerce da paixão no Ocidente é o apego. Para o budismo, o apego só vale se afeto e compaixão estão juntos."
Muito bonita a frase do Dalai Lama. Mas e aí? Como dissociar o afeto da posse?
A lógica do desejo, penso eu, é a do querer-possuir, que se põe no caminho do amor, às vezes prejudicando-o por torná-lo egoísta, meramente um mecanismo de auto-satisfação - como tudo o mais no Ocidente, também o amor gira em torno do "eu".
Não existe o amor perfeito, puro, pleno. Devem existir os mais satisfatórios, mas simplificados, mais fáceis. Mas nenhum amor é "melhor" que o outro, sejam os protagonistas felizes para sempre ou não...
Estou lendo um livro chamado "Fragmentos de um discurso amoroso", de Roland Barthes (por isso essa reflexão melancólica sobre o amor). Recomendo fortemente. Eis um trecho muito bom - que não responde nada, mas pode dar no que pensar.

“Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma, ninguém - exceto os outros - nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica.”



Terça-feira, Junho 03, 2003


Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That´s all we know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.

W.B.Yeats


Eu e meu jubileu

Eu adiei, adiei, mas finalmente chegou a hora de tocar no assunto.
Na verdade já passou da hora: tenho 25 anos e um dia. Na última semana, vieram à minha cabeça fragmentos de idéias, lampejos sobre o que escrever no meu aniversário. Um presente para mim mesma seria produzir uma bem-humorada, mas séria análise sobre meu presunçoso umbigo. Seria um presente grátis e prazeroso – como uma relação carnal: eu, o papel, a caneta. Frenético mènage a trois.
Mas acabei colocando obstáculos no caminho. Nenhuma idéia era boa o bastante para ser desenvolvida, trabalhos da faculdade urgiam, amigos esperavam respostas eletrônicas, Bukowski me convidava a conhecer a próxima mulher de Henry Chinaski, a cama era mais apetitosa que o caderno azul. Tudo poderia me levar a adiar o autopresente, mas nada impediria a passagem das horas até o dia 1o de junho.

Chego aos 25 sem nenhuma pompa, mas cheia de circunstâncias. Nunca imaginei fazer 25 sem a tal “independência financeira”. Quando era pequena, achava que, nessa altura, já estaria casada, com um emprego ótimo, rebolando de salto alto pela Rua das Laranjeiras. Hoje, olho no espelho e o que vejo? Espinhas.
(Tudo bem: tenho saúde; faço uma faculdade e meia, um estágio maneiro, tenho família, namorado, amigos. Mas ninguém se projeta sem essas coisas aos 25, imagino. Estar viva já é uma grande vitória, anyway.)

Quando fiz 15 anos, dei um almoço para a família e uns cinco amigos. Não quis ir à Disney: pedi uma linha telefônica com aparelho (tá, eu era meio anômala, achava idiota gastar dinheiro com bichos de pelúcia e casacos do Mickey. Além disso, há 10 anos telefone era um presentão). Mais tarde aluguei e por uns bons anos tive uma mesadinha para comprar meus troços e guardar uns trocados na poupança.
Já aos 18, nem lembro o que ganhei, acho que estava treinando em Belo Horizonte e não sei se comemorei. Quando fiz 21, dei uma festa em Curitiba que também serviu como despedida do vôlei, da cidade e de amigos. Foi inesquecível como só os momentos tristes conseguem ser.

Lembrei essas datas por que são simbólicas, aqueles ritos de passagem: debutante/já posso dirigir e mostrar a identidade na night/sou dona do meu nariz e adulta.
Mas qual é a diferença? Por que me deprimir ou alegrar aos 25, e não aos 24 ou 26? A gente tem essa mania de dezenas, múltiplos de 5, números redondos. É um quarto de século, fica aquela sensação de jubileu, de boda. Preferia ter parado no dia 31 de maio ou ter nascido num ano bissexto. Mas hoje fui a mesma abobada de ontem e sou tão madura - ou imatura - quanto aos 20. Não acordei com mais rugas, celulites ou flacidez. Segunda chegou, agora já é terça e daqui a pouco terei 26. E daí? Minha última decisão importante antes de escrever aqui foi tascar uma garrafa de Romanèe Conti na cabeça tosada. Fiquei com cara de sabichona, uma Carrie-Ann Moss bem piorada e com olhos comuns vivendo numa Matrix escangalhada onde as pessoas virtualmente envelhecem.
Ao escrever meu texto dos 50, aposto que minha última grande decisão terá sido algo tipo retocar a tatuagem, trocar a dança do ventre por hidroginástica ou comemorar no Baixo Gávea como num dia qualquer. The show must go on.



Sexta-feira, Maio 30, 2003


Viver é muito melhor que escrever.



Quinta-feira, Maio 29, 2003


"...and so i twist in the wind,
beholden to no one,
and that's just exactly
where I want to be
."



Terça-feira, Maio 27, 2003


A normalidade é a verdadeira revolução.



O homem fictício

O homem fictício
gosta de poesia.
Cala quando eu falo
e se interessa de verdade
por minhas palavras fúteis.
Quer tirar minha roupa
mas espera;
escuta;
finge que é paciente
e jamais vai embora assim,
de repente.
Sente saudades mesmo quando
não estou ausente.
(O homem fictício me quer
para todo o sempre).



Domingo, Maio 25, 2003


Drogas gratuitas no CCBB

Conselho para quem estiver com muita vontade de experimentar drogas: há uma opção bem melhor. Em vez de contribuir com o tráfico acendendo um "inocente" baseado num pedalinho da Lagoa, vale a pena dar um pulo no CCBB para conferir a exposição "Movimentos improváveis: o efeito cinema na arte contemporânea".
Dá pra viajar muito com os vôos líquidos, a caverna das ilusões, os corpos impossíveis. Meus preferidos foram, no entanto, "O quarto para dormir de pé", que, surreal e perturbador, parece saído de "O cão andaluz"; a "prova da luz", uma mistura de ondas com algo tipo "Os pássaros" do Hitchcock; e a "Time Machine", de um alemão que te obriga a se perguntar: "Será que o tempo passa? Será que as imagens permanecem? Será que o tempo fica? E as imagens transcorrem?" Muito louco. Dica: entre no círculo e veja a instalação (que é uma mistura de vídeo com foto cheia de japinhas) por dentro.
No final, quando já estiver sem saco para tanto surrealismo, entre no cofre Coke's Head Soup do Hélio Oiticica. Mesmo se não compreender nada - até entender (se é que entendi), eu achei que eram slides de alguém se barbeando e jogando água na cara, sob a perspectiva da pia (!) -, deite no colchão branco e relaxe, pule, role de um lado para o outro (é um dos melhores colchões que já vi). Nada que você não faria se estivesse sob o efeito da cannabis, bala ou qualquer idiotice dessas. E ainda por cima é de graça.



Quinta-feira, Maio 22, 2003


Missão Impossível

Sei que acabei de escrever sobre o quanto estou quebrada. Mas infelizmente a gente só acredita que é mulher quando está tudo no lugar, pelo menos dentro do possível. Do contrário, há uma conspiração para nos convencer de que somos seres acidentais, meras criaturas provenientes da costela de Adão.
Por esses dias eu disse que queria ser prega. Uma nerd bem prega, que usa calça santropeito, sapato nauru, tenta estudar Filosofia e descansa vendo Silvio Santos no domingo. Mas esse projeto me cansou só de pensar. Ia dar muito trabalho achar um nauru hoje em dia.
Pelo menos percebi que também não quero ser pop, nem ploc, nem roquenrou, nem cool, cult, paty ou qualquer outra denominação fundamentalista. Tenho um projeto mais simples (ou não): quero ser gente boa, inteligente e gata. Só.

Gente boa: eu me esforço. Às vezes é muito difícil, mas juro que tento. Ontem, por exemplo, saquei que o cara mais chatinho do universo decorou meu nome e resolveu pedir ajuda para TODOS os trabalhos, mesmo o mais desnecessário. Ele perceptivelmente tem algum problema, e acaba gerando um misto de pena e repulsa nas pessoas. É horrível sentir pena de alguém, mas não tem jeito. Ele gruda no pé e, apesar de ser inteligente, é ansioso e inseguro - daqueles que saem do primeiro dia de aula do primeiro período da faculdade já desesperados com a monografia. Pois ele me elegeu para ajudá-lo com um trabalho que eu nem sei ainda como vou fazer. Contei até 10 e tive paciência para falar com ele, na terceira semana seguida de perseguição. Mas acabei deixando o lado Madre Teresa para lá quando a segunda fumaceira de cigarro dele entrou nos meus olhos. Ninguém é perfeito.

Inteligente: acho que faço parte daquele grupo intermediário: não sou nem burrinha ou abaixo da média, nem superdotada ou superculta. Gosto de falar de tudo, mas não entendo profundamente sobre nada: sou uma típica e incipiente generalista. Em conversas com algumas poucas pessoas não consigo fazer entender o que quero dizer, porque elas não compreendem; com muitas outras, o que digo lhes parece tão elementar que é melhor eu calar a boca. Estou na coluna do meio, às vezes mais pra lá, às vezes mais pra cá, dependendo do contexto. Não consigo pensar em um só assunto que domine. Até manjo falar superficialmente sobre vários temas, mas nunca elaborei uma obra-prima ou uma teoria bombástica. Não sou nem medíocre, nem essencialmente original.

Gata: vou voltar a malhar. Dia desses olhei-me no espelho e decidi: não dá mais. Não dá mais para ter preguiça, para economizar na academia, para não ter tempo ou achar suficiente fechar a boca – até porque eu raramente fecho. Se estou magra, minhas pernas ficam finas e os braços quilométricos; se engordo, ultrapasso a Carla Perez em seus áureos tempos. Espero em médio prazo voltar a puxar 180kg em vez de setentinha com as pernocas que um dia já foram saradérrimas, pré-cirurgia. Não quero virar pudim e muito menos mousse. Também já marquei salão: pé, mão, depilação. Comprei um Casting e vou pintar minhas fenomenais madeixas. E quero uma sandália laranja nova. De plástico.



Segunda-feira, Maio 19, 2003


Bob e o ministro

Um amigão que atende pelo singelo pseudônimo de O Velho Sentado achou isso aqui, proferido pelo Bob Dylan no começo dos anos 80.

"Todas as pessoas que conheci
são meros fantasmas agora.
Alguns são ilusionistas
outros ministros da Cultura...
Não sei como isso começou,
não sei o que eles fazem de suas vidas,
mas eu continuo na estrada
indo pra outro lugar
enredado na tristeza."

Não é para polemizar: só achei maneiro.



Sábado, Maio 17, 2003


Manifesto Capitalista

O quanto eu custo por mês:

Faculdade...................R$ 380
Gasolina: ...................R$ 270 *
Estacionamento..........R$ 60 *
Previdência privada......R$ 180
Telefone.....................R$ 120 **
Celular.......................R$ 70 **
Internet......................R$ 70 **
Unhas........................R$ 30
Depilação...................R$ 80
Comida......................R$ 100 *
Artigos de higiene.......R$ 20
Passagem para BH.....R$ 75 *

Extras mensais: cinema, presentes, cabelos, noites, livros, quitutes, pílula, roupas, balinhas/esmolas no trânsito: R$ 200 *
_____
* valores estimados.
** média dos últimos sete meses, corrigida pelo IGP-M

O quanto eu valho: R$ 1.580 /mês.
Mais extras anuais: IPVA, seguro do carro, multa, mudanças esporádicas de óleo/paraflu: R$ 1.200

Salário (simbólico): R$ 570, menos descontinhos.


Conclusões:
Balança comercial desfavorável. Tenho importado muito mais do que exportado. O déficit em conta corrente cresce a cada mês. O déficit na poupança também.
Projeção de gasto extra para 2004: colete a prova de balas (em estudo, devido ao Risco-Rio ter batido nos 5 mil pontos)
Meta de Superávit Primário para 2004: 0% do PIB.
Previsão de crescimento econômico no segundo semestre, segundo o FMI (Fundo Maria Ignez [mãe]): Zero.
Solução: ganhar na Mega Sena ou alugar a minha pessoa.

Aviso aos navegantes:
Dada a situação argentinesca em que me encontro, informo que, a partir desta data, cada amigo que quiser estar comigo deverá fornecer meios para tanto: subsídios para a gasolina, comes & bebes, entrada de bares, restaurantes e boates. Cobrarei também uma taxa simbólica de R$ 2,99 por período de conversa ao vivo. Caso seja por telefone, o contratante deverá contribuir dizendo “Deixa que eu te ligo” (não vale o “Te ligo em cinco minutos” da Brenda). Caso contrário, a contratada terá direito a cobrar uma contribuição para a conta telefônica. O blog permanecerá gratuito até novembro, quando completará um ano de existência. A partir de então o leitor deverá fazer a assinatura do serviço, com preço a combinar.
Renata S.A.



Terça-feira, Maio 13, 2003


Pedras no espelho

Desejava ser vista, mas não queria ver: era uma voyeur às avessas. Era mais fácil que outros lhe apontassem seus defeitos do que se ela mesma os enxergasse. Assim, tentaria corresponder a expectativas alheias – e pensar no alheio era-lhe simples. Doloroso seria conceber a si mesma; era uma metalinguagem para a qual não estava pronta, e talvez jamais ficasse. Os outros não tinham nada de metafísico: apenas corpos e mentes, mais nada. E os corpos andavam e as mentes pensavam, mas não podiam invadi-la. Era forte com os outros, mulher demarcada, de fronteiras protegidas por soldados espartanos invisíveis. Ela era um feudo.
Dentro de seu território, a metamorfose era sempre algo dolorido. Às vezes sonhava que o Vesúvio entrara em erupção e ela era ao mesmo tempo Pompéia e Herculano. Como seria mais simples ser petrificada ad eternum....Pedras são simples, pensava, ao acordar do sonho. Pedras não sonham, não pensam, não têm câncer nem perdem pedras queridas. Pedras não fazem escolhas. Os outros são pedregulhos que jogarei ao mar, um a um, até que se esgotem, decidiu. E eu - eu que não vejo - já nem lembro o que gostava de pensar que seria. E nessa noite quebrou todos os espelhos.


Powell pai, Powell filho

Ontem o Sr. Michael Powell, filhote do Colin e presidente da FCC (Federal Communications Commission, órgão regulador das empresas de comunicação dos EUA), apresentou uma proposta de relaxamento nas regras de propriedade de meios de comunicação (media ownership). As grandes companhias poderão ter uma fatia ainda maior do mercado norte-americano e possuir mais estações de TV em qualquer mercado local. Muitas restrições de "cross-ownership" (cruzamento de propriedade - ter jornais e estações de rádio e TV num mesmo mercado local) vão ser retiradas.

E daí? Well, o assunto me interessa porque, quando morei nos EUA, fiz um paper pentelhérrimo que deu um trabalhão sobre “media ownership”, principalmente o problema de cross-ownership. Fiquei psycho. Assinei entrega eletrônica das matérias da "Broadcasting & Cable". Entreguei umas 12 páginas e fiz uma apresentação em vídeo, com meu sotaque bacana. Foi ridículo. Tive até pesadelo com esse troço.

Powell filho várias vezes mostrou sua aversão neoliberal a regras que restrinjam concentração de mídia. Ele foi contra a idéia de exigir da AOL e da Time Warner que, como condição da fusão, dessem às empresas rivais acesso aos seus sistemas de TV a cabo. Pior: tomou partido na decisão a despeito de seu pai, secretário de Estado, ser um dos diretores da AOL e ter lucrativas ações da companhia.

A última do Powellzinho simplesmente mostra a habilidade do governo americano de recompensar as companhias obedientes às suas diretrizes. Se a cobertura do conflito no Iraque já foi sofrível, imagine se essa nova proposta de laissez faire, laissez passer pegar...Então a FCC será um placebo de órgão institucional, tão esvaziado quanto o Conselho de Ética do nosso Senado.


A primeira cesárea

Poucas pessoas podem se orgulhar de terem ajudado a trazer uma nova pessoa ao mundo. Meu amigo Henrique (Lecão) é um desses privilegiados. Esse é o relato emocionado da primeira cesárea feita por ele.

Rio, 06 de janeiro de 2002

Começamos o dia em pleno vapor, pois o plantão de domingo na Enfermaria 33, do Prof. Jorge de Rezende, estava bem agitado. O pré-parto estava com as quatro camas ocupadas, como há muito não se via. Tivemos ainda o nascimento de cinco crianças durante a noite, todas partos normais, via baixa, sendo um deles feito por mim.

Fui descansar apenas às 6am, exausto, pois já havia chegado à Santa Casa da Misericórdia (no dia anterior, às 8pm) bem cansado. Acordei então apenas às 11am, o que jamais havia também feito, pois geralmente às 9h já estamos de pé passando visita nas puéperas.

A visita começou então mais tarde e logo depois foi interrompida devido a uma internação por mim realizada. Por volta de 12h30 fui chamado por Dr.Daniel, pois mais uma criança estava pra nascer. Fiz então mais um parto, que, para minha surpresa, mais tarde viria a saber que o menino seria chamado de Henrique. Mais um presente estaria para receber, quando Dr.Daniel me disse para ficar preparado, pois caso houvesse uma cesárea, eu seria o cirurgião.

Por volta das 15h foi confirmada a cesárea e a ansiedade começou a aumentar. Às 16h estávamos dentro do centro cirúrgico. Fui o primeiro a me escovar, para ganhar o maior tempo possível e assim realizar uma caprichada assepsia. Foi então que, ao colocar o capote, escutei algo que deixou muito tranqüilo naquele momento. O próprio Dr.Daniel me amarrou e ao pé do meu ouvido disse: "Não fique nervoso em momento algum, pois estarei com você o tempo todo!" Isso me deu uma tranqüilidade muito grande, me fazendo sentir capaz de enfrentar qualquer situação. Jamais esquecerei suas palavras naquele momento.

Começamos então a cirurgia, e com o bisturi na mão realizei minha primeira incisão. A ansiedade, que era grande, foi diminuindo a medida que avançávamos pelos planos da cavidade. Com o atento auxílio, Dr. Daniel ia guiando e elogiando meus movimentos. Até, finalmente, atingirmos o útero. Uma última incisão foi realizada e pouco depois já podíamos visualizar o rostinho do neném. A dificuldade foi um pouco maior nesse momento, mas o chefe mais uma vez me ajudou e pude extrair a linda Mariana. Continuamos a cirurgia e os planos foram sendo reconstituídos. Já no subcutâneo, Dr.Daniel me deu um forte aperto de mão e me parabenizou, pois estaria deixando o campo cirúrgico para atender uma outra paciente que havia chegado. Finalizamos a cirurgia e fiquei ansioso a partir de então para chegar em casa e contar tudo para meus pais, que tanto torcem pelo meu sucesso.

A emoção foi grande quando cheguei em casa, pois meus pais ficaram tão felizes quanto eu. O mais incrível foi a pergunta feita por Dr.Guilherme três dias antes: "Você já se sente capaz de realizar um cesariana?" E mal sabíamos que a primeira cirurgia estava tão perto. Foi um momento muito especial, e como diz a dedicatória feita pelo grande mestre, meu pai, no livro em que me presenteou ano passado: “Esperamos que este seja o início do aprendizado de um futuro grande cirurgião”.

Henrique Castro van der Laars



Segunda-feira, Maio 12, 2003


One fine day

Segunda-feira. Acordo às 11h com um homem ao lado. Deveria sair de casa às 11h. Pulo por cima do homem e corro para o banho. Desligo o gás antes de passar o creme no cabelo. Droga. Enxáguo com água gelada mesmo. Troco de roupa a jato. O homem dorme como um anjo aposentado. Olho no relógio de pulso: 9h55. O despertador estava louco. Não estou atrasada e não precisava ter tomado a ducha gelada.
Tudo bem. Leio o jornal, tomo café e saio - eu e ele. Deixo-o próximo ao Fluminense. Ele queria apenas parar ali, olhar o clube, e voltar andando para casa, onde minha irmã o buscaria para levá-lo ao aeroporto. Nos despedimos. Abraço. "Talvez eu consiga vir em setembro", ele me diz, com a voz embargada. Eu digo que está tudo bem e que ele deve ir ao médico - suspeita de trombose é coisa séria. Ele sai do carro e eu desabo. Choro até a entrada do túnel, ponho um roque esquisitão e tento controlar o pensamento.
Um ser humano perambula pela redação tendo nas mãos uma calcinha e um sutiã de soja. Almoço. De 11h30 às 17h - nada. Leio todos os sites. Descubro o jornal "The Onion", um Casseta & Planeta jornalístico online. Leio até o Extra. Visito o Danone. Volto, e nada. Vontade de tirar o livro da bolsa e ficar lendo, amarradona. Lembro que, a partir das 19h, tenho que contratar um clone e estar na Boate da Cidade e na Uerj ao mesmo tempo.
É horrível constatar que, se o relógio estivesse certo, não faria a menor diferença. E que podia ter levado meu coroa ao aeroporto e ter passeado com ele por Laranjeiras.
Bela segunda-feira.



Sexta-feira, Maio 09, 2003


A boa da night

Outro dia escrevi que tinha acordado como uma deusa. Até pensei em colocar isso como título do post. Mas não tem como alguém de mais de 19 anos ler “Como uma deusa” e não lembrar da Rosana, então desisti.
Devia ter colocado. Rosana está de volta em grande estilo. Logo mais ela dá o ar da graça em Gragoatá, Niterói, com um show dançante (!?!). A Deusa vai soltar a voz na boate gay Vollupya (!!) interpretando hits próprios (alguém lembra de outra música sem ser a da deusa?) e jóias da dance music como “I will survive”, “Macho men” e “It’s raining men”. Na pista, os DJs Mulder, Masterboy e Buba. Imperdível.

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Ainda bem que não vou à Brazooka na Casa da Meretriz. No fim da noite, uma hora seguida de Adriana Calcanhotto estragaria tudo. Sou mais a Rosana.

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Outra opção interessante do ponto de vista antropológico é a “Noite jovem na Prelude”. Alguém se habilita?



Quinta-feira, Maio 08, 2003


Sobre a sexualidade das plantas

Por Pedro, Pã e outras criaturas atrás das paredes

O mais macho das plantas é o cactus, a mais feminina a violeta, e mais gay do que as samambaias - que se não me engano são angiospermas (nome sugestivo não?) - conseguem ser as orquídeas, que são epífitas (epífita não é um nome muito gay? Gostaria de criar uma novela gay com vários travestis intitulada de "As epífitas": Rogéria será a epífita mor, seguida de seu séquito formado por Rudgi e madame Roberta Close). Na ordem das vadias temos a trepadeira; das descaradas a maria-sem-vergonha; das carentes o amor agarradinho; dos deprimidos o salgueiro chorão; das recalcadas invejosas a erva-daninha; dos travestis a vitória régia; das lésbicas caminhoneiras a barba-de-bode...E das santinhas do pau oco temos o copo de leite, que soa inocente mas é a flor do Jorge Tadeu.

Classificados
Samambaia discreta, a idade não revelo, mas muito nova para uma samambaia, morando sozinha num xaxim conjugado em Copacabana, procura Cactus malhadão e bruto. Curto homem que não faz a barba. Trabalho como enfeite num salão de cabeleireiros e tenho um pedaço de serra no interior de Minas onde passo as férias. Já namorei um tronco que me deixava muito desfolhada. Um dia a enchente o levou. Como sou: 32 ramos bem distribuídos, com 412 folhinhas bem verdes. Faço ginástica e o único pneu que tive foi quando me plantaram em um, assim que me cheguei de um sítio em Xerém. Quero cactus fiel, nada de boates, feiras de exposições ou quiosque na praça.

Se você fosse uma planta, qual seria? (desculpem, mas esse post pedia uma pergunta cretina. Não se apoquentem em responder)


O anjo da História

Ontem eu vi um anjo.
Estava perdida e empolgadamente aflita, sentada numa Uerj lotada, catando papéis, sem saber o que fazer da vida. Tinha uma hora para terminar o que nem havia começado. Queria muito, muito me inscrever nas matérias, mas aquela burocracia toda me enlouquecia. Eu não conhecia os nomes nos papéis, não entendia os horários, não conseguia encaixar nada. Escolhi umas matérias e depois descobri que elas estavam no papel, mas não estavam sendo oferecidas. Tudo bem, não era esse dramalhão todo, mas tava difícil de arrumar minha atrasadíssima vida acadêmica.
Até que ele apareceu.
Estudei com o Victor no primeiro período de História na Uerj, há três anos. Ele era taxista e cheguei a cruzar com ele no seu carrinho amarelo pelas ruas umas duas ou três vezes. Formado em Engenharia, Victor já tinha passado dos 40 quando perdeu o emprego e passou a dirigir um táxi para sustentar a família. Resolveu então voltar à faculdade - mas desta vez foi atrás de sua grande paixão, a história.
Victor entrou na sala e olhou para mim com grande surpresa. Atualizamos nossas vidas: o táxi dele havia sido roubado e ele quase levara um tiro. Desistiu de vez da vida de taxista. Um professor que ficara seu amigo foi promovido a chefe de departamento na Uerj, e carregou-o consigo. Agora Victor faz o que realmente gosta: pesquisas historiográficas.
Contei um pouco da minha vida - Jornalismo, Estados Unidos, História trancada...Ele então sentou-se ao meu lado e me explicou tudo o que eu precisava saber. Escolheu comigo as matérias, horários, professores, e ainda prometeu conversar com os professores das disciplinas em que certamente terei problemas de presença. Informou-me a sala onde trabalha - qualquer dúvida eu poderia falar com ele. Despediu-se com um forte abraço e um "Bem-vinda de volta à História!"
Eu realmente acredito que, no meio de nossos caminhos, alguns anjos aparecem.



Quarta-feira, Maio 07, 2003


Telefonema

Hoje eu acordei como uma deusa. O sol fraco entrava pela janela às 10 da manhã, o quarto ainda cheirava a incenso de mel e o dia mesmo só deveria começar às 13h30. Li jornal calmamente, agilizei um trabalho para a faculdade e tomei um tigelão de corn flakes. Delícia.
Palestra de três horas, treino perdido, duas aulas sacais, dois e cinqüenta na carteira, um chocolate fruto de impulso pesando na consciência e pronto: já ia dormir como plebéia. Três bolsas no chão do quarto, livro desengonçado e recheado de palavras chulas na cabeceira, ao lado de Minutos de Sabedoria (sintomático), tênis com meias dentro, despertador para as 7 horas, cheirinho de mel só na memória - eu era pura ralé na cama.
Até que tocou o telefone. Sabe aquele presente, a preciosidade que num momento qualquer reverte toda tendência negativa? Era ela. Estou indo dormir como uma deusa.



Segunda-feira, Maio 05, 2003


Carandiru, em 1912

O problema da violência é composto por um emaranhado de fatores que se combinam e se sobrepõem. Dois desses componentes são o sistema penitenciário, que supostamente serve para a reintegração de criminosos à sociedade, e a ação da polícia. Todos temos uma vaga noção de como andam ambos no Brasil.
Dia desses vi “Carandiru”. As críticas negativas são fundamentadas, e concordo com algumas delas: o filme é teatralizado, lança-nos estereótipos etc.
Apesar desses detalhes, gostei.
Por acaso, estou lendo um livro de contos e crônicas de Paulo Barreto, o João do Rio. Comecei “A galeria superior” sem ter idéia do que se tratava, mas já o primeiro parágrafo me remeteu ao filme. Impressionantemente, era a descrição do que nos parecem ser as penitenciárias de hoje. Detalhe: o texto foi escrito em 1912.
O Carandiru retratado na telona tem o mesmo ar de “hospedaria da infâmia à beira da vida” de que fala o jornalista/cronista. Se fosse vivo, talvez João do Rio fizesse em São Paulo a mesma observação que fez sobre a Casa de Detenção carioca:
“Vive naquela jaula o Crime multiforme.”

Vale a pena ler esses trechos de “A galeria superior”:

Estão atualmente na galeria duzentos e trinta e oito detentos. A aglomeração torna-os hostis. Há confabulações de ódio, murmúrios de raiva, risos que cortam como navalhas. Com o sentido auditivo educadíssimo, basta que se dirija a palavra baixo a alguém do primeiro cubículo para que o saibam no último. E então surgem todos, agarram-se às grades, com o olhar escarninho dos bandidos e a curiosidade má que lhes decompõem a cara.

Nos cubículos há, às vezes, dezenove homens, condenados por crimes diversos, desde os defloradores de senhoras de dezoito anos até os ladrões assassinos. A promiscuidade enoja. No espaço estreito, uns lavam o chão, outros jogam, outros manipulam, com miolo de pão, santos, flores e pedras de dominó, e há ainda os que escrevem planos de fuga, os professores de roubo, os iniciadores dos vícios, os íntimos passando pelos ombros dos amigos o braço caricioso... Quantos crimes se premeditam ali? Quantas perversidades rebentam na luz suja dos cárceres preventivos?

Encontro ao lado de respeitáveis assassinos, de gatunos conhecidos, na tropa lamentável dos recidivos, crianças ingênuas, rapazes do comércio, vendedores de jornais, uma enorme quantidade de seres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Os processos, porém, não dão custas, e as pretorias deixam dormir em paz a formação da culpa, enquanto na indolência dos cubículos, no contacto do crime, rapazes, dias antes honestos, fazem o mais completo curso de delitos e infâmias de que há memória. Chega a revoltar a inconsciência com que a sociedade esmaga as criaturas desamparadas. Nessa enorme galeria, onde uma eterna luz lívida espalha um vago horror, vejo caixeirinhos portugueses com o lápis atrás da orelha, os olhos cheios de angústia; italianos vendedores de jornais, encolhidos; garçons de restaurants; operários, entre as caras cínicas dos pivetes reincidentes, e os porteiros do vício, que são os chefes dos cubículos.

E a Detenção é a escola de todas as perdições e de todas as degenerescências.
O ócio dos cubículos é preenchido pelas lições de roubo, pelas perversões do instinto, pelas histórias exageradas e mentirosas. (...) Oito dias depois de dar entrada numa dessas prisões, as pobres vítimas da justiça, quase sempre espíritos incultos, sabem a técnica e o palavreado dos chicanistas de porta de xadrez para iludir o júri, lêem com avidez as notícias de crimes romantizados pelos repórteres; e o pavor da pena é o mais intenso sugestionador de reincidência. Não há um ladrão que, interrogado sobre as origens da vocação, não responda:
- Onde aprendi? Foi aqui mesmo, no cubículo.

Recolhida à sombra, nesse venenoso jardim, onde desabrocham todos os delírios, todas as nevroses, é certo que a criança sem apoio lá fora, hostilizada brutalmente pela sorte, acabará voltando. Mais de uma vez, na cerimônia indiferente e glacial da saída dos presos, eu ouvi o chefe dos guardas dizer:
- Vá, e vamos ver se não volta.
Como mais de uma vez ouvi o mesmo guarda, quando chegavam novas levas, dizer para umas caras já sem-vergonha:
- Outra vez, seu patife, hein?

Mas que fazer, Deus misericordioso? Nunca, entre nós, ninguém se ocupou com o grande problema da penitenciária. Há bem pouco tempo, a Detenção, suja e imunda, com cerca de novecentos presos à disposição de bacharéis delegados, era horrível. Passear pelas galerias era passear como o Dante pelos círculos do inferno (...).

Qual deve ser o papel da polícia numa cidade civilizada? Em todos os congressos penitenciários, até agora tão úteis como o nosso último latino-americano, ficou claramente determinado. A polícia é uma instituição preventiva, agindo com o seu poder de intimidação; (...) uma boa polícia tem mais força que o código penal e mais influência que a prisão.

A nossa polícia é o contrário.

(In Os dias passam - 1912)


Tá difícil de escrever...E essa joça de sistema de comentários não funciona!!!!



Segunda-feira, Abril 28, 2003


Amiga

Tenho uma amiga frágil e desbocada. “Uma amiga” é vago demais para essa amizade que está chegando a uma década de vida; poderia dizer que ela é a amiga. Não a única, não a perfeita, mas simplesmente uma endoamiga com todas as forças, os problemas, as vitórias. Amiga apesar da minha insensatez e ingratidão.

A cada frase ela solta um ou outro palavrão, um gíria ou duas, expressões engraçadas e teorias sobre os homens ou qualquer outro aspecto da vida que seja tão interessante quanto esses seres estranhos. A amiga, o mito: ela é a que agita, a que conhece todo mundo, a que faz acontecer. Não que ela lute para sustentar o título – as coisas são assim.
Ela atrai todo tipo de pessoas. Mas engana-se quem pensa que suas amizades são superficialidades sazonais: ela vive e ama intensamente de minuto a minuto, e se dedica àqueles que cruzaram seu caminho com um carinho e uma preocupação que só as mães podem ter. Já foi até criticada por ser um pouco maternal demais com seus amigos, mas parece que o mundo funciona de forma a delegar a ela certas missões. Assim, ela acaba atraindo problemas, mas sabe lidar com eles e sempre, sempre os resolve.

Mas dentro da casca irada dessa moça existe uma menina frágil que pensa no que vai ser quando crescer. No fundo, ela sabe que isso não vai acontecer. Sem complexos de Peter Pan, Sininho ou Wendy, ela transforma o mundo numa Terra do Nunca sem remorsos.

A voz sai fácil, as palavras também, e a sua alegria conquista qualquer um. Quando precisa, ela procura um cantinho pra ficar sozinha, olha pra lua e pensa que nada é por acaso. É uma eterna aprendiz de si mesma e vai buscar o que naquele momento lhe parece ser a felicidade onde quer que acredite que ela está. Vai de carro ou de avião, de trem, de caminhão – para onde quiser ela vai, seguindo São Sebastião, a astrologia, Deus, anjos, amigos, amores.

Ela canta para subir, espantar os males – e canta bem. Herbert Vianna falou, Herbert Vianna avisou...Independentemente de gravar um CD ou não, de cantar no Canecão ou num carro na estrada, de vender um milhão de cópias ou de simplesmente desistir de tudo – ela já é um sucesso. Se vai trabalhar com TV, escrever roteiros de filmes e peças, compor para a Sandy, produzir epopéias surreais ou se transfigurar em Joey Potter – nada disso interessa. O que importa é o que ela faz a cada momento, e que dá certo mesmo quando dá errado. Porque ela, com todas as suas inseguranças, ainda é a menos paranóica que eu conheço. Não passa de uma desvairada correta.
Ela é mais ela.

E no meio de seus devaneios ajuda os outros, se mobiliza em favor de amigos ou conhecidos, recebe bem qualquer cara nova que apareça. Seu quarto é iconográfico: poucos espaços vazios, muitas cores, algumas coisas fora do lugar e outras que parecem estar fora do lugar mas não estão, e vice-versa. Até o armário de roupas é um “buraco” na parede com formas e cores para todos os lados, com tudo sempre à mostra - como o coração dela. Não há muitas definições de fronteiras: se você chegar lá e sentar em sua cadeirinha-qualidade-de-vida, na cama ou no chão, tudo bem. Entre, ligue a TV (que demora pra pegar), o computador (que às vezes precisa de uns tapas), acenda uma vela (há opções para todos os gostos), conte os gnomos da estante e olhe os milhões de fotos alto-astral. Não tem como não entrar numa onda boa.

Minha amiga é impulsiva, segue as borboletas, e não as aranhas, e com certeza tomaria a pílula vermelha de Matrix. Ainda por cima admite seus erros - e até os comemora. Certa vez, corrigi a acentuação de uma palavra só para implicar com ela. A resposta: “Ai Rê, você ainda tem muito que errar nessa vida pra ser feliz...” Ela me conhece como poucos, e entende minhas mancadas sem me passar a mão na cabeça: sabe bater quando é necessário, e normalmente acerta na mosca. E bate forte não só na bola, mas nos amigos também...Mas fique feliz se ela um dia te der uma paulada e disser umas verdades: é porque ela te ama.

Uma vez disse para ela, de brincadeira (como sou implicante!), para não se afogar na euforia. A resposta, em letras garrafais no msn messenger:
ME AFOGO OVER AND OVER, SEMPRE, EM TUDO NA MINHA VIDA!!!
A verdade é que ela nasceu com bóias de braço invisíveis, e todas as piscinas da sua vida dão pé, sempre...De vez em quando encontra um azulejo quebrado lá no fundo da piscina e luta contra as próprias bóias para consertá-lo, arriscando tudo. Mesmo quando o azulejo fica do lado do ralo, aquele que machuca quando a gente pisa em cima, ela se recusa a comprar uma piscina Tony que não arranha, não quebra, não afoga e dá prazer para toda a família. Seria covarde demais.

Dona de uma beleza corajosa, um estilo feminino-esperto, tem um baú de talentos que a cada dia libera um novo, e que de certa forma é como o daquela moça chamada Pandora: sua última palavra, mesmo que ela não perceba, é a esperança.
Se um dia ela morrer (não estou certa se isso vai acontecer) vai ser de cirrose cerebral. Úlcera no cerebelo. Excesso de serotonina-adrenalina-dopamina-noradrenalina.

Porque ela tem poderes catalíticos que aceleram a velocidade de qualquer reação, sem no entanto participar dela como reagente ou produto. Mais que isso, regula qualquer conjunto complexo de reações e é a unidade funcional do metabolismo de uma boa amizade: ela é uma enzima! Ou ainda uma bebida com lactobacilos vivos, aquela que você toma durante a infância e que pode virar vício da vida inteira, tem um gostinho nada convencional e incomparável, e você não sabe bem do que é feita – mas adora.

Minha amiga tira a vida de letra porque sabe que não tem outro jeito. Chora com motivos ou sem motivos, mas nunca se deixa derrubar. Nem ela tem idéia do quanto se diverte, e hoje chega aos 25 assim, achando que não sabe muita coisa, mas sendo feliz quase sem querer, meio que por instinto.

Ela é Touro, cara. E com ascendente Gêmeos.


A maior prova de amor é a compreensão.



Sexta-feira, Abril 25, 2003


Sexta-feira é dia de Brenda.....Ou melhor, Brenda Vianna!!!



Quarta-feira, Abril 23, 2003


Resumo do feriado:
Adopt your own useless blob!



Domingo, Abril 20, 2003


Evan sees the war

Há mais ou menos um mês eu recebi um texto de um amigo americano sobre a guerra, a falta de suporte mundial aos EUA e outras baboseiras. Nem me lembro bem o que dizia, tão imbecil que era o texto. Esse meu amigo é uma graça de pessoa, bonzinho mesmo, e, sinceramente, não me irrita que ele pense assim. Josh sempre me perguntava coisas sobre o Brasil, simplesmente porque ele não sabia nada sobre lugar nenhum - e tinha consciência disso. Ele até me enviou um e-mail um tempo atrás falando sobre o Lula, que tinha lido um artigo sobre as idéias dele para combater a fome e tal. Mesmo tendo sido em tom de brincadeira, para dizer que não era tão tapado como eu pensava, conseguiu me impressionar.

Mas Josh cresceu assim, aprendeu a cantar o hino americano provavelmente antes de dizer "mommy", teve a educação pífia de High School, que não ensina nada sobre o mundo, sobre pensamento crítico, História, Geografia, nem mesmo gramática da Língua Inglesa. A culpa não é totalmente dele. Por isso, desisti de mandar uma resposta "reply all" para o texto que ele enviou a mim e a vários outros amigos (americanos). Sabe quando dá preguiça de explicar algo para alguém que você sabe que não tem meios de entender o que você vai dizer? Então preferi perguntar como ele ia, o que andava fazendo, se estava namorando, surfando muito, já voltara a San Diego ou ainda se escondia em sua cidadezinha no interior, vendo TV e comendo peanut butter.

Mas ontem cheguei em casa tarde da noite depois de um churrasco com amigos. Estava naquele clima de viagem austral e não conseguia dormir, então fui checar meu e-mail, intocado havia dois dias. E lá estava uma mensagem enviada por uma amiga americana. O assunto: “Speech”. Já sabendo o que estava a caminho, me preparei psicologicamente para ter paciência de ler até o final sem praguejar.

Os argumentos eram os de sempre, os piores e mais ignorantes possíveis. No mesmo estilo das barbaridades que eu ouvia por lá: o mundo tem inveja da riqueza americana, os americanos morrem pela liberdade blábláblá.
Olhei para quem mais ela havia enviado: as meninas do meu time, técnica, assistente, minhas duas melhores amigas, mais um povinho que eu conheço e uns que não tinha idéia de quem eram. Não tive dúvidas: cliquei em "reply all".

Obriguei-me a driblar minha mania de totalidade, de querer colocar todos os argumentos possíveis encadeados, fazendo sentido. Não podia construir o quadro completo das relações internacionais, das guerras no mundo, da culpa que os EUA têm em vários cartórios, da unilateralidade do pensamento dos pragmáticos norte-americanos. Até porque não sou professora de nada e sei pouquíssimo desses assuntos, apenas o suficiente para entrar em uma discussão com leigos na Cobal do Humaitá.
Então selecionei uns trechos do “speech” e fiz embaixo uns comentários educados, na esperança de que pelo menos a Carolina, minha amiga argentina, leria e concordaria comigo, mesmo que não se manifestasse. Eis o que respondi:

Just a few comments on that speech:

"Above all, America is hated because it is what every country wants to be - rich, free, strong, open, and optimistic."
Believe me, it is not envy. America is hated mostly because of its government's arrogance. I disapprove this anti-Americanism that is going on in the world. But I understand it.

"Or do you really think the USA is the root of all evil?"
No, I don't. But the USA is capable of defining who are the roots of all evil - the "axis of evil", which can change from time to time, according to the interests. That is not being 'the root of all evil': that is being arrogant.

" To our shame, George Bush gets a worse press than Saddam Hussein. Once we were told that Saddam gassed the Kurds, tortured his own people and set up rape-camps in Kuwait."
In the 80's, America supported Saddam in the war against Iran, and gave him money and weapons. Something like that The same happened to Osama bin Laden, who was trained by the CIA. And America guided the Taliban in Afghanistan, also in the 80's, because it was a way of keeping Russia out.

"Remember, remember September 11. One of the greatest atrocities in human history was committed against America. No, do more than remember. Never forget."
I agree. It was an atrocity and innocent people died. But also remember September 11, 1973. Does anybody know what happened then? Does anybody remember how many people died when a man called Henry Kissinger (does anybody know him?) killed Chile's president Salvador Allende and set up a dictatorship in the country, when Chile was a democracy? Does anybody remember what happened in Nicaragua, in 1985? And who supported dictatorships in Brazil and everywhere else in Central and South America that killed thousands of people during more than 20 years? Do more than remember. Never forget.
***
You know I loved living in the US. I love the people, I have made great friends and I miss them all. You are a great people, but please don't close your eyes for your government's mistakes. And atrocities happen everywhere, every year, but you do not hear it, because press coverage in the US is limited. Yes, it is. Read a guy called Noam Chomsky. Or even listen to Michael Moore...I wish everybody there could see things in a different way - like the way these two American guys see it.
Love,
Renata.


Não esperava nada além de uma ou duas respostas ligeiramente desaforadas, ou alguém dizendo “hey, how are you, girlie?” e ignorando meus comentários.

Mas um carinha me surpreendeu. Evan McIntosh teve a paciência de ler e responder o meu e-mail. Conheço-o de “Hi”, no máximo. Ele trabalhava na Public Safety (“polícia” da faculdade) e parecia o Clark Kent daquele seriado, um super-homem meio japa e cheinho. Não tinha opinião formada sobre o Evan: devia fazer parte da “massa”, apenas um estudante de American college como milhões de outros, um jovem que queria um diploma para conseguir emprego e ganhar dinheiro. Provavelmente um dos 70 e tantos por cento que apoiaram a guerra, ou talvez um que nem parava para pensar nisso. Ele me respondeu de forma simples e educada, e comprovou o que eu já sabia: também nós somos muito preconceituosos com os americanos. Só vivendo lá podemos entender porque eles são como são. Acho que, em linhas gerais, eu compreendi. Eles simplesmente são tão doutrinados quanto um homem-bomba, só que de uma forma bem diferente, claro, e mais sutil.
Com a palavra, Evan:

Renata,

I liked your reply. Very... impartial. We Americans seem to have trouble with impartiality when it comes to political affairs, and I must say, it seems that that for every country, when it comes to a "personal standpoint", we really do miss the point.

You're right... atrocities occur everywhere, everyday. So why does one blind himself to the atrocities of others and focus on his own? Unfortunately, it is plainly and simply because they are closer to home. And until the world is home to all (which, unfortunately, I doubt will happen ever), it will remain so.

But, you are indeed correct. The world is a hard place to live, and it takes hard people to survive. But for the good of all, we must all sacrifice something. Sometimes, life happens to be that something, and sometimes, it happens to be American life. Just as it sometimes happens to be Afgan life, or Islam life, or Jewish life it you want to go into biblical roots.

It's funny too when you think about it... when 100's of Iranian soldier's die, we [American's] think nothing other than that 100's of Iranian soldiers died...but when 1 US soldier dies... expect a press conference. And while I must say that if I were that one American soldier, I would want to be remembered... if I were simply 1 in 100 Iranian soldiers, I might still wish to be remembered.

But while individuals may be impartial... usually... to expect that whole nation will be is unreasonable.
So thank you being so.

Evan McIntosh"


Thank you, Evan.

**************

Se alguém tiver paciência ou quiser treinar o inglês, aqui está o tal “speech” que recebi. Vale a pena ler; é bom saber os argumentos absurdos para poder combatê-los...

“No matter what your views on Bush are, this, from an English journalist, is very interesting. For those of you not familiar with the UK's Daily Mirror, this is a notoriously left-wing daily that is normally not supportive of the Colonials across the Atlantic.
Tony Parsons - Daily Mirror
One year ago, the world witnessed a unique kind of broadcasting -- the mass murder of thousands, live on television. As a lesson in the pitiless cruelty of the human race, September 11 was up there, with Pol Pot's mountain of skulls in Cambodia, or the skeletal bodies stacked like garbage in the Nazi concentration camps. An unspeakable act so cruel, so calculated and so utterly merciless that surely the world could agree on one thing-nobody deserves this fate. Surely there could be consensus: the victims were truly innocent, the perpetrators truly evil. But to the world's eternal shame, 9/11 is increasingly seen as America's comeuppance. Incredibly, anti-Americanism has increased over the last year.

There has always been a simmering resentment to the USA. To this country too loud, too rich, too full of themselves and so much happier than Europeans - but it has become an epidemic. And it seems incredible to me. More than that, it turns my stomach.
America is this country's greatest friend and our staunchest ally. We are bonded to the US by culture, language and blood. A little over half a century ago, around half a million Americans died for our freedoms, as well as their own. Have we forgotten so soon? And exactly a year ago, thousands of ordinary men, women and children - not just Americans, but from dozens of countries - were butchered by a small group of religious fanatics.

Are we so quick to betray them? What touched the heart about those who died in the twin towers and on the planes was that we recognized them. Young fathers and mothers, somebody's son and somebody's daughter, husbands and wives, and children, some unborn. And these people brought it on themselves? And their nation is to blame for their meticulously planned slaughter?

These days you don't have to be some dust-encrusted nut job in Kabul or Karachi or Finsbury Park to see America as the Great Satan. The anti-American alliance is made up of self-loathing liberals who blame the Americans for every ill in the Third World, and conservatives suffering from power-envy, bitter that the world's only superpower can do what it likes without having to ask permission.
The truth is that America has behaved with enormous restraint since September 11.

Remember, remember. Remember the gut-wrenching tapes of weeping men phoning their wives to say, "I love you," before they were burned alive. Remember those people leaping to their deaths from the top of burning skyscrapers. Remember the hundreds of firemen buried alive. Remember the smiling face of that beautiful little girl who was on one of the planes with her mum. Remember, remember - and realize that America has never retaliated for 9/11 in anything like the way it could have. So a few al-Qaeda tourists got locked without a trial in Camp X-ray? Pass the Kleenex...So some Afghan wedding receptions were shot up after they merrily fired their semi-automatics in a sky full of American planes? A shame, but maybe next time they should stick to confetti.

AMERICA could have turned a large chunk of the world into a parking lot. That it didn't is a sign of strength. American voices are already being raised against attacking Iraq - that's what a democracy is for. How many in the Islamic world will have a minute's silence for the slaughtered innocents of 9/11? How many Islamic leaders will have the guts to say that the mass murder of 9/11 was an abomination? When the news of 9/11 broke on the West Bank, those freedom-loving Palestinians were dancing in the street. America watched all of that and didn't push the button. We should thank the stars that America is the most powerful nation in the world. I still find it incredible that 9/11 did not provoke all-out war. Not a "war on terrorism." A real war.

The fundamentalist dudes are talking about "opening the gates of hell," if America attacks Iraq. Well, America could have opened the gates of hell like you wouldn't believe. The US is the most militarily powerful nation that ever strode the face of the earth. The campaign in Afghanistan may have been less than perfect and the planned war on Iraq may be misconceived. But don't blame America for not bringing peace and light to these wretched countries. How many democracies are there in the Middle East, or in the Muslim world? You can count them on the fingers of one hand assuming you haven't had any chopped off for minor shoplifting.

I love America, yet America is hated. I guess that makes me Bush's poodle. But I would rather be a dog in New York City than a Prince in Riyadh. Above all, America is hated because it is what every country wants to be - rich, free, strong, open, and optimistic. Not ground down by the past, or religion, or some caste system. America is the best friend this country ever had and we should start remembering that.

Or do you really think the USA is the root of all evil? Tell it to the loved ones of the men and women who leaped to their death from the burning towers. Tell it to the nursing mothers whose husbands died on one of the hijacked planes, or were ripped apart in a collapsing skyscraper. And tell it to the hundreds of young widows whose husbands worked for the New York Fire Department.
To our shame, George Bush gets a worse press than Saddam Hussein. Once we were told that Saddam gassed the Kurds, tortured his own people and set up rape-camps in Kuwait. Now we are told he likes Quality Street.

Remember, remember, September 11. One of the greatest atrocities in human history was committed against America. No, do more than remember.
Never forget.”



Quarta-feira, Abril 16, 2003


Gente que faz

Como é bom ver pessoas boas. Pessoas normais, que xingam, falam besteira, reclamam da vida - mas são boas. Gente como a gente, com problemas, aspirações e frustrações.
Gente fina.
Passei o dia de ontem rodando pela Baixada Fluminense. Nada de presuntos, tiroteios, traficantes e tragédias, como se poderia supor. Apenas três caras legais: o Bom, o Mau e o Feio.
Três caras simples, tranqüilos, raladores. Um motorista, um repórter e um fotojornalista.
Três caras que, quando faziam uma matéria sobre desnutrição no ano passado, resolveram adotar uma creche em Duque de Caxias. Arrecadam alimentos, roupas, brinquedos e visitam as crianças. Sabem dos problemas delas e ajudam com a própria presença, não somente com folhas de cheque. E, com uma sinceridade incrível, não gostam de aparecer por isso.
"Quem tem que aparecer são as crianças, elas é que precisam ser vistas para serem ajudadas", diz um dos três caras que, diariamente, pegam uma quentinha no restaurante onde almoçam e saem pela Baixada em busca de um mendigo faminto.
Esses três caras são mais gente do que a gente.



Segunda-feira, Abril 14, 2003


Resposta a uma amiga

Querida Thamar,

Vi Frida ontem. Também adorei, apesar de ser ligeiramente irritante ver mexicanos falando inglês com sotaque em seu próprio país. E pensei um pouco no que você disse: viver de verdade...deixar as superfícies para trás, as falsas escolhas, abrir os braços sem medo do sol, sorrir. Talvez as reações que você descreveu tenham sido mais despertadas em mim com o filme As horas, mas Frida também me levou a refletir.

Admiro-te pela coragem de fazer perguntas a si mesma e ouvir com atenção as suas respostas. Eu faço isso de vez em quando (ou de vez em nunca), mas é bem difícil saber quando as minhas respostas são minhas mesmo e quando elas são ecos do externo, ecos que me acostumei a tomar por verdades quase absolutas.

Se estou cansada? Sim e não. Acho que vivo meio cansada, meio disposta a tudo. Às vezes quero tanto que me canso só de ter disposição para querer tanta coisa. E às vezes não quero nada, não tenho pretensão alguma – mas exatamente nesses momentos sou obrigada (será?) a querer ou fingir que quero alguma coisa só para a minha vida fazer sentido para os outros.

Se acredito na possibilidade de viver de verdade, conseguindo abrir mão das falsas escolhas, dos hábitos sem sentido? Acredito. Mas às pessoas que conseguem ser 100% assim geralmente colamos o rótulo de loucas...
Talvez eu tenha mesmo assumido de vez a farsa da vida e lute para me manter feliz. Talvez andemos tanto, corramos tanto, que, sob um diferente ponto de referência, permanecemos imóveis...

Quanto à derradeira pergunta.....”O que torna ou tornaria a vida de vocês verdadeira?”

...Acho que estou na mesma que a Méri: me afogando na superfície, me debatendo onde dá pé. A gente faz muito drama e esquece – me deixe ser piegas – que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. No fim, dá certo. E se não der, dane-se.

Se a liberdade for mesmo optar, então estou mais livre que qualquer pássaro nesse mundo. Desde que me entendo por gente faço opções. Mas todas elas são palpáveis, aquelas que todo mundo enxerga. “Ficar no MRV ou ir pro Rexona?”; “jogar vôlei ou estudar?”; “me formar nos states ou voltar pro Brasil?” Mas essas escolhas todo mundo faz, e, se não fizer, cedo ou tarde a vida acaba fazendo por nós.

Muitas das opções que temos que fazer são mais profundas. São de atitude, de aceitação, de valores, de assumir os erros, viver e deixar viver sendo invejoso, ciumento, estúpido, ignorante, pretensioso. É optar por se desprender do “se”, mandar o condicional para a p.q.p., entender que o mundo é feito de julgamentos. É assumir as escolhas sem desculpas para os outros, é não julgar A, B ou C porque resolveu vender amendoim na esquina em vez de cursar Direito ou ler filosofia. Mas é também aprender a não relativizar tudo, porque senão nada faz sentido...

Ser livre, pois, é optar por tomar caminhos que podem levar a lugar nenhum. É optar porque realmente se quer, e não para satisfazer alguém. Então é só parar de lutar contra moinhos de vento e seguir a estrada, que um dia ela dá em algum lugar...É ser o estrangeiro de Camus, ou um menino maluquinho do Ziraldo, um Holden Caufield menos perturbado. Assim, meio niilista - mas sem perder de vista a solidariedade. O existencialismo é um humanismo...!

Enfim, Thamar, eis o resumo da Filosofia Trash nota onze da Merizinha: às vezes não ganhar nada é o melhor que pode acontecer a alguém.
É, Méri: decidir o caminho sem saber onde vai dar deve ser mesmo a real liberdade. Mas a gente sempre imagina onde pode dar, e escolhe de acordo com esse desejo ou imposição, mesmo sem querer. Pelo menos é assim que eu vejo. E nem todo mundo consegue viver com a assustadora e bela idéia de poder ser o que quiser. É muito mais fácil se encaixar em alguma fôrma no meio do caminho. Pior: poucos conseguem ficar felizes ao voltarem para casa com um palito de fósforo trocado por uma bicicleta depois do grito "SIIIIIIIIM!" no foguetinho do Silvio Santos – mesmo que não seja a bicicleta o que lhes tornará a vida verdadeira.
Eu até tento ficar feliz com o palitinho, mas às vezes é foda.


Shame on you, CNN

Estou com vergonha da CNN. A rede é a prova de que tecnologia e grana não garantem qualidade de nada. Além do alinhamento escancarado com George War Bush; além das 500 entrevistas tendenciosas com ex-militares e estrategistas; além de não mostrar a desumanidade da guerra, os iraquianos estraçalhados, inclusive crianças; além de só fazer matérias mais emotivas com os "heróis americanos"; além de os trocentos correspondentes, vários deles incrustados nas tropas norte-americanas, lerem releases feitos em Washington; além de tantos outros "detalhes", agora a CNN entrou na guerra para valer! Contratou pistoleiros profissionais curdos que trocaram tiros com uma milícia iraquiana!! Isso é que é jornalismo interativo...Se a Cable News Network é exemplo pra alguém, onde vamos parar?



Quarta-feira, Abril 09, 2003


Singelo delírio real
Saio à rua e todos me olham, me fitam, me procuram em cada canto, fecho os olhos e eles me encaram, elas me avaliam e todos me denigrem pelas costas, não posso andar sem ser seguida por olhares lancinantes, olhares que julgam minha vida desde o nascimento e prevêem meu futuro até o dia de minha morte, espremem meus sonhos e pressionam meu crânio, sou bode expiatório da insanidade de um mundo que já não gira, poucos me esquecem, muitos esfacelam minhas esperanças e planos e toda forma de beleza, eles tapam minha boca e me impedem de correr, me fazem ruborizar incessantemente, olhos azuis me lembram de minha insignificância, olhos verdes do ciúme de si mesmos em sua glória me humilham e me cortam, eles contam vantagens que soam como mentiras que me põem em meu pequeno lugar de verdadeira caluniadora, escrupulosa de coragem putrefata, suas palavras me sufocam e me fazem implorar: tenho o direito de ser tímida...



Sexta-feira, Abril 04, 2003


Não li e não gostei (ou onze minutos para malhar um charlatão)

Sei que tem muita gente que gosta desse cara, e esses que me perdoem. Mas ninguém precisa ver Paulo Coelho dando uma explicação sexual para o arco-e-flecha em um texto acompanhado por uma foto dele com suas “flechas fálicas” (na Veja de 02/04) . Em seu nono romance (realmente posso dizer que não gosto, pois já li três livros dele), Onze Minutos - que chegou ontem às livrarias -, o novato da ABL resolveu escrever sobre sexo.

“Vi seu orgasmo chegando, e seus braços seguraram nos meus com força. Os movimentos aumentaram de intensidade, e foi então que ele gritou – não gemeu, não mordeu os dentes, mas berrou, urrou como um animal!” Das duas uma: ou o repórter que selecionou esse trecho queria sacanear o mestre dos magos ou realmente esse é um dos melhores trechos da obra e merecia citação. Horrível.

Mas o que tem o título a ver com sexo? Acertou: inspirando-se num romance do final dos anos 60, Os Sete Minutos, Mr. Paul Rabbit usou seus superpoderes para fazer uma conta mágica que o levou à conclusão de que 11 minutos são o tempo necessário para levar uma mulher ao êxtase. Vamos então à ficção rabbitiana: mulher nordestina chamada Maria vem ao Rio, aceita emprego de dançarina de boate em Genebra e torna-se prostituta de luxo. Mas eis que surge na vida de Maria um famoso artista plástico que tem em comum com a moça as decepções com o sexo. Eles se apaixonam. Diz Maria, em outro trecho brilhante selecionado pelo repórter: “Quem descobre a pessoa com quem sempre sonhou, sabe que a energia sexual acontece antes do próprio sexo. O maior prazer não é o sexo, é a paixão com que ele é praticado.” Uau!

E então o astuto repórter dá mais uma dica do que verdadeiramente achou do livro: “Curiosamente, a tal Maria, apesar de semiletrada, gasta suas tardes numa biblioteca lendo obras sobre psicologia, filosofia e sexo (...)”. Vai ver alguma força cósmico-alquímica suíça ensinou a pobre Maria a ler - ainda por cima filosofia.

Em uma entrevista no pé da página da revista, Mr. Rabbit the Majestic conta que, em sua fase maluco beleza, tentou participar de uma festa sadomasoquista e durante sete anos fez parte de uma “comunidade internacional de ocultismo que buscava o sagrado por meio do sexo”. Participou de orgias com oito parceiros, mas parou “ao perceber que alguns só iam aos rituais para satisfazer desejos reprimidos”. Afinal, o que ele queria mesmo era só alcançar o sagrado.
No final das contas, o mago charlatão da auto-ajuda mudou muito nos últimos 20 anos, e no livro defende a idéia de que sexo só vale a pena com amor. Ah, bom.

Sei não, mas não vejo muita diferença entre esse cara e o tal do Rael. Justiça seja feita, porém: pelo menos o felicitólogo esotérico ajudou Raul Seixas a compor Gita.



Quinta-feira, Abril 03, 2003


E ainda tomei um guaraplus diet estragado...


Cansada

Ontem: Pessoas me olham como se fosse um ET. Policial morto na Freguesia. Hoje, em Inhaúma: Assassinos de professor são identificados. Em Campo Grande: portadora de síndrome de down não vai à escola porque liminar impede emissão de passe-livre. Almoço-mico é pago pelo caridoso repórter porque esqueci a bolsa. E mais: fotógrafo clone de Lenny Kravitz leva-nos à Praia do Recreio para registrar Júlio César com o filhinho Cauã, Cauet, Cauê, Camikazsius ou algo assim. Dor de cabeça, uma bela porcaria de trabalho pra faculdade, blog desatualizado e provas feitas sem estudar.
Ahhhh, a vida é bela novamente!



Segunda-feira, Março 31, 2003


About Schmidt ou qualquer um de nós

Admiro quem consegue ser feliz não fazendo nada. Ao mesmo tempo em que é inútil, a criatura que não faz nada parece ser despretensiosa, menos vaidosa que o normal, desprendida de valores como a obrigação da produtividade, do ganhar dinheiro, do criar.
Quando não faço nada fico louca. Ou então até curto ir à praia, sair, dormir tarde e acordar a hora que bem entender, mas no fundo sempre fica aquela depressão. Sinto-me um elemento dissonante num mundo de pessoas normais, trabalhadoras e competentes.
O grande risco de não se fazer nada é tornar-se confuso. Tudo toma proporções homéricas, uma ida ao dentista vira o programa do dia, há muito tempo de sobra e por isso mesmo acaba faltando tempo. É como a rotina de um aposentado que não consegue buscar outra razão para viver.
A vida é fechada em uma esfera individual que deve fazer sentido para nós mesmos; um círculo cujo núcleo deve ser um objetivo, um alvo qualquer, mesmo que difuso, mesmo que se torne apenas um pretexto para nos levantarmos todos os dias. Sem esse núcleo, andamos em círculos e as horas demoram a passar enquanto lutamos contra a loucura da sanidade vã. É preciso ter e sentir nas mãos aquele globo de prata de que fala Virginia Woolf em “As horas”...
Estou pensando nessas coisas estranhas porque ontem vi “As confissões de Schmidt” (About Schmidt). Quantos Warren Schmidts não devem existir por aí? E, pior, quantos de nós não se tornarão pessoas como ele? Será que viraremos indivíduos cansados, feiosos, confusos, obesos? Será que nos sentaremos no trono de um apartamento (no caso do personagem, literalmente, pois a mulher lhe mandava fazer xixi sentado) com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar...? Será que nos arrastaremos como paquidermes não por nossa gordura, mas pelo peso do arrependimento que ainda assim será mais leve do que a preguiça de fazer valer o tempo que nos restará? Warren move-se pelo desespero, mas uma forma tão apática de desespero que não o deixa fazer muita coisa a não ser deprimir-se. Ainda assim o filme é engraçado, claro – Jack Nicholson é sempre impagável -, pois se a vida não tiver um pouquinho de humor não consegue nem ser triste.
Schimdt calcula que tem 73% de chance de morrer em nove anos. Isso não quer dizer que ele não possa morrer amanhã – como todos nós – ou dali a duas décadas. É um homem de 66 anos, aposentado, que poderia pegar os dólares que recebe e usar seu trailer Adventurer para fazer viagens maravilhosas. Poderia se enfurnar em clubes da terceira idade para dançar em bailes e jogar bingo, ou fazer qualquer outra coisa válida. É assim que costumo pensar: se eu chegar à velhice, vou viajar, vou trabalhar em uma missão na África, vou fazer trabalhos voluntários, aprender japonês e até origami se minhas mãos deixarem. Vou ser daquelas vovós que andam na praia fazendo exercícios de respiração e movendo os braços em movimentos de ginástica dos anos 80. Vou ser ativa e feliz, uma vovó pop e generosa.
Mas quem garante que não me tornarei mais um amargurado Schmidt? Quem garante que não olharei para trás e direi: “quando eu morrer e todas as pessoas que me conheceram tiverem morrido, será como se eu nunca tivesse existido”?



Sexta-feira, Março 21, 2003


Apocalypse now

Você sabe que o mundo vai acabar quando o melhor rapper é branco, o melhor golfista é preto, a França acusa os Estados Unidos de arrogância e a Alemanha não quer ir à guerra.
(circula na rede)

¿Sabía usted que el presidente Eisenhower dijo, en 1953, que la "guerra preventiva" era un invento de Hitler? Dijo: "Francamente, yo no me tomaría en serio a nadie que me viniera a proponer una cosa semejante".
(em texto de Eduardo Galeano)



Quinta-feira, Março 20, 2003


1984, 11 de setembro e 2003

A ficção e a realidade se copiam, e cada vez mais fica difícil saber o que vem primeiro. No início de mais uma guerra estúpida (toda guerra é estúpida, mas algumas conseguem ser ainda mais que outras), a poeira sobe a cada rufar de tambores, deixando descobertos novos antigos fatos que haviam sido esquecidos.

O passado, como no livro “1984”, de George Orwell, é mutável, é transformado a cada momento e perdido, jogado nos “buracos da memória” do Ministério da Verdade por funcionários como o herói rendido Winston Smith. Os empregados que fazem a reescritura do passado são verdadeiros autômatos treinados e autocondicionados através de métodos como o duplipensar e de mecanismos de autocensura que detectam qualquer forma de crimidéia - vocábulos da genial Novilíngua imaginada por Orwell.
Mas os autômatos da realidade são menos óbvios: são políticos, jornalistas, intelectuais. Pessoas que na maioria das vezes logram estar fazendo tudo corretamente – acreditam no que fazem, crêem nas idéias que reproduzem e nas opiniões que formam às vezes quase sem querer.

Assim como em “1984” “a Oceania sempre esteve em guerra contra a Eurásia”, mesmo que até dois dias antes estivesse em guerra contra a Lestásia, os EUA sempre foram contra Saddam Hussein, Osama bin Laden e o Talibã, nunca utilizaram assassinos fundamentalistas para se livrar da Rússia no Afeganistão, nunca foram líderes do terrorismo mundial, invadindo, embargando e reprimindo “legalmente” países pobres e governos legítimos como os da Nicarágua e Chile, para citar apenas dois casos.
O que é muito comentado e está constantemente nos meios de comunicação torna-se verdade, assim como o que é pouco ou nada falado transforma-se em calúnia, fruto da inveja dos que são contra “os ideais da liberdade”, ou simplesmente vira poeira da História oficial. “Esquece-se” de que os EUA são o único país do mundo a ter recebido uma condenação da Corte Mundial por “uso ilegal da força”, um eufemismo para terrorismo internacional. Sim, em 1986, por haverem invadido a Nicarágua, os EUA foram condenados a voltar atrás e pagar uma reparação substancial. Em resposta, intensificaram os ataques ao pequenino país, que recorreu então ao Conselho de Segurança da ONU, o qual passou a discutir uma resolução determinando o cumprimento das leis internacionais. A resolução foi vetada...pelos Estados Unidos, claro – os mesmos EUA que agora rechaçam os vetos anunciados de França, Rússia e Alemanha.

Fatos como esses vez por outra passeiam por veículos de comunicação norte-americanos, mais em peças de opinião individuais do que em matérias ou editoriais. Mesmo assim, nem chegam perto de jornais como o conservador Washington Post (se alguém tiver lido algo que prove o contrário, por favor, me corrija), e mesmo um jornal dito mais “liberal” como o NY Times dá mais espaço ao establishment e à megalomania patética daquele tapir chamado Jorge Arbusto do que a qualquer forma de jornalismo consciente e digno de true storytellers. E há sempre um representante da ultradireta como o William Safire para dizer besteira, ainda que o sensato-mas-assim-mesmo-americanóide Thomas Friedman proporcione aos leitores uma ou outra pérola de bom senso. Mas o consenso fabricado é, ainda assim, perpetuado.

Aqui no Brasil, às vezes somos brindados por artigos esclarecedores, entrevistas interessantes (como a de Noam Chomsky no Globo de ontem) ou matérias contra a amnésia coletiva feitas por repórteres como Toni Marques, José Meirelles Passos e outros. Apesar de nossa subserviência, em um momento de crônica de um ataque anunciado, pessoas elucidativas surgem e ajudam a colocar os pingos nos is – é claro, pois só temos a perder com essa guerra inventada e com hora marcada. Além dos relatos que lemos nos jornais nacionais, não sei como a história anda na imprensa de outros países. Do pouco que leio on-line na norte-americana e vejo na CNN e do muito que acompanhei por lá de agosto de 2001 a julho de 2002, o clima é mesmo de “1984” – o passado molda-se aos interesses do presente, e o sistema de lavagem cerebral começa no jardim de infância, com um patriotismo doentio que beira a xenofobia, mas sempre em defesa da “liberdade” e “democracia”. E esse mecanismo doentio reina também nas redações.

Há inúmeros fatos que a esquecida grande imprensa norte-americana não menciona.
Coincidentemente no ano (real) de 1984 e no anterior, o atual secretário de Defesa (ou seria de Ataque?) Donald Rumsfeld visitou Saddam Hussein, como enviado especial do governo Reagan, e chegou a apertar suas mãos. Desde 1982 os EUA haviam passado a ajudar o Iraque na guerra contra o Irã, então governado por fundamentalistas islâmicos inimigos de Tio Sam. Em março do cabalístico ano de 1984, o rascunho de uma declaração para a imprensa afirmava que, a despeito da condenação de armas químicas (que Saddam usava contra o Irã e usaria em 1988 para matar cinco mil pessoas na cidade curda de Halajba, no Iraque, com o apoio norte-americano), os EUA consideravam o regime iraniano intransigente por ter “o objetivo confesso de eliminar o governo legítimo do vizinho Iraque” (do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, em matéria de O Globo). Então o governo do Iraque só passou a ser ilegítimo em 1991, originando a Guerra do Golfo, e voltou a representar “perigo para o mundo” agora, em 2003, após o fracasso na captura de bin Laden depois do 11 de setembro de 2001??

Os EUA usam, como se sabe, vários pesos e várias medidas. Se necessário, revogarão a Lei da Gravidade e Bush mandará Newton para a cadeira elétrica texana – e provavelmente ficará surpreso ao ser informado de que o autor de tal lei morreu bem antes de John Wayne nascer. Bush Jr. coloca Iraque, Coréia do Norte e Israel em balanças diferentes. Aliado histórico norte-americano, Israel tem armas de destruição em massa, nunca permitiu inspeções da ONU e ainda recebe de Washington uma ajuda anual de 5 bilhões de dólares. Desde 1992, os EUA, que agora rechaçam os vetos anunciados na ONU, vetaram 30 resoluções da organização contra Israel. Um bom exemplo da lei da relatividade dos Estados Unidos são as razões brilhantemente apontadas por José Arbex Jr., na revista Caros Amigos, para a condescendência de Bush para com a Coréia do Norte, integrante do “eixo do mal” tanto quanto o Iraque: a Coréia do Norte não tem petróleo; o Iraque não é vizinho da China, atualmente a potência mais odiada e temida pela Casa Branca; e Japão e Coréia do Sul, aliados dos Estados Unidos, não ficariam contentes com uma guerra nas suas fronteiras. Simples assim.

Esse texano fraudador das eleições, homem que traz à tona a natureza tragicômica da produção e consumo frenético e insaciável de lixo cultural e político norte-americano, presidente que se confunde com a festejada ode à alienação personificada no herói imbecil Forrest Gump, é nada menos que chefe da maior nação do mundo: o país que detém cerca de 50% da riqueza mundial é regido por um maestro axiomático arrogante que sofre de oclusão mental e joga xadrez com parcos conhecimentos de jogo de damas. Um chefe de Estado que, se houver um pouco de justiça histórica, será alvo de comiseração no futuro – a não ser que mecanismos equivalentes aos dos criadores do Grande Irmão de “1984” façam com que boa parte dos acontecimentos sejam reinventados under rug swept.

Não há como pensar em um “choque de civilizações” ou algo no gênero; hoje a idéia chega a soar tosca. O que há, como na maioria das vezes, é um choque de interesses. Interesses que ameaçam nações que se autovangloriam por serem democráticas, mas que usam políticas arbitrárias e imperialistas, incompatíveis com a vocação de um Estado verdadeiramente democrático. Caberia repetir Noam Chomsky, citando as palavras de Ghandi: perguntado sobre o que achava da “civilização ocidental”, o pacifista indiano respondeu que poderia ser uma boa idéia.

É difícil não cair na piada: os Estados Unidos devem realmente saber de cor quantas armas de destruição em massa o Iraque tem – a não ser que não tenham guardado os recibos. A ONU é peça de decoração no cenário mundial, e o máximo que a parte decente do mundo (mesmo que composta de pacifistas por interesse, como França, Rússia e Alemanha) pode fazer é continuar reclamando, noticiando e esclarecendo, tentando inverter a pirâmide ideológica e derrubar a visão limitada criada pelos propagandistas do governo norte-americano que mais parecem aprendizes de Goebbels. No mais, é esperar para ver o que acontecerá aos miseráveis civis iraquianos e ao mundo todo, agora que o pirracento Bushinho ligou seu videogame e apertará os botões que desejar.

**** * ****

Pílulas:
Por que toda guerra é estúpida: o mundo torra quase 900 bilhões de dólares em gastos militares (só os EUA devem chegar a quase 390 bi este ano) e 86 milhões de pessoas morreram em conflitos desde a Segunda Guerra.

Por que alguns dizem que o que Bush quer é petróleo: o Iraque tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo, só perdendo para a Arábia Saudita – aliada histórica dos EUA.

Por que é interessante para o governo dos EUA provocar pânico na população: entre outros motivos, os EUA estão entupidos de problemas econômicos internos, mas Mr. Arbusto usa e abusa da emoção para explorar extremamente o patriotismo e colocar a guerra contra o Mr. Evil no centro das atenções, como se Saddam liderasse os ETs do filme “Independence Day”. O presidente, que era motivo de piada interna, virou herói depois de 11 de Setembro de 2001. O ataque ao Afeganistão abafou a divulgação das provas de irregularidades nas urnas da Flórida; a "guerra ao terrorismo” desviou as atenções dos escândalos de corrupção envolvendo Bush II e Dick Cheney. Além disso, a imprensa logo “deixou para lá” o massacre de civis no Afeganistão e a prática de tortura na base de Guantánamo, em Cuba, contra prisioneiros acusados de pertenceram à Al Qaeda. E por aí vai...

Perdas humanas: na guerra do Golfo de 1991, cerca de 35 mil civis foram mortos. Desde 1991, cerca de 1,5 milhão de iraquianos morreram devido ao embargo imposto ao país. O Pentágono prevê cerca de 10 mil mortes de civis no ataque de agora; já a ONU prevê 350 mil, mais um milhão de desabrigados.

Arrogância e cinismo é com eles mesmo: a máquina militar norte-americana, além de testar um brinquedinho apelidado de “mãe de todas as bombas” (Moab), pôs em órbita recentemente mais um satélite-espião onde se lia “Espírito 11 de Setembro” e “Let’s roll” (algo como “vamos botar pra quebrar”). Uma gracinha de adolescente com neuras fálicas.

Bushinho não sabe que o lobo se fantasia de vovozinha para comer a Chapeuzinho: “Se isso (o governo de Saddam) não é mal, então o mal não tem uma definição”, disse Baby Bush, o descobridor da pólvora. Jura? Só agora ele percebeu que o mal não tem uma definição! Pois, se tivesse, os EUA não teriam dado a Osama bin Laden a formação terrorista da CIA, não teriam dado o poder a Saddam contra o Irã, não teriam colocado o Talibã no poder no Afeganistão quando lhes interessava...A cara do mal é aquela escolhida por Bush I, Bush II, Reagan, Kissinger ou quem quer que tenha condições de “enganar” o mundo.

Okay, você venceu, batatas fritas: na onda das french or freedom fries, daqui a pouco Bush vai mandar trocar a música do South Park para Blame France.

George W.C. Bush nunca leu Dostoievski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, disse o russo. Para Bushinho, Deus existe e permite atrocidades em Seu nome, como a ignorância de se denominar “Cruzada Contra o Terrorismo” sua guerra particular em Tora Bora, na qual quis enquadrar o mundo. Obviamente ele levou uma chamada de alguém pouco mais bem-dotado de semancol e trocou o nome para “Guerra ao Terrorismo”. A incoerência religiosa chegou a tal ponto que fez o papa pedir a Bush que pare de mencionar Deus em seus discursos belicosos.

Pergunta ingênua: Por que os 356 correspondentes da CNN parecem papagaios amestrados do Ari Fleischer??

Telhado de vidro: o Iraque não possui nenhuma ogiva nuclear; os EUA são donos de mais ou menos 10 mil.

Países que possuem armas atômicas: EUA, França, Rússia, China, Inglaterra, Índia, Paquistão, Israel. Ah, e o Iraque, claro.

The real axis of evil: Bush, Blair and Aznar.

Novo filme independente de terror norte-americano: O Bush é de Blair. (Essa é péssima)

Eu já sabia: o primeiro lugar em que pisei nos Estados Unidos pré-september 11th foi o Texas. Já no aeroporto, cartazes exibindo um ser de botas e arma de caubói e com os dizeres “Don’t mess with Texas!” lembraram-me que aquele era o estado onde foi criado o presidente. Não podia dar certo.

Leituras recomendadas:
Chomsky, Noam. 11 de Setembro. Orwell, George. 1984. Bush, Baby. www.bushisms.com



Terça-feira, Março 18, 2003


Deus é Americano

Carlos Gil

O Messias chegou. E anunciou na televisão, segunda-feira à noite, que Deus continua abençoando a América. América que deu 48 horas de prazo para iniciar mais uma guerra absurda, mais um genocídio, mostrando que o petróleo vale mais do que vidas humanas. Messias fala por seu pai, Deus. Sim, ele se crê o filho mais novo Dele. O irmão mais velho morreu na cruz e muito se fala em seu nome. Pouco se faz.
Pois então. Messias, também chamado de George, conseguiu na Justiça os direitos sobre os atos de seu pai. Já velhinho Deus foi considerado senil, incapaz de cuidar de seus próprios negócios e de emitir opiniões clarividentes. Sendo assim, George agora fala em Seu nome.
E George falou. Ignorando os apelos dos fiéis de toda a Terra, ele vai dar início à guerra. Tenta convencer que combate o Anticristo, rebatizado de Antibush Hussein. Esse George sempre teve inveja do irmão mais velho e agora fará de tudo para convencer o mundo que o barbudo assassinado na Judéia há 2003 anos era um bundão.
Passeatas pela paz foram inócuas. No objetivo de evitar o inevitável. Mas demonstram que o povo já sabe reconhecer falsos Messias. A guerra no Iraque é, obviamente, econômica. O Iraque é um país destruído pela fome, pela miséria, por uma ditadura estúpida (o que não justifica que o país deva ser arrasado em nome da democracia). O Iraque utilizou dinheiro sagrado, americano, para combater o Irã. Em dez anos de guerra contra os vizinhos não os venceu. Difícil imaginar que ainda mais pobre do que já era - e sem o dinheiro sagrado -possa ameaçar o poderio militar do Sacro Império.
A verdade é que George não está nem aí para as armas químicas. George quer garantir o troco para a indústria bélica americana, a indústria da construção civil americana, as companhias petrolíferas americanas. A mesma gente que garantiu a George muita grana para financiar a eleição mais corrupta da história americana. A eleição vendida/comprada que levou George, o segundo colocado, ao primeiro posto.
O que fazer se novos onzes de setembro acontecerem ? Alguém duvida ? Acho que é um ditado bíblico aquele que fala sobre plantar vento e colher tempestade. Se não for bíblico, é sábio. Sábio como Deus - seja Ele quem for, seja a idéia Dele qual for, seja o que Ele for - é. Mas Deus está senil. O Messias chegou. O novo nome dele é George. E anunciou na televisão que Deus vai continuar abençoando a América. Que alguém nos proteja...


elucubrado por Carlos Gil, colaborador ateu a menos de um passo da conversão



Sexta-feira, Março 14, 2003


Apenas um soneto vazio

Gostaria de fazer jus a um poema de Pessoa. Hora Absurda eu seria; um poema inconjunto, uma ficção do interlúdio, e cantaria o mar em que jaz a saudade dada, o Pierrot Bêbado ou Qualquer Música. Teria em mim aves cheias de abismo, e Grandes Mistérios habitariam o limiar do meu ser. Saberia que minha alma não tem alma, e se existo é um erro eu o saber. Em pura Abdicação, despiria a realeza, corpo e alma, e regressaria à noite antiga e calma. Fingiria que é dor a dor que deveras sinto. Faria minha Autopsicografia; seria inteira, Para Ser Grande, e sorriria com o dono da Tabacaria.
Em vez disso, faço jus a um soneto de Vinícius, belíssimo e amado poetinha, que a mim dedicou este: o Soneto da Mulher Inútil. Mas, se o luar através dos altos ramos não é mais que o luar através dos altos ramos, por que não poderia ser eu nada mais que o Último Sortilégio: uma breve mulher que merece um soneto só para ela, Mulher Inútil de corpo nem tão leve como plumas, nem com tanta graça, de braços nem tão finos como lírios, mas passível de ser levantada por um suspiro.


***

“Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...”
F.P.



Quarta-feira, Março 12, 2003


Nihilistic moments
We are socially bewildered, almost all of us; we are anomic loners ruminating over our fates; we live in an age of rootless alienated people.
But don't let that stop you.


Definições à parte

Tatiana Bar Newell

Em meio à multidão, estranhos são os que sonham.
A escuridão na luz da razão seria a realidade
E o que poderia nos dar vida?
Amor de verdade ou verdade de um amor?
Intencionar um sonho seria lei;
Premeditá-lo, um grande motivo.
Definições à parte,
Promover amor e vida.
Viver amor é morrer
- Morrer de vida?
Tem coisa melhor...
Momentos são apenas metáforas:
Podem durar vidas para serem decifrados,
Mas nunca serão tarde em nossos sonhos.
Grandes amores não morrem.
Amor é matar e morrer
Mais que isso
-Sobreviver!


elocubrado pela Tatiloka, minha única friend que consegue ser existencialista, humanista e jornalista ao mesmo tempo



Segunda-feira, Março 10, 2003


Búzios

Se eu pudesse, resumiria a vida a um início de noite em Manguinhos: eu deitada no limiar da grama com a areia, o sol se pondo atrás de arbustos e deixando um rastro amarelo-alaranjado pelo céu já azul-escuro, e no fim da reta de luz a lua minguante brilhando entre restos de nuvens incômodas e harmoniosas, as constelações já visíveis, três marias sobre minha cabeça, o espelho cintilando e jogando ondas de barulho suave de encontro às conchas, a trilha de Alta Fidelidade se encaixando no som intermitente do mar, e enquanto isso eu contando estrelas com as pontas dos pés...



Quinta-feira, Março 06, 2003


Depois de papos de bar (que renderiam uns comentários, não fosse minha preguiça agora) sobre sexualidade infantil, a representatividade e a relativização dos valores, tabu do incesto, carnaval, fantasmas, super-heróis dos quadrinhos e suas adaptações cinematográficas e outros assuntos importantíssimos para as nossas vidas, meu grande amigo Emílio soltou a seguinte frase incidental em um momento de ego (meu) em frangalhos: Você é mulher para ser seguida, e não para seguir.
Amigos são tudo.



Quarta-feira, Março 05, 2003


Então eu tô indo logo ali tacar um coquetel molotov na GloboNews e já volto.



Quarta-feira, Fevereiro 26, 2003


Ela, mulher etérea

Ela é abstrata
por ser tão concreta
e querer ir muito além
da concretude.
Ela é sólida,
mas desmancha no ar
como uma bolha de sabão
ou um falso sorriso
em vão.
Ela é infinda, mas infinitamente frugal
e mais que tudo é, ainda,
uma infinita sentimental.
Ela é simplória,
quer ser oculta
e sente baldia culpa
ao lutar por qualquer glória.
Ela se esquece de tudo
mas tem memória;
diz que o mundo merece estudo
e se interessa por qualquer história
(ê mulher contraditória...)
Ela é comodamente inconformada;
brega, crítica, tímida, impostora,
dominada e dominadora,
sempre por algo apaixonada.
É parafrênica, paranormal,
Musa da paralaxe conceitual,
De tudo gosta,
De nada é íntima,
Mulher disposta, mulher ínfima
Estúpida mulher, mulher normal.
Jovem pirotécnica,
tática
tétrica.
Receia ser apócrifa
E detesta perceber-se indigna:
Ela é um grande paradoxo
Que se pretende paradigma.



Segunda-feira, Fevereiro 24, 2003


Eu odeio

ODEIO me sentir inutil.
Odiar e o pior verbo que existe, mas nao tem jeito - EU ODEIO. As vezes ODEIO varias coisas. Odeio chegar a um lugar e nao saber o que fazer. Odeio me sentir humilhada. Odeio pensar que todas as pessoas do mundo estao me olhando naquele exato momento em que me sinto ridicula. Odeio odiar pessoas, e na verdade nao me lembro de nenhuma vez que isso tenha acontecido. Juro. Ja fiquei triste com alguem, briguei com alguem, senti um pouco de raiva momentanea por alguem. Mas acho que nunca odiei ninguem. Nesse momento nao odeio pessoas, nem a mim mesma. Mas odeio me sentir inutil. Inutil para a melhoria do mundo, inutil para a felicidade de varias pessoas, inutil no trabalho. Quero ser um ombro macio para os amigos, mas nem isso tem acontecido muito. Estou absorvida pelos meus objetivos - que tem uma direcao, mas ainda assim sao imprecisos. Odeio me sentir infeliz, e odeio me sentir muito feliz quando alguem ao meu lado chora. Odeio deixar alguem triste. Odeio ser odiada - nao tenho certeza, mas acho que ja fui (ou ainda sou). Odeio nao amar o que faco ou nao fazer o que amo. Odeio nao saber o que fazer - algo que acontece comigo todos os dias. Odeio mudar de ideia a cada cinco minutos. Mas tambem odeio ter aquela velha opiniao formada sobre tudo. Odeio burocracia. Odeio guerra. Odeio preconceito, mas sou repleta deles. Odeio tantas coisas, mesmo sem perceber que odeio tanto assim. Nao sei nem como tanto odio cabe em mim...
Sei la, viver bem deve ser amar a vida apesar de odiar detalhes e holocaustos.
Right now eu ODEIO esse teclado sem acentos.



Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003


Não tenho vocação para Vitalina

Um dia desses encontrei um amigo de longa data. Na verdade era um amigo da minha irmã, mas que eu, quando era pequena, considerava meu amigo também (quando você tem dez anos sempre é legal ter amigos três anos mais velhos). Pois eu sabia que ele havia se casado mais ou menos em agosto do ano passado. Engraçadinha, fui logo perguntando: e aí, homem casado? Ao que ele me corrigiu: ex-casado, você quer dizer. Meio sem graça e muito espantada, exclamei: JÁ???

Então ele, apaixonado havia anos, se casou e a união não durou nem um semestre! Aí você assiste “Edifício Master” e vê um casal que se conheceu por anúncio de jornal. Eles estão juntos há uns 10, 15 anos, felizes da vida. Ela acha o barrigão dele lindo, ele diz que a coroa dele é puro charme. E assim a vida é linda.

Mas meu amigo fez 27 anos e já é divorciado. Você passa anos com uma pessoa, paga festão, manda convites, compra apartamento, sabe o nome dos filhos e cinco meses depois já está solteiro no Rio de Janeiro, são bocas em todo lugar, parado não dá pra ficar.

Porém, nem tudo está perdido. Anteontem conversei com uma menina na faculdade que acabou de voltar de uma viagem ao Canadá. Ela me mostrou as fotos e havia três gatinhos com quem ela tinha ficado lá. Papo vai, papo vem, a revelação: a moçoila de 20 anos, 1,82m, ex-modelo, loura, inteligente, é virgem. “Ainda não encontrei um namorado que valesse tanto a pena. Não quero que seja com qualquer um”. Podem dizer que ela está “desperdiçando a juventude” e blábláblá. As for me, achei lindo. O fato, nem tão incomum quanto pensamos, mostra que, apesar de o casamento ser uma instituição em crise como conseqüência da liberdade sexual que mudou muito os costumes tradicionais, a verdade é que muitas mulheres continuam procurando seus príncipes encantados. E, mesmo mudernas, continuam acendendo velas, fazendo promessas a santos e sonhando encontrar companheiros que as completem que nem feijão com arroz...

Eu, que quando era pequena já pensei em ser freira – mas desisti ao descobrir que gostava muito de meninos e queria ser mãe -, hoje tenho certeza de que não quero ser Vitalina (li em algum lugar que o cancioneiro popular brasileiro fez com que esse nome passasse a significar “moça que ficou para a titia”). Sei lá, ainda sou daquelas otárias que acham que o casamento é pra sempre. Quero casar na Igreja com um vestido simples e charmoso; quero que toque Jesus Alegria dos Homens e Ária na Corda Sol; quero uma lua-de-mel romântica e divertida; quero morar sob o mesmo teto e achar que a intimidade, apesar de ser uma conquista irreversível, é uma maravilha. Até que a morte nos separe. Mas às vezes esse mundo nos faz desacreditar em coisas bonitas demais. Filmes como “Separações” batem na cara da gente, falam a verdade mesmo. Ainda bem que o final do Domingos de Oliveira foi feliz.



Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003


Eu no Mundo Encantado de Titio Roberto

Hoje foi o encerramento de uma maratona de dez dias de palestras e passeios da Stella Barros (antes da falência) pelo Mundo Encantado da TV Globo. Teve “ambientação corporativa” e passeio de mão dada em fila indiana pelos estúdios e cidades cenográficas do Projac. Teve bebidinhas, casadinho de doce de leite e folheado de queijo que deram inveja até aos palestrantes. Teve sono. Teve saco cheio e sentimento de ridículo. Teve muito saco cheio. E teve um mínimo de, se é que posso chamar assim, aprendizado.
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Hoje por exemplo, no último dia, fiquei sabendo que o William Bonner, além de ser muito simpático, bonito, inteligente, marido da Fátima e pai de trigêmeos, não é jornalista. É publicitário. Pode ser que todo mundo saiba, mas para mim foi uma grande surpresa. Mais uma pancada no diploma. E fiquei feliz (e um pouco triste também, pois não sei se conseguirei concretizar minha vontade) quando ele disse que melhor seria se quem quisesse ser jornalista fizesse História (preferencialmente, mas outros cursos de Humanas também servem), já que depois aprenderia jornalismo em uns 6 meses. Sempre pensei mais ou menos assim.
Confirmei também outro princípio: só pergunte quando realmente tiver dúvida, quando a pergunta for pertinente. Teve muito estagiário fazendo pergunta a torto e a direito nitidamente só para fazer perguntas e parecer curioso, interessado, “um jornalista nato”...Odeio isso. É presunção, pedantismo...Simplesmente desnecessário.
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Aprendi que tenho que controlar meus ímpetos de bocejo. Porque até pra bocejar eu sou tapada: só percebo que estou bocejando quando o ato já está consumado. Ou seja, estou lá, com o maior bocão aberto na frente do palestrante, e só aí me dou conta e pateticamente levo a mão à boca para tapá-la, como se adiantasse. Fui mal-educada sem perceber. Imperdoável.
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Mas no total até que foi legal. Ganhamos bloquinho da GloboMarcas (que a Brenda herdou e a essa altura já deve ter perdido), canetinhas e chiclete azul da novela O Beijo do Vampiro!!! Hip Hip Hurra.
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E decidi que nunca mais quero ouvir falar no Tony Ramos. Além de apresentar e narrar todos os vídeos institucionais insuportáveis a que assistimos, ele é sempre o exemplo de ator da Globo de todos os palestrantes. Ainda por cima, cruzamos com ele em um intervalo. O cara está em todas - e pode ser tudo na vida, com todo o respeito, menos galã.
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Aprendi ainda (ou apenas ratifiquei) que não sei escrever para a TV. Na verdade, não sei se sei escrever pra coisa alguma, só para o blog do qual sou editora, porque aí tanto faz mesmo. Mas, infelizmente, isso não me basta. Porque escrever é o que mais amo fazer na vida. Escrever e também viajar, conhecer lugares...pena que para 99,99999% das pessoas nada disso enche barriga. E como estou começando um estágio na televisão, onde nunca imaginei, nunca planejei, e de que nunca gostei muito – talvez por puro preconceito -, acho bom eu aprender rapidinho. Ou então passar na dinâmica do jornal O Globo que vou fazer segunda-feira. We’ll see.

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A verdade é que estou tensa. Amanhã começo no Conta Corrente. Se já não tenho experiência com TV, junte-se a isso o fato de ser um jornal especializado em economia. A ignorância aflorará, impiedosa. Putz, quem me conhece sabe que odeio me sentir ignorante. Mas vai ser bom começar logo na porrada, levando fora e olhares de “tadinha” pela cara. Mas tudo bem: quero chegar ao final da vida e dizer de boca cheia: já levei muita porrada e já paguei muito mico. Graças a Deus.

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A propósito, meu best friend Fernando Pessoa manda um recado:

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos



Domingo, Fevereiro 16, 2003


Oscar 2003. Sem "Cidade de Deus". Ainda bem.

Oscar é uma babaquice. Partindo dessa premissa, todo o resto fica fácil de entender. As indicações são claramente políticas. Os estúdios subornam o colégio eleitoral e só isso explica vitórias de filmes medianos como "Shakespeare Apaixonado", com atrizes medianas como Gwyneth Paltrow. Os artistas se vestem com roupas ridículas e os apresentadores das televisões brasileiras que cobrem o Oscar se vestem de forma mais patética ainda tentando fazer parecer que estão no Kodak Theater, em Los Angeles. Teve um ano, no SBT (onde mais ????) com Babi (o que é Babi ???) de longo falando bobagem, é claro, e Rubens Ewald Filho de smoking. Não dá...
Este ano, acabam de sair os indicados. Favoritos, azarões. Acaba virando conversa de bar. O que é legal. Todos gostamos de cinema. Uns são mais fascinados que outros. Fazemos nossas apostas, vemos juntos a transmissão e temos nossos preferidos. Ano passado achei que "O Senhor dos Anéis" levou poucos prêmios, blablabla. E só. Quem foi mesmo que ganhou o melhor filme ?
O que eu não suporto é o clima de final de Copa do Mundo que alguns criam quando tem brasileiro na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro. Uma palhaçada. Isso não prova nada. "Central do Brasil" era melhor que "A vida é bela" ? Em alguns aspectos sim. Mas "Central" não tinha judeu, não tinha holocausto, não era pré-fabricado para ganhar Oscar. E ainda por cima foi a Sophia Loren a indicada para apresentar o prêmio. Era óbvio que o Benigni iria ganhar. Para que o clima de velório na TV ? Foda-se.
E quando disputaram "O quatrilho" e "O que é isso companheiro ?" ?
Filmes medíocres. Nem mereciam estar ali. A pátria de pipoca na mão ? Isso não existe. Cinema é apátrida, atemporal, acima dessas vaidades e mesquinharias de ficar fazendo torcidinha organizada. Por essas e outras que dou graças a Ele de "Cidade de Deus" ter ficado de fora. Não ganharia nunca.
Uns caras da Academia saíram no meio da projeção do filme lá nos EUA porque acharam forte demais. E é. Forte demais para a cabeça pequena dessa galera de Hollywood. Eles querem "filmes com mensagens". Qual é a mensagem do "Cidade" ? Não tem. Aí galera, o Rio é isso aí. Uma porra duma cidade cheia de favela. De braços abertos no cartão postal e de punhos fechados para a vida real. Preto na favela só se salva um em mil. O resto morre em guerra de traficante ou assassinado pela polícia corrupta. Comercialmente é ruim para o cinema nacional não ter um filme incluído no Oscar ? Pode até ser. Um pouco. Não acho que seja tão determinante assim. Os filmes brasileiros, argentinos e mexicanos têm sido aclamados em festivais muito mais legais que essa papagaiada mercantilista que é o Oscar. Se "Cidade de Deus" estivesse lá eu torceria contra. Seria como o revolucionário proletário de Cuba entrar na Gap de Nova Iorque para fazer compras. Um contra-senso.
Vamos fazer apostas, ver TV, falar mal das roupas dos artistas e conversar no bar sobre resultado do Oscar. Tudo bem, somos cinéfilos. Mas deixemos nossas bandeirinhas para Copas do Mundo de verdade ou coisas mais importantes onde nosso patriotismo deva realmente se fazer representar.

elucubrado pelo colaborador Carlos Gil, cinéfilo revoltado



Terça-feira, Fevereiro 11, 2003


"Ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida,
Ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar
Tampouco compreenderá uma longa explicação."

Mário Quintana



Quarta-feira, Fevereiro 05, 2003


Piada efêmera do amor eterno

Que este momento não seja perene;
não dure muito;
não deixe marcas para uma vida inteira.
Que ele seja, de tão feliz, facilmente esquecível;
pois a beleza é triste
porque não é eterna.
Quero este momento belo,
mas só agora, nada mais espero.
Nada além do que vejo hoje
e vislumbro para daqui
a três ou quatro dias;
maior distância o coração não enxerga
e o cérebro embaça.
Que com tristeza eu não me lembre,
quando acordar, deste sonho
que me caça,
me curte,
me esfola e embaraça,
mas, por fim,
me nutre.
Que o momento de amanhã
não me recorde o de hoje,
nem o de ontem,
nem me projete para qualquer depois
que não após um dia ou dois.
Que nem por um instante
eu faça de meu sentimento
algo mais que um tormento
de um coração errante.
Sem planos para a felicidade,
sem planos para a desgraça,
sem qualquer plano de verdade,
pois tudo no mundo passa
(e nenhum amor é de graça).
Sem alvo para nada:
Que eu apenas siga,
mesmo que a vida me diga
que todo amor é uma piada.




Essa é uma runa da Idade Média...Era chamada fehe, que significa amor. E a partir de hoje (terça, dia 4), estampa minha nuca.


Fim de semana

Mais um fim de semana passou e eu só tomei uma decisão: quero ir a Macchu Picchu. E quero também girassóis pro meu quarto. Além disso, o rapel foi acrescentado à minha lista das 50 Coisas que Quero Fazer Antes de Morrer.
Também adicionei mais um lugar à minha visão do Paraíso. Chama-se Cachoeira da Capivara, na Serra do Cipó. Cenário Lord of the Rings. A água jorra de pedras que roçam em nuvens, e cai, branca, com força descomunal em outras pedras aparentemente moldadas pela própria água. Uma delas era a miniatura da Pedra da Gávea...De repente a água fica negra, funda, medonha, e bate em fronteiras inacreditáveis, paredes de rochas com plantas entranhadas. Nadei até o lado da queda d’água, deitei e olhei para cima. Gotículas formavam um arco-íris em cima da minha cabeça. Nessas horas tenho ainda mais certeza de que Deus existe.
Os roxos na canela e joelho e a topada no dedão, assim como a trilha por vezes tortuosa, valeram a pena. Um bando de loucos emaconhados fazendo rapel também. Até mesmo ver os últimos goles de uma água já quente serem babados por um gringo sedento e maravilhado valeu a pena. O rombo na calça, embaraçoso na subida das pedras: valeu a pena.
Valeu ver que não estou tão fora de forma assim e que realmente topo quase qualquer coisa. Fui a única das mulheres a nadar na água fria até as quedas d’água, subir uma delas e tomar uma forte ducha natural. Subi pedras e vi uma das paisagens mais lindas que já presenciei: a cachoeira enorme, vista de cima, na beira da queda, com uma gigantesca piscina cercada de paredões e mato, e o céu azul por cima. Incrível.
Na volta, consegui até subir correndo uma parte da trilha. Sentir o sangue correndo quente, o coração batendo rápido e o espírito em paz: poucas coisas na vida são comparáveis a essa sensação.
Passando pelos campos verdes pontilhados de flores amarelas, pela primeira vez a frase shakespeariana “meu reino por um cavalo” fez sentido para mim. Queria muito sair cavalgando por aquele lugar, sem rumo, sentir o vento, amazona urbana fora da selva de pedra. Mas andar também tem seu valor, devagar se repara nos detalhes. Na cachoeira do dia anterior, em Casa Branca, contei sete borboletas azuis (duas daquelas azulonas mais berrantes que a maquiagem da Elke Maravilha) e quatro amarelas pequenas. As borboletas me entristeceram um pouco, mas eram apaixonantes. Depois dessa beleza toda, ainda visitei um templo budista.
Momentos de paz em meio à turbulência.
Um fim de semana passou e tomei uma decisão: quero conhecer Macchu Picchu. E quero também girassóis para o meu quarto.



Sexta-feira, Janeiro 31, 2003


Depois do rock, samba de raiz...

Minha querida irmã resolveu aparecer neste fim de tarde em minha casa. Trouxe consigo uma pérola daquelas que até as ostras procuram. O nome do CD é Dona Edith do Prato. Sim, a velhinha toca com prato e garfo. Nada pop, nada roquenrou, só utensílios de cozinha com a ajudinha de palmas, percussão, viola. Importado diretamente de Santo Amaro da Purificação. Juju ligou para a Bahia para encomendar o CD, que não existe em lojas, e a própria dona Edith atendeu o telefone com aquele sotaque. E ainda convidou minha irmã para passar uns dias em com ela, Dona Canô e (Maria) Betânia. Juju quis vender sua loja de chocolates na hora e abrir uma quitanda em Santo Amaro da Purificação....Nada anormal para quem se formou em Psicologia com monografia sobre a representação social do choro na virada do Segundo Império para a Primeira República. Depois dizem que a doida sou eu.



Quinta-feira, Janeiro 30, 2003


Faço minhas as palavras deste produtivo colaborador. É de vozes dissonantes que surgem as opiniões mais sensatas.

O tapinha que dói

Um estudo da Organização dos Estados Americanos sobre o uso de drogas no continente revelou números do consumo de álcool, maconha e cocaína no Brasil. O resultado por região não me surpreendeu e só vem a reforçar uma tese que é compartilhada, entre outros, pelo ex-chefe de Polícia e deputado estadual Hélio Luz e pela editora-chefe deste blog. As classes média e alta - ou pelo menos as regiões mais "desenvolvidas" - é que sustentam o tráfico.
No caso do álcool, que é lícito, o Sudeste lidera as estatísticas. No caso da maconha e da cocaína, ilícitas, é o Sul quem mais consome. A droga vai onde está o dinheiro. E se alguém está comprando, a droga é um negócio lucrativo. Assim, cariocas, paulistas, mineiros, capixabas, paranaenses, catarinenses e gaúchos têm o direito de reclamar da crescente violência nos grandes centros destas cidades? É fácil sentir-se relaxado depois de um "baseado" e puto da vida depois de um assalto sem fazer o menor esforço para traçar um paralelo entre os dois fatos. Quantos assaltos são praticados por causa da droga?
É uma discussão complexa. Muitos defendem a liberalização da maconha como forma de diminuir a violência. Citam o exemplo da Holanda. Mas o Brasil não é Holanda. Aqui só temos a Nova Holanda, aquela favela em Bonsucesso sempre em guerra com a Vila do João e a Vila dos Pinheiros pelo controle do tráfico no Complexo da Maré.
Eu gostaria que a nossa sociedade discutisse sem preconceitos esta questão. Ainda é difícil. Acho que acabar com a miséria é mais importante do que saber se o filhinho de papai vai ser autuado ou liberado se pego com cinco gramas de maconha para consumo próprio.
Sei que sou uma voz dissonante da maioria dos meus amigos mas continuo achando que o cara que compra maconha ou cocaína ou ecstasy ou sejá-lá-o-que-for está, sim, colaborando com o crime organizado. Cada um deve ter sua idéia própria sobre a forma de como ser cidadão e colaborar, com um pouquinho que seja, para melhorar nosso país. Não faço muito, é verdade. Mas o que faço, faço convicto.
Essa semana discutíamos o caso do Giba e alguns amigos diziam que era ridícula a punição por causa de maconha. Diziam que a maconha não traz benefícios esportivos e que aquilo não é doping. Concordo. Não é doping. Mas deve ser punido de alguma forma. Ele é ídolo, formador de opinião, espelho para a juventude e...vacilou. Merece outras chances, merece respeito, merece ser ouvido e se defender. Mas, vacilou. Fui chamado de romântico por acreditar que o esporte deve continuar combatendo o doping. Então, tá. Melhor ser romântico que descrente. Se um dia eu achar que comprando drogas eu não colaboro em nada com a bandidagem; se um dia eu achar que o doping deve ser liberado porque todo mundo se dopa mesmo; se um dia eu abrir mão desse "romantismo" de achar que, mesmo imperfeitas, as leis devem ser cumpridas...talvez este dia o mundo ganhe mais um desiludido e perca mais um cidadão em potencial.

elucubrado por Carlos Gil


Queria CASAR com esse homem!

"Temos, todos que vivemos,
uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá expicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."

Fernando Pessoa



Terça-feira, Janeiro 28, 2003


Deve ser TPM

Passei a noite com meu companheiro de fossa, meu recém-descoberto amigo para as horas de incontrovável self-pity. Bukowski. Nada a ver com o bar, que no bar se é feliz. Quando os amigos dormem, outros namoram, viajam, é tarde para telefonar, os celulares estão desligados...Raiva do mundo não chega a ser. Parece cocaína, mas é só tristeza.
No livro todo mundo só bebe. Dá até vontade de tomar um chope. Mas eu odeio chope e meu convento só tem água e leite. Shit. Buk não está me fazendo bem. Melancolia sarcástica e alcoólatra não pode fazer bem a ninguém.
Queria comprar uma escadinha para poder descer pela varanda a qualquer hora. Umas 17 voltas pela minha pracinha molhada e cheia de folhas caídas me curariam dessa coisa, que deve ser mesmo uma coisa de nada às duas e meia da madrugada. Acabei o livro, ou ele acabou comigo, e não sei o que fazer. Escrevi uma coisa estúpida chamada "O homem fictício" e quero armar aquela cena: amassar o papel, jogar no lixo e começar de novo. Só para me sentir importante. Filme sempre tem essas cenas, seja de um escritor revoltado com o branco na mente ou de um amante indeciso ao escrever uma carta de amor. Vou jogar no lixo, virar a página e escrever de novo. Como se fosse a vida.
Enquanto isso, meu panda Diego me fita consternado. São Diego me faz companhia agora que o demônio californiano Buk me jogou na lama e fugiu. Que fazer?
E o pior de tudo é constatar que ontem escrevi sobre calcinhas e cuecas. Shit.



Segunda-feira, Janeiro 27, 2003


Há mais pudores entre homens e mulheres...

Ele disse o óbvio: não gosto de calçolas. Sabe aquelas calcinhas de vovó, que toda menina tem ou já teve, mesmo que negue até a morte? Pior se for bege. Nooossa, nada mais broxante do que calcinha bege. Ele ainda especificou: aquela que brilha um pouco, das Lojas Americanas. Putz.
Aí ela disse que cueca fina não dá. Ele protestou um pouco, ela repetiu: NÃO DÁ. Cuequinha muito fina nas laterais, coisa meio Alexandre Frota na G Magazine. Eles ficaram meio assim, titubeantes. A outra disparou: E cueca cinza? Não tem coisa pior do que homem de cueca cinza. É como a cor: triste. Também NÃO DÁ. Um deles reagiu: E calcinha vermelha?
Surpresa geral.
Pânico.
A gente acha que os caras têm aquele tesão por algo de Kátia Flávia, aquela das calcinhas exocet, bélicas, antiaéreas, de framboesa, morango, comestíveis, e de repente é tudo uma lenda urbana, nem uma mera calcinha vermelha com rendinha serve??? Que isso, homem adora calcinha vermelha!, uníssono feminino embasbacado.
– Calcinha vermelha é horrível, ele disse. Vulgar. Se for de renda, então, pior. Coisa de puta. Olhei pro lado: eu tenho e sempre tive calcinhas vermelhas. Poucas, mas ainda assim vermelhas. Barganhei: Mas e se for aquele vermelho mais para o vinho, sabe? Sem ser berrante, mais comportado...Ele disse: NÃO DÁ. Revanche.
Mas peraí: desde quando homem gosta de mulher comportadinha? E desde quando homem não gosta de puta, nem que seja só pra olhar? Não, não, você está blefando. E aí ele recriminou a própria mãe: ela usa calcinhas vermelhas!! Então era isso: ele cresceu vendo sua supergata genitora usando calcinhas vermelhas. É lógico que os homens têm pudores com suas puras mamãezinhas. E ele transfere esse horror à cor da paixão para as peças íntimas de outras mulheres. Sei lá, Jocasta usava calcinhas vermelhas?
Voltamos às cuecas. Aquelas bem grandes, grossas do lado, como é o nome?, uma perguntou. Ninguém sabia, mas que são o máximo, isso são. Aquelas de anúncio vestidas por encarnações de Davi de Michelangelo. Eles na berlinda novamente. -Ah, eu adoro essas, um disse. Silêncio. Devem ter uma ou duas, ou nenhuma. Bingo. E tem mais: tem que ser branca, disse ela, impiedosa. Eu protestei: preta também pode! Tá, mas verde escuro NÃÃOOO. Pior que cinza? Também não exagera, cinza é foda. Ou melhor, não é foda. Risos.
E eles começam de novo: mulher sem calcinha. POR FAVOR, O QUE É UMA MULHER SEM CALCINHA? Não entendi para que lado o comentário ia.
- A gata sai contigo, vocês passam um tempão juntos, jantam, conversam, coisa e tal, e, no final, aquele beijo, a mão escorrega e...Oooooops! Não sinto nenhuma dobrinha! O que é isso? “É que estou sem calcinha...”
Que meiga. Você perdeu horas falando besteira, tentando ser gentil, abriu a porta do carro, pagou a conta e ELA ESTAVA SEM O TEMPO TODO SEM CALCINHA. (Nesse ponto tive minhas dúvidas se ele gostava ou não de mulher sem calcinha). Não tenho nada contra, eu disse, contanto que não seja com saia curta ou vestido esvoaçante tipo Marilyn-ao-vento. É claro que eu gosto!, retrucou rapidamente o macho. Mas é uma surpresa, né? Sei não....Facilita, depois vai ter que tirar mesmo (?), mas uma calcinha bonita sempre é show. Se não for vermelha, nem bege, nem grande, claro. E de algodão, pode?, alguém perguntou. Pode. Mas, óbvio, sem aqueles descosturadinhos laterais, aqueles fios pendurados, elástico soltando.
Underwear velha é podre, concordamos todos.
E no final das contas, calcinha - qualquer uma - lavada no chuveiro e pendurada na torneira é algo tão tenebroso quanto cueca nas mesmas condições. Só que muitas vezes as cuecas que ficam penduradas NÃO estão lavadas...
Entreolhamo-nos e mais ou menos concluímos: calcinha bonita é muito bom, é sexy, dá um upgrade. Cueca também, aquela grandinha meio justa é maneira, branca fica linda se o cara estiver queimadinho etc etc.
Mas já muito ajuda quem não atrapalha: uma peça íntima qualquer que simplesmente não dificulte - como um cinto de castidade faria - também não tem problema.
E depois dizem que mulher é que é complicada.



Sábado, Janeiro 25, 2003


VIVA HERBERT

Êxtase total. Herbert cantou, tocou, agradeceu, se emocionou, puxou palmas e fez o "L" do Lula empolgadíssimo. Cantou até "Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou..." As vezes em que se embaralhou um pouco falando fizeram o show ainda mais especial...inesquecível. Deixa eu ser piegas mesmo: meus olhos se encheram de água com Lanterna dos afogados. Um dilúvio lá fora deixou o Rio alagado, enquanto no palco ele reinava cantando a arte de viver da fé....Nota onze. Sintonia total, vontade de pular e saber todas as letras que eu não sabia, subir no palco e beijar aquela careca reluzente e corajosa. Acenamos várias vezes para ele - uma amiga ainda tentou desesperadamente pedir o Dado em casamento, mas acabou se contentando com uma piscadela do Bi com seu estilo de profeta roqueiro. Show daqueles para guardar o ingresso e colocar na agenda. Como disse o Herbert: Foda. Vou dormir que estou muuuito piegas.

Contribuições:
"Não há perigo
Que vá nos parar
Se o bom de viver é estar vivo
Ter amor, ter abrigo
Ter sonhos, ter motivos pra cantar"
(Soldado da Paz)

"E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se seu mundo for o mundo inteiro
Sua vida, seu amor, seu lar
Cuide de tudo que for verdadeiro
Deixe tudo que não for passar"
(Cuide bem do seu amor)



Quinta-feira, Janeiro 23, 2003


O simbolismo de um beijo

Beijar é fabuloso; quem negar é no mínimo insano.
Mas beijar é, mais que uma obra de prazer, uma construção cultural magnífica, um ato simbólico. Prostitutas não beijam...
O beijo é a prova de que o tempo pára. Beijo é comunicação sem palavras. É mitologia tangível. O beijo distrai, navega, recria um big bang sem saber se nascerá um universo. O beijo é um jogo feito para empatar. Para calar com umidade a boca que tenta impressionar com palavras secas. Beijar tem que ser dialogar – com opulência, suavidade ou veemência, mas sempre dialogar. O beijo é uma unanimidade inteligente. Beijar é mordiscar nuvens, é sorrir com a alma, é sugar energia de estrelas. Beijar é sanar a indolência da língua, é tirar os nervos da inércia, é curar a ressaca da insuficiência de paixão.
Um beijo na hora de ir embora muda tudo.
Abre ou fecha portas, transforma perspectivas.
O que há alguns instantes parecia perdido – a esperança ou o próprio amor -, agora, com o beijo final, é resgatado.
Beijo daqueles estonteantes, de virar o estômago e arrepiar a nuca: esqueça o que eu disse e vamos nos amar.
Bocas entreabertas, lábios úmidos, mas beijo ainda tímido: vá lá, me ligue amanhã que ainda há o que beijar.
Beijo curto, mais que estalinho, bocas querendo abrir, concluído antes da hora: nada é certo, nada é simples, muito menos te esquecer. Nos esbarramos pelos corredores...E finaliza com um beijo na testa – o mais simbólico, o mais pensado: carinhoso e assexuado.






Segunda-feira, Janeiro 20, 2003


O santo, as pernas, a pena e a estrela

Para o resto do Brasil o dia 20 de janeiro é um dia qualquer. Para o Rio, não. O dia de São Sebastião, padroeiro da cidade, é tão simbólico que muitas vezes chega a ser confundido com a data de fundação. Na verdade, o aniversário do Rio é comemorado no dia 1º de março. Mas o feriado é no dia 20.

Triste para todos nós cariocas que tenha sido num dia 20, como hoje, que uma figura carioquíssima nos tenha abandonado. Faz vinte anos que Garrincha morreu. Vítima do álcool, da ganância dos cartolas, da falta de ética, da falta de respeito. Folclórico, genial, necessário. Foi num dia 20 de janeiro. Pela televisão, de longe, assistia a multidão acompanhando a lenda. Lembro que meu pai contava quantas vezes tinha pulado os muros do Maracanã para ver o Mané jogar. Eu, criança, nunca tinha visto. O mito era o único motivo pelo qual eu tentava entender porque meu pai havia escolhido um time que completava quinze anos sem um título para torcer.

Não segui os passos do meu pai mas, mesmo sem conhecer Garrincha, fiquei com a mais pura das lembranças, a que não admite erros, a que não vê as jogadas que não deram certo. A lembrança do videoteipe.

Quis alguém ou alguma força além da nossa compreensão que, vinte anos depois, lamentássemos a perda de mais uma figura carioquíssima. Foi num dia 20 de janeiro a despedida de Oldemário Touguinhó. Hoje. Eu, ainda foca, recém-formado, conheci o Oldemário cobrindo a seleção brasileira. Eu na seleção! Era assustador. E diante de mim uma outra lenda. Esta do jornalismo esportivo. O cara que metia medo na concorrência. O dono das melhores fontes, um contador de histórias. Conversava com os mais jovens sem soberba. Sabia que estava nos ensinando e gostava disso.

Dois ou três anos depois, reencontrei o Oldemário na CBF. Debilitado por um derrame, muito magro, falando frases sem nexo e, ainda assim, merecendo todo o nosso respeito e admiração. Até o fim da vida não abandonou sua coluna no JB. Se de sua pena não saíam mais as palavras, duvido que ele não desse os palpites aos redatores. Duvido que não se preocupasse com tudo. Duvido que tivesse perdido o prazer de escrever.

Dia 20 de janeiro. O repórter e seu ídolo se reencontram em algum campinho de pelada na periferia de São Pedro. E São Sebastião, por favor, não sinta ciúmes. O anjo das pernas tortas e o anjo das penas exatas sempre souberam amá-lo pelo amor que tinham a sua cidade. Uma cidade que fica triste sem eles mas ainda é a capital brasileira do prazer. Do prazer de driblar, do prazer de informar, do prazer de viver.

Rio que torce, de verdade, para que a estrela que Mané levou no peito, a estrela que encantou Oldemário, a estrela que fez do meu pai um botafoguense volte a brilhar. Solitária. Como todos nós nos sentimos sem eles.


elucubrado por Carlos Gil



Sábado, Janeiro 18, 2003


qualquer escrito

Deitar no papel
Idéias.
Discorrer sobre um tema
À toa.
Deixar que o sentido se faça,
Com muita ou nenhuma graça,
Numa história que talvez
Nem seja boa.

A metáfora revela
Velando.
A palavra aclara e
Omite.
A forma faz o que quer:
Ilumina o insípido
Dá sabor ao escuro
Absorve do impuro
O significado líquido.

Não é nada o poeta
Sozinho.
Um pouco de cada mundo o faz;
Ele expõe, sempre loquaz
O que lhe ocorre no caminho.


Alguns precisam da guerra;
outros de lua e estrelas.
Mas de uma pedra apenas
e poucas palavras
faz-se poesia.



Sexta-feira, Janeiro 17, 2003


poema do narciso paranóico

Hoje senti uma vontade louca
de me olhar no espelho.
Não durou mais que alguns segundos
A sensação de que eu era
disforme.
Corri e olhei fundo nos olhos do outro lado,
castanhos e claros,
nem tristes, nem felizes,
mas cheios de sentimento.
Janelas de uma alma - ela sim -
disforme.
E de nada mais vale a pena falar em mim
senão os olhos.
Narizes são inexpressivos se não são muito feios;
meu nariz é de um tanto-faz irritante.
A boca, nem Bardot, nem Jolie, está lá,
indiferente.
Quer ser beijada
mas não pede um beijo.
Os olhos não: neles me vejo,
sei que estou presente,
e se não sou eu,
são duas janelas
com a alma ausente.



Quinta-feira, Janeiro 16, 2003


Previsões para 2003

Esse ano, como todos os anteriores, não fiz nenhuma daquelas palhaçadas de comer uva ou usar calcinha amarela nova no reveillon. (Tudo bem, teve um ano que eu fiz ambos, mas mais de onda do que por crença.) Na verdade, esse ano eu estava sem saco de pensar em fazer qualquer coisa inútil dessas, nem de brincadeira. Primeiro porque eu não ia estar em Búzios com um bando de bêbados pulando sete ondas, nem em Copacabana com malucos mendigando pedidos decisivos ou fúteis a Iemanjá. Ia passar num lugar pacífico, sem muita festa, ambiente família. Acabei vendo fogos num clube, mas isso já é outra história.

Não sou dessas de acreditar em rituais de fé para “entrar o Ano Novo com o pé direito”. Qualquer pé dá no mesmo, isso é uma injustiça com os canhotos. Não acho que a virada seja momento mágico coisa nenhuma, até porque ninguém se toca que estamos no horário de verão. Neguinho de tudo quanto é religião usa roupa branca e não sabe nem de onde surgiu essa tradição. Comer lentilha, jogar três moedas...Superstição pra mim continua sendo um negão com superpoderes.

Mesmo assim, demos uma olhada nas previsões para 2003:

Lendo o jornal dias atrás (jornal também é cultura), aprendi que o ano será regido por Xangô e Iansã. A associação dessas duas divindades poderá trazer guerras, doenças, incêndios e enchentes. Oxalá nos ajude.

Recomendação do I Ching, o oráculo chinês: o momento é para refletir sobre o que está fora de lugar na vida e levar a situação do caos à ordem. Mas a previsão do I Ching só passa a valer a partir do dia 1o de fevereiro, quando os chineses comemoram o início do ano 4.700. Aprendi ainda que o hexagrama que surge para o novo ano é o de número 64, que traz o título: “Antes da conclusão”. O oráculo mostra a saída de uma situação de perigo e a entrada num momento de estabilidade. Serão os deuses da estrela vermelha?

Numerólogos afirmam que 2003 será o ano da “concretização dos sonhos e das esperanças do povo brasileiro”. Ah, tá. E vejam essa frase: “Para o Rio, a previsão é de que o ano comece com os assuntos pendentes sendo resolvidos por si mesmos. O sucesso vai depender de diplomacia, complacência e passividade”. Claro. Vide Rosinha, ICMS e Silveirinha.

A astrologia diz que a “energia de Vênus poderá trazer a força que falta para a concretização de projetos” e vai estimular os relacionamentos. “Com Saturno entrando em Câncer, pessoas despreparadas que ocupam o poder podem perder espaço”. Ainda bem que não ocupo poder nem na minha casa. “Urano entrará no signo de peixes, sugerindo mudança nos cuidados com a saúde. No primeiro semestre, a boa energia de Júpiter favorecerá os signos de terra, que são virgem, touro e capricórnio. No segundo, os beneficiados serão os do fogo: áries, leão e sagitário.” Quer dizer que eu, que sou gêmeos, tô ferrada em 2003? Minha primeira resolução de ano novo: não ler horóscopo nem de brincadeira.

Já segundo a astrologia chinesa, em 2003, ano do carneiro, o conselho é relaxar e fazer as pazes com os outros e consigo. Além disso, “guerras e conflitos internacionais geralmente terminam no ano do carneiro.” Então manda o Zhu Rongji contar essa pro Bushinho.

Diz ainda uma taróloga que “será preciso muita luta e pulso firme dos governantes” para o Estado do Rio, para o qual “uma mulher forte trará realizações”. Acho bom a Senhora Garotinho começar a malhar.

Em resumo: vamos ter guerras e tragédias, mas devemos levar a situação do caos à ordem; atingiremos a estabilidade (financeira? Monetária? Amorosa?), concretizaremos nossos sonhos (o povo brasileiro), devemos relaxar e fazer as pazes com todos e conosco, talvez os conflitos internacionais terminem, a Rosinha nos trará realizações...Pelamordedeus, cadê a mãe Dinah??? Queremos previsões do tipo "o bondinho vai cair com a Kelly Key e o KLB dentro"!


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Haja simpatia

Mas o must são mesmo as simpatias. Uma tal de Pudica, de um programa da Rádio Globo, tem um acervo de mais mil. Algumas mandam passar um galho de arruda e uns grãos de arroz cru pelo corpo, enquanto se mentaliza progresso e fartura. Outra, aquela das uvas, ainda diz pra guardar os caroços na carteira, além de distribuir dinheiro pra família à meia-noite.

As melhores:

EMPREGO: À meia-noite, pegue uma página de anúncios de empregos, dobre-a sete vezes e acenda sobre os anúncios uma vela branca. Deixe que ela queime até a metade. No início do novo ano, vá procurar emprego levando a metade da vela.

AMOR: À meia-noite, pegue uma rosa vermelha e ofereça a Santo Antônio, dizendo: “Meu Santo Antônio, um grande amor, em 2003, o senhor há de me arranjar”. Guarde a rosa até o grande amor aparecer. Se estiver na praia, ofereça a rosa à Iemanjá(sic).

CASAMENTO: Pegue uma rosa e um cravo, amarre-os com uma fita rosa e outra azul e dê um laço. À meia-noite, jogue o pequeno buquê pela janela, dizendo: “Em 2003, vou me casar com aquele que há de me amar”. Acenda uma vela a Santo Antônio toda terça-feira.

Após um ano em que escapulários viraram moda, estampas de santos e santinhos pendurados pra todos os lados enfeitaram patricinhas, hippies chic, patricinhas pop e outras denominações vestimento-comportamentais, nada mais coerente que começar 2003 como neodevota(o) de Santo Antônio...Mesmo que casamento ainda não esteja nos planos, pelo menos você vai ser cult.



Terça-feira, Janeiro 14, 2003


2003?

O ano começou já há alguns dias, e eu nem aí. Não fiz essa coisa de lista do que quero ou devo fazer ou mudar em mim mesma. Nenhuma resolução de ano novo. Até pensei em fazer, publicar aqui ou colocar no escaninho dos escritos secretos, mas desisti. A última vez que resolvi fazer uma lista terminei só agradecendo pelo ano que havia passado, 1997 - um ano esquisitíssimo. Mas uns dias atrás pensei em escrever todas essas coisas: “este ano vou dormir mais cedo, malhar mais, comer menos, lavar mais a louça em casa, ler mais, ajudar as pessoas, trabalhar numa favela, escrever mais, ligar pros amigos que acham que eu fui abduzida por ETs porque desapareci. Vou ficar mais serena, rezar mais, ser mais legal com as pessoas, ter mais paciência com a minha mãe, falar menos palavrões, finalmente aprender francês, ler mais em inglês, fazer mais o que quero e menos o que é sempre certo, mas ao mesmo tempo fazer o certo mais vezes etc etc”. A lista seria interminável, além de contraditória, e eu, ao contrário de minha amiga do www.bemmequermalmequer.blogger.com.br, não chegaria nem perto de realizar seus itens. Então resolvi não fazer resolução nenhuma, só pedir saúde e paz a Deus e tentar ser gente boa. Mas não abusem da minha paciência, porque uma mulher sem promessas é uma mulher livre.


O extermínio do prefixo "ex"

Fidelidades, infidelidades, perdão, amor, amizade....Certo dia, depois de assistir “Separações”, a musa carioca Brenda Mariano resolveu escrever uma carta reveladora. Enjoy.

Resolvi escrever uma carta. Uma carta, é, uma carta. Acho que uma carta. Ou talvez um pensamento apenas, ou talvez quem sabe, um testamento. Na verdade, já queria escrever essa carta antes mesmo de ir ao cinema. Mas antes de ir ao cinema, eu fui a praia. Com a minha ex-cunhada, meu ex-cunhado, meus ex-sobrinhos e minha amiga com o namorado. Depois eu continuei querendo escrever uma carta, mas resolvi tocar violão e achar um final para a minha música nova. Tentei Vinícius de Morais e li alguns sonetos para me inspirar... Mas o tribalismo não me sai da cabeça e só o que consegui pensar foi “sonhar acordada”, de madrugada você e eu”, “ir sem medo da estrada”, Blargh! Não terminei a música e nem escrevi a carta. Aliás, antes de entrar no cinema não pude pensar na carta porque estava no telefone com o meu pseudonamorado. Pseudo? Bom, se eu escrevi pseudo, é porque assim é. Onde eu estava mesmo? Ah, no cinema... Enfim, entrei no cinema para assistir o filme. Que filme? Ah, um filme aí... Sem expectativas, sem ambições, sem lembranças, sem esperanças, sem pipoca... nada. Só entrei no cinema para assistir um filme...
Um filme...Que filme!
Na terceira fila da sala de cinema, comecei a pensar em tudo e em todos que existiam ao meu redor. Tudo se encaixava perfeitamente. Amigos, amores, ex-casos, ex-amigos, novos amores... Acabei de me lembrar de um ex-amigo que num ex-reveillon disse:
– “O mundo dá voltas e pára aqui, em Geribá”. E não é que depois de anos o reencontrei em Geribá? Ah, tá bom, o filme....
Sabe aqueles filmes que você sai do cinema querendo voltar correndo para assistir tudo de novo? Sabe aqueles filmes que dá vontade de ter um caderninho de anotações e escrever algumas falas para poder se lembrar depois? Sabe aqueles filmes que você não precisa de um caderninho, porque você não consegue esquecer as falas, não consegue se separar dele?
Separações...
Minha primeira maior vontade foi mandar o filme pelo correio para o meu ex, meu primeiro ex-namorado com um bilhete assim:
Quem amou um dia tem que virar amigo, porque se o amor não for amigo, a vida fica muito cruel...
E colocaria mais. Assinaria assim:
-Assista, viva, e foda!
Minha amiga falou que eu deveria colocar assista, viva, e não me ligue nunca mais.
Não. Quero terminar minhas relações em uma mesa de um bar falando sobre a terra a água e o mar... Eduardo e Mônica, Romeu e Julieta, a Dama e o Vagabundo, Clark Kent e Louis Lane, Julia Roberts e Richard Gere, Julia Roberts e Hugh Grant, (inclua nessa lista todos os filmes que ela fizer o papel da mocinha ou da melhor amiga), Glorinha e Cabral...
Ah Cabral... Como foi bom te assistir! Concordo com ele em quase todas as expressões, falas, gestos, bebedeiras, flores, micos (por que não micos)... Até a cor da parede combinou com a mesa da casa com uma charmosa varandinha... Gostei de tudo! Me vi em tudo! Amar tão intensamente e entender a tal INFIDELIDADE. Entender a infidelidade é a forma mais verdadeira de amar e de ser fiel.
Para mim, fidelidade é ter valores. Infidelidade é faltar com a verdade na hora mais difícil de a pronunciar. A quem ache que traição é um sinônimo de infidelidade...
Ponto número A:
Se resistirmos aos nossos desejos e paixões, não estaremos sendo infiéis com a nossa vontade, não estarei sendo infiel comigo mesmo?
Ponto número B: na vida você tem duas opções: se trair e/ou trair. Bom, então são três.
Ao meu entender (o que não quer dizer absolutamente nada) traição é a falta de coragem para dizer a verdade. Por isso, meu ex-namorado não perguntava o que ele queria saber. Sabe porque? Porque ele saberia que eu diria. Pior, saberia que não agüentaria, me largaria, se separaria... Eu sempre perguntei porque suportaria, entenderia e aceitaria. Qual virtude é maior do que a coragem? Talvez o perdão. Eu perdoaria. Eu perdoei, e perdoaria de novo. E gostaria que fôssemos amigos. Cabral perdoou. Aceitou e continuou amando, sem máscaras, sem pudor, sem mentiras, sem mistério. Se despiu de qualquer orgulho, de qualquer fórmula, de qualquer conselho e apenas amou. E sofreu. Quem não sofre quando ama? Se não sofre, não ama.
Mas sabe porque eu gostei tanto do filme? Percebi que a palavra (palavra?) EX foi exterminada! SIM! Cabral me fez o grande favor de acabar com os ex-namorados, ex-amigos, ex-cunhados... Cabral, Cabral, que descoberta incrível! É claro! Tão simples, e eu procurando uma frase tola para uma música mais tola ainda. Tola, mas ainda sim, uma toada de um diário em forma de viola...
Então: nenhum amor é ex. Se é ex, é porque não foi amor, ou porque ainda não acabou, ou porque não resolveu entender que amou, passou, mas não esqueceu... Claro! Porque esquecer de alguém que se amou? Porque dói? Não me venha com essa. Toda dor passa. E quando passa, fica a cicatriz para lembrar e não deixar esquecer. Quem esquece não tem passado. Quem não tem passado, não tem história para contar. Quem não tem história para contar, é triste...
Claro Cabral! Quem foi ex, vira amigo. Quem é amigo é presente. E quem é presente, é guardado para o futuro! Entendi.
Hoje, eu saí do cinema e escrevi uma carta. Escrevi uma carta logo depois que saí do cinema. Na verdade, já queria escrever essa carta antes mesmo de ir ao cinema. Mas antes de ir ao cinema, eu fui à praia com meus amigos. Presentes amigos. E depois da praia falei com o meu pseudonamorado. Pseudo? Bom, se eu escrevi pseudo, é porque assim é...
Onde eu estava mesmo?

elucubrado por Brenda Mariano, a musa de Antônio Pedro e Eduardo Pedro, os quais, desconfio, são a mesma pessoa



Quarta-feira, Janeiro 08, 2003


Bush, Saddam e Yemanjá

Eu acho que eu sou uma pessoa muito chata. Porque qualquer um que se esforce pra ser legal no fundo é um chato de galocha. Hoje eu percebi o quanto eu sou pentelha às vezes – muitas vezes -, e peço perdão aos meus amigos passados, presentes e futuros. Eu juro que me esforço, tento ser legal, mas se pegar nos meus calinhos eu faço como aquele cara do Edifício Master: passo de Piaget pra Pinochet.
Ontem consegui discutir fervorosamente em Ipanema contra a idéia de que o Lula não pode ser um bom presidente porque não fez faculdade. Espero inclusive que você que está lendo isso concorde que essa afirmação é no mínimo estapafúrdia, senão na próxima vez que eu te encontrar pode ser nos jardins do Éden que a gente vai discutir e eu vou mostrar como sou chata. Mas ontem pelo menos a praia estava imunda, e como eu não sou chegada a uma coprofagia, nem mergulhei no cocô da Vieira Souto e sobrou tempo pra discussões inúteis. Hoje não: na Praia de Grumari, cenário paradisíaco, vazio, mar e montanha frente a frente com areia branca no meio, e eu realizei a façanha de discutir sobre guerra, Bush, a imbecilidade norte-americana, Iraque, Palestina, árabes, Al-qaeda e o raio que nos parta. Fala sério, só depois de muito tempo fui me tocar de como sou otária. A vida cor-de-rosa com cheiro de mar limpinho, queijo coalho, mate gelado, frescobol, paz total, e eu, que não ajudo ninguém, não salvo ninguém nem da guerra civil carioca, não sou P.N. e nunca pisei no Afeganistão, quebrando o pau sobre guerra com outras duas loucas patuscas como eu (com todo o respeito às minhas amigas, que são beeem menos chatas do que eu).
Tudo bem que a Tati Quebra-barraco e a Brenda American Way of Life ajudaram e muito, mas se me lembro bem fui euzinha quem começou a joselitice toda. Bem-feito: Yemanjá não nos agüentava mais e resolveu agir. Depois de três horas sentada como um buda ditoso debaixo da barraca, eu resolvi ir à água. Foi só sair e Yemanjá, Poseidon e suas sereias mandaram uma onda tsunami invadir nossa praia e carregar chinelo, cangas, fita de vídeo, roupas, bolsas arreganhadas, CDs, celulares e outras coisinhas supernecessárias para a nossa sobrevivência. A pesquisa sobre Isabel de Castela da Brenda virou paçoca, Clarice Lispector, Van Gogh, Jostein Gaarder e O Globo se afogaram, meus CDs voltaram pra casa salgados e cheios de areia - assim como minha agenda com os míseros contatos que um dia tive -, meu rádio do carro deu piripaque e meu celular virou lenda. Entrou água até no visor, eu tento ligar e ele treme, agoniza e faz barulho de rádio AM. Portanto não liguem pro meu celular, quem quer que leia essa dejeção mental. Até porque eu sou uma pessoa muito chata e vocês não vão querer falar comigo.



Domingo, Janeiro 05, 2003


Brazilian Secret Mythology - The lady in the balcony

Once upon a time there was a young lady crying on her balcony. She was looking at the trees on a beautiful full moon night, and still she was crying. She could feel the whole world’s pain at that very moment. If there was a little boy crying in Africa, she could hear him. If there was an old lady mourning at her son’s body in Palestine, she could also feel it. All the world’s grief was on her shoulders, and she felt heavy, but never weak, although she almost fell apart for less than a second.
She wished she were that girl from the fairytale who had a very long hair that a handsome prince climbed (she could not remember the girl’s name or what was the prince supposed to save her from). But the young lady did not have a very long hair, and she knew her life was nothing like a fairytale.
Her tears became so thick that they started to fall from the balcony and make little holes on the reddish sidewalk. Then she thought that maybe, if she let her tears drop in the exact same spot on the sidewalk, they would form a stalagmite that could be the path for a prince to come, climb and save her from that atrocious pain.
So she cried night and day interruptedly: on beautiful and sunny days, on stormy afternoons, on starry or foggy nights – there she was, the lady in the balcony, crying her heart out, quiet or loud.
She got used to the crying and could feel even more all kinds of pain that were in the world. Each new pain gave her more hope: it would make her cry more, and that would make the stalagmite grow more.
One day it reached her, but she was so used to her own ritual that she could not stop mourning, although she was almost happy. She hoped her prince would show up, climb the tear rock and rescue her from the unbearable pain.
But the prince never came, and the lady who once was young became old and wrinkled. She was so absorbed on her pain and the world’s pain that she never realized that she could have climbed down the stalagmite, just in case the handsome prince never showed up. And she kept crying and crying for eternity.
It is said that, whenever you hear a weep noise on full moon nights, you should not cry for any reason, because the balcony lady could transfer her pain to you to set herself free. Maybe that is why there are full moon parties in places like Thailand: so that people are always happy and dancing and do not let the lady’s hopeless weep take over their feelings…



Sábado, Janeiro 04, 2003


Rome Alone

Today it is one of my best friends’ birthday. Actually, we call each other “wife” or “twin”, but without any sexual connotation…She has taught me many, many lessons, even though she is so young (she is turning 22 today). I hate classifying people, but she is the kind that is so simple that becomes complex, if anyone knows what I mean. She is also very, very smart - the fascinating kind of smart person, who doesn't know everything, but is broadminded and interested in the world more than in her own belly-button.
She would always listen when I uttered my unusual opinions about the American people and government (unusual there). She would even laugh at my cussing at George W. Bush! She is definitely not an average American. And how could I have possibly survived without my editor? I could never send my articles and stories to the university’s newspaper or even turn them in to the professors without having her read everything before.
I feel like it is possible for anyone to live a situation like in the movie “Hable con ella”: friendship and love can be the same, and there is no gender when we talk about such things. It is not gay to love someone that much, no matter if the person is a man or a woman. I love my true friends in an unconditional way, just like Marco and Benigno, in the movie, did. It is called an Agape love, the noblest form of love...
Kathleen is on my top 'about 5' list…and don’t even think about asking me who are the others. Once, when she was traveling around Europe, visiting Pompeii and Monte Carlo happily on her flip-flops, she took a break and wrote to me one of the thousands of great e-mails we have been exchanging since I left San Diego. It was one of the most beautiful things I had ever read. This excerpt is a bit pessimistic, but it is so true that I want to transcribe it here, because I have felt like this so many times in my life…Even though I know I have good friends here and in other parts of the world.
I miss her every single day.

At the train station in Rome waiting for my connecting train
I was just sitting there all by myself and it felt like
I was being given a glimpse of my eternity.
No matter how many people we meet in life,
no matter how many friends,
we always end up alone
sitting on a bench somewhere.



Sexta-feira, Janeiro 03, 2003


Poema del día:

Versos Sencillos (V)


Si ves un monte de espumas,
Es mi verso lo que ves:
Mi verso es un monte, y es
Un abanico de plumas.

Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.

Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero,
Es del vigor de acero
Con que se funde la espada.

José Martí



Sábado, Dezembro 28, 2002


Frase de uma amiga sensata que voltou à pátria:
“Tá foda. Tá difícil entender a Kelly Key, como o Jota Quest ainda existe...E o que foi o FH recebendo o Roberto Carlos de terno azul piscina?”


"...And I have lived that kind of day
When none of your sorrows will go away
It goes down and down and hit the floor
Down and down and down some more
Depression
But I know there'll be some way
When I can swing everything back my way
Like skyscrapers rising up
Floor by floor - I'm not giving up"

elocubrado por Joe Strummer (e Mick Jones), vocalista e guitarrista do The Clash que morreu domingo passado



Quinta-feira, Dezembro 26, 2002


Death to the shopping centers. Let's bomb Barrashopping, Fashion Mall, Shopping da Gávea, Rio Sul, Iguatemi. Botafogo Escada Shopping has a nice view, at least. Please, just go to malls right before June 1st to get me a nice birthday gift, and again in december, 2003, for my Christmas gift. Don't you EVER go to malls without honorable causes like those. If you are the kind that goes there "for a walk", please, stay away from me.

Shopping malls are liquid TVs for the end of the twentieth century. A whole micro-circuitry of desire, ideology and expenditure for processed bodies drifting through the cyber-space of ultracapitalism.
—Arthur Kroker



Segunda-feira, Dezembro 23, 2002


Dia 23 de dezembro, espírito natalino, árvore linda na Lagoa...Teria que falar alguma coisa sobre o Natal. Mas este ano meu Natal não é dos mais felizes, e estou com preguiça de falar sobre isso. Nesta época em que, apesar de quase todos já terem esquecido, se comemora o nascimento de Jesus (e não as vendas recorde nos templos do consumo), eu fico assim meio tristonha, mais melancólica do que o normal, meio reflexiva sobre tudo o que fiz de mal e tudo o que poderia fazer para melhorar o mundo, ou pelo menos o Rio de Janeiro, ou minha casa, ou eu mesma - se efetivamente parasse para pensar sobre isso com mais freqüência, e não somente no dia 23 de dezembro.
Enfim, não vou falar sobre o Natal, sobre a perda de significado desta data simbólica (não, Jesus não nasceu dia 24 de dezembro do ano zero). Em vez de nascimento, vou falar sobre morte. Mais precisamente sobre um enterro.

O enterro de Dona Glória

“Dotô Renato, essa é minha filha que eu falei pro sinhô”. O doutor da Barra da Tijuca apertou a mão da moça negra jeitosa e disse: “Ah, sim, como vai? Vou falar com o pessoal lá do sétimo andar e ver se eles precisam de alguém.” O olhar sincero de alívio e agradecimento transbordou do pai da moça. “O sinhô não sabe o quanto isso ia ajudar, Deus lhe abençoe.”
Uma ponta de esperança surgiu pra alguém, no enterro de uma pessoa